Você nunca estará sozinha – Cap 8

Apesar de propositalmente ter gerado uma ponta de ciúmes em Vanessa, Clara não deu o braço a torcer. Continuou na pista com Simone sem sequer olhar o redor.

Do lado de fora da boate estava Vanessa, visivelmente incomodada e louca para ir embora. Com seu celular em mãos, ela tratou de avisar para suas amigas que estava deixando a boate e assim o fez. Pegou um táxi e seguiu para casa pensando no que tinha acabado de acontecer.

Vanessa é contida, tímida. Não costuma se relacionar muito bem com pessoas, na verdade as evita. Entre um relacionamento conturbado e outro, ela não esconde seu interesse em homens e mulheres, mas sempre foi muito discreta. De poucos amigos, ela prioriza sua relação com os animais, e para eles não poupa amor e carinho. Mas naquela noite ela sentiu uma pequena abertura. Aparentemente, Clara conseguiu um espaço que Vanessa não dá para uma quase estranha.

Do outro lado, entre várias músicas e mais alguns drinks, o dia amanheceu. Clara não se despediu de Vanessa, mas tinha certeza que ela tinha ido embora após a provocação na pista de dança. A boate não era tão grande, Vanessa não conseguiria se esconder por mais de uma hora. E ela realmente foi para casa depois do que viu.

Quase todos já tinham ido para casa, inclusive. Walter foi embora com Dudu e Simone, enquanto Bela e Clara continuavam na boate até não restar quase ninguém.

– Clarinha, pedi um táxi pra gente, acho que a festa já acabou! – Disse Bela, aos risos.

– Que droga, né? Eu tava me divertindo, esse povo não sabe curtir!

– É que já amanheceu, amiga!

– Sinal que está cedo demais pra ir pra casa! Vamos ficar mais, Belinha!

– Teremos outras festas, Clarinha, vamos lá pra porta, vem!

As duas saíram de braços dados da boate, onde um táxi já estava esperando por elas. Foram conversando durante o curto caminho, onde Clara seria deixada primeiro.

– Meu, você viu o Walter, que cuzão?! – Numa pergunta retórica, Clara fez questão expor sua revolta.

– Tá falando de ele ter ido pra cima da menina que você ficou?

– Claro, Belinha! Super desnecessário, a Vanessa falou um monte que não queria nada com ele, senão eu nem teria ficado com ela, né.

– Relaxa, Clarinha! Tava todo mundo bêbado, depois você encontra essa mina e se acertam!

– Tá louca? Eu nunca mais vou encontrar essa menina, já foi uma sorte revê-la, mas o Walter não vai me dar espaço pra chegar nela não!

– Vocês já se conheciam?

– Ah, a gente se conheceu essa semana no Villa Lobos, eu tava com meu filho e ela com o cachorro…

– Então vocês se conhecem, se encontram numa balada e você já tá apaixonada?

– Ai, Belinha! Até parece, né? A menina é gata e gente boa, a gente trocou uma ideia legal e acabou rolando um beijinho só, não to apaixonada! Eu to é bêbada! – Clara e Bela caíram na risada e logo em seguida o táxi parou na porta do flat onde Clara está com o filho e o marido. As amigas se despediram e, com o salto alto na mão, Clara seguiu para o oitavo andar.

O relógio já contava quase sete da manhã quando Clara bateu na porta do apartamento. Fábio, seu marido, a recebeu ainda de pijama:

– Bom dia, princesa! A festa rendeu, hein? – Clara deu risada e cumprimentou seu marido com um beijo.

– To morta e meio bêbada, amor! Mas nossa, foi muito bom sair com o pessoal. Fomos no Inferno, aqui pertinho! Cadê o Pedro?

– Ainda tá dormindo lá no quarto…

– Vou tirar essa roupa e me jogar lá com ele. Você tem algo pra fazer hoje?

– Só umas ligações pra saber como anda tudo na empresa. Mas você não vai me contar nada da noite?

– Ah, não tem muito o que contar. Bebi e dancei um bocado, o Dudu tocou com a banda dele e eu beijei uma garota lá. Lembra da menina que eu te falei?

– Que menina?

– A que eu e Pedro conhecemos no Villa Lobos, eu te falei dela. A mina que tava com um cachorro e o Pedrinho adorou.

– Não lembro não, mas o que tem ela?

– Foi ela que beijei, amor! – Disse Clara, sorridente, enquanto se desfazia da roupa e se encaminhava para o quarto.

– Entendi, vai lá deitar, você tá bem animadinha!

Clara escovou os dentes e se jogou na cama. Deu um beijo em seu filho e logo caiu no sono. E durou pouco, menos de duas horas.

Pedro acordou e tratou de fazer uma bagunça enorme até Clara despertar. Cheia de sono e com uma ressaca maior que ela mesma, Clara fez o gosto do filho e acordou. Brincou com Pedro até Fábio aparecer na porta do quarto, rindo de Clara sendo pisoteada pelo menino.

– Esse moleque tá ficando pesado, amor! – Resmungou Clara, em tom de brincadeira.

– Ele tá espertão, acordou e foi direto colocando a mão no seu rosto pra te acordar, não é?

– Fez isso mesmo, já sabe o caminho! Vou levantar pra fazer algo pra ele comer, senão fica tarde e ele não almoça… Aliás, que horas são, Fábio?

– Acabou de dar nove horas.

– Po, Pedrinho! Nem me deixou dormir! Achei que já era quase meio dia, minha cabeça tá do tamanho desse quarto!

– Bebeu muito?

– Nossa, demais! Mas tava tudo tão legal, já quero mais festas com aquela turma!

– Vai com calma, princesa!

– Relaxa! E você, resolveu suas coisas?

– Ah, liguei pro Diego. Ele falou que tá tudo tranquilo e seguindo na empresa, mas o meu primo foi lá de novo. Dessa vez levou uma intimação…

– Intimação, Fábio?

– É, pedi pro Diego ler e o cara não tava blefando. Abriu nova investigação e me intimaram. Se eu não aparecer por lá em dois dias, serei considerado foragido, dá pra acreditar?

– Isso só pode ser loucura. O que você vai fazer? – Perguntou Clara, preocupada.

– Eu não sei. Sinceramente não sei.

– Não tem o que pensar, Fábio. Volta pra lá e vai fazer o que quere, depor ou seja lá o que for pra ser feito! Você não tem culpa de nada, então vão te liberar!

– Não é assim, Clara.

– Como não? Você me explicou tudo, você não tem nada a ver, não é isso?

– Claro que eu não tenho nada a ver, mas isso tudo tem que ser provado, não é só chegar lá e falar.

– E você não tem como provar?

– Tenho, princesa.

– E porque não resolve isso de uma vez?

– É cansativo, é desgastante…

– E ser procurado pela polícia não é desgastante? Você tem um filho, Fábio!

– É por ele que eu to aqui, por vocês dois.

– Não, Fábio, isso tá errado! Era pra você estar lá!

No meio da conversa o celular de Clara tocou e ela atendeu, era Maiara.

– Oi, Má! – Fábio foi até a cama, pego Pedro no colo e foi para a sala com o filho.

– Oi, Clarinha! Tá tudo bem ai?

– Ah, eu acho que tá. Fábio tá aqui comigo e com Pedrinho, estávamos conversando sobre uns problemas dele.

– É sobre isso mesmo que eu quero falar com você.

– Como assim?

– Eu jamais me meteria se não estivesse realmente preocupada, mas se eu posso te aconselhar: se afasta do seu marido e manda ele voltar pra Vegas correndo!

– Eu não to entendendo nada, Má.

– Ele não te falou que tá sendo procurado por aqui? Até no jornal a cara dele já saiu!

– Ele tava me falando exatamente sobre isso… Aliás, não isso, mas que enviaram uma intimação pra ele. Você tá sabendo de tudo?

– Não to sabendo de nada, não li a reportagem completa, mas vi que era algo sobre roubo numa empresa da família dele, ou algo do gênero. Não é só intimação não, Clarinha! Ele tá sendo procurado, acorda!

– Eu preciso conversar com ele, Má. Me faz um favor? Você tem esse jornal?

– Tenho!

– Me manda uma cópia por e-mail? Sei lá, tira uma foto dessa reportagem, preciso saber o que tá acontecendo.

– Farei isso, amiga. Mas segue meu conselho e se afasta do Fábio rápido!

– Calma, Má. Eu não posso me afastar do meu marido assim, eu preciso entender tudo, preciso escutar ele.

– Você vai entender assim que ler essa reportagem, Fábio perdeu meu respeito. Só cuida de você e do Pedrinho, por favor! E me liga qualquer coisa!

– Fica tranquila, Má. Qualquer coisa eu te ligo sim, brigada por tudo, amiga. Eu te amo!

– Amo você, gatona, beijo!

Clara ficou desnorteada. Maiara não ligaria preocupada daquele jeito se tudo não fosse realmente sério. Fábio tinha acabado de contar algo parecido para ela, mas na versão dele não parecia tão grave.

Sentada na cama e com o olhar distante, Clara não conseguia raciocinar direito. Era muita informação e quase nenhuma, ao mesmo tempo. Seu marido poderia realmente ser um criminoso, a ficha não estava caindo.

Ela levantou e foi em direção à sala, onde Fábio estava brincando com Pedro.

– Fábio, deixa o Pedro no cercadinho e senta aqui no sofá comigo, precisamos conversar.

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Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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