Você nunca estará sozinha – Cap 6

Clara terminou sua maquiagem e, no mesmo minuto, seu celular tocou. Simone já estava esperando por ela na porta do flat. Clara se despediu de Fábio e deu um beijo em Pedro, que dormia ao lado do pai.

Entrou no elevador e, durante os oito andares de descida, ficou se olhando no espelho. Vaidosa, fez questão de conferir cada detalhe da produção. Os cabelos ganharam certo volume, afinal, Clara nunca sai de casa sem seu aplique. A maquiagem estava na medida certa, realçando seus olhos, valorizando seu sorriso… Seu vestido era um espetáculo a parte: curto e justo, fazendo contorno em seios fartos e uma cintura definida. Clara não se importa por ser pequena, sabe que diante do resto sua altura é um mero detalhe.

Simone estava fora do carro com mais três velhos conhecidos de Clara: Dudu, Walter e Bela. A recepção foi calorosa! Entre abraços, todos pareciam não acreditar naquela reunião. Clara estava de volta. A maioria se conhecia desde a adolescência e sempre se encontravam nos finais de semana, especialmente em shows e alguma balada voltada para o rock, exceto Walter, que Clara conheceu pouco tempo antes de se mudar para Vegas.

– Vamos lá, quem acredita que essa mulher, com esse corpinho, é mãe? – Simone segurou a mão de Clara e a fez dar uma voltinha. E continuou. – Po, Clarinha! Achei que você ia trazer o moleque pra mostrar que ele existe, ninguém aqui tá acreditando em você, né gente?

Todos concordaram e Clara riu da situação. No fundo ela sabia que isso era algo difícil de acreditar, afinal, ela sempre foi a mais solta entre os amigos. Dificilmente estava envolvida num relacionamento sério e sempre quis distância disso.

– Não me diga que você deixou de ser a nossa Clarinha… – Desconfiou Dudu.

– Óbvio que não, gente! Eu só estou casada e tenho um moleque, de resto sou eu mesma!

– Vocês deixem de ser bestas e vamos beber, eu to com sede e tenho certeza que a Clara também! – Exclamou Bela.

– Isso, entra todo mundo no carro e vamos sei lá pra onde! – Concordou Clara.

Resolveram ir até algum bar ali perto, na Rua Augusta, para jogarem um pouco de conversa fora antes de ir para o Inferno, balada onde Dudu tocaria com sua banda mais tarde.

A noite foi iniciada com dois shots de tequila e um belo brinde com vodca. Walter, que não é lá muito chegado em bebida, preferiu ficar responsável pelo carro e acompanhou a bebedeira tomando um belo refrigerante.

Clara era a estrela da noite. Todos estavam curiosos acerca da sua vida em Vegas e de todas as mudanças que ocorreram desde então. Queriam notícias de Maiara, inclusive. Clara estava feliz por rever seus amigos, se sentiu com vinte anos e estava louca para aproveitar tudo aquilo.

Passada pouco mais de uma divertida hora, Dudu chamou atenção para o horário, ele precisava ir para o clube onde tocará e todos o acompanharam.

Em plena madrugada de terça-feira não encontramos adolescentes em baladas, muito menos em baladas de hard rock. A turma era animada, a casa estava consideravelmente cheia de adultos conhecidos, e um ou outro velho enturmado. Gente bonita e gente muito estranha, coisas que só São Paulo consegue reunir.

Clara estava ainda mais animada, fazia um belo tempo que ela não bebia, então os shots e doses de vodca rapidamente fizeram efeito. Ela se esbaldou. Cantou a maioria das músicas e dançou com seus amigos. Enquanto dançava um pouco mais perto de Walter, ele avistou uma amiga e falou para Clara que iria cumprimenta-la.

Walter foi ao encontro da garota e Clara continuou dançando sem preocupação alguma. Ela só não esperava que essa amiga fosse Vanessa. Longe de prestar atenção, Clara não olhou para onde Walter foi. Eles até estavam próximos, mas a euforia inibiu sua visão.

– O que uma gata dessa tá fazendo desacompanhada? – Walter brincou com Vanessa, que estava próxima ao banheiro sozinha.

– Nossa, Walter! Dá aqui um abraço, quanto tempo! Poxa, to esperando as meninas, entrou umas três no banheiro e eu preferi ficar aqui fora, adoro essa música! O que você tá fazendo aqui? Você odeia balada durante a semana!

– Ah, hoje é diferente. Tipo, to com uma galera das antigas, uma amiga chegou de viagem e a gente resolveu se reunir! Amigo nosso vai tocar aqui hoje também, ai unimos o útil ao agradável, sabe como é?

– Meu, que legal! Com quem você tá?

– Tipo, tá vendo aquela loira ali? – Walter apontou para Clara que, naquele momento, estava rebolando até o chão com Bela. De fundo, Sweet child o’ mine era a trilha sonora.

– Mano, é ela! – Vanessa retrucou surpresa, causando curiosidade em Walter.

– Vocês se conhecem?

– Eu encontrei essa mina com o filhinho dela essa semana! O nome dela é Clara?

– É sim! Que louco, essa cidade é tipo um ovo! Vamos lá falar com ela, então!

– Não! Você tá louco, mano? A mina nem sabe quem eu sou!

– To entendendo mais nada, Van! Tipo, tu acabou de falar que conhece ela, como ela não sabe quem é você?

– Ah, mano… É que a gente se encontrou super a toa, eu tava passeando com meu cachorro, ela nem vai lembrar, deixa quieto.

– Vai entender as mulheres, meu Deus! Então vem cá e dança essa comigo. – Walter puxou Vanessa pela cintura e os dois dançaram juntos.

Ali perto Simone cutucou Clara e perguntou onde Walter estava. O show de Dudu iria começar em poucos minutos e ele havia esquecido algum equipamento no carro, Simone precisava da chave para ir buscar. Simone pediu para Clara conseguir a chave do carro enquanto ela pegava outra bebida.

Clara tentou se localizar na balada e avisou Walter a poucos metros de onde ela estava. O viu dançando com uma loira e, até então, não reconheceu a moça. Chegou próxima ao casal e bateu no ombro de Walter que, assustado, largou Vanessa e se virou.

– Dá a chave do carro, a Simone vai pegar sei lá o quê de sei lá quem nele. – Pediu Clara, enquanto dava um gole em sua bebida.

– Que susto, mulher! Toma ela aqui.

Enquanto Walter procurava a chave em seu bolso, Clara levantou o olhar em direção à Vanessa. Instantaneamente ela reconheceu Vanessa, que estava a encarando, como se esperasse por esse reconhecimento.

– Ei, você é a mina do parque Villa Lobos, não é? Que tava com um cachorro!

– Sou eu sim! – Respondeu Vanessa, contente com a reação de Clara.

– Vocês se conhecem? Namoram? – Indagou Clara.

– A gente se conhece sim e não namoramos não, imagina, Walter é um amigão! – Respondeu Vanessa.

– Tipo, nós não namoramos porque ela não quer, olha que mulherão, você acha que eu não quero? Oitenta por cento dessa balada quer ela. – Brincou Walter.

– Deixa disso, mano! – Vanessa ficou envergonhada.

– É verdade! Tipo, tá vendo aquele cara ali que tá discotecando hoje? Ele chama Kadu, namora uma conhecida nossa, Clara, e é louco pra pegar a Vanessa! To mentindo, Van? – Continuou Walter.

– Não… – Os três caíram na risada.

– Ai, Walter, vai lá você levar a chave do carro que eu vou ficar aqui conversando com ela. – Clara não deu chance para Walter decidir ir ou não, ela intimou seu amigo, inclusive dando um empurrãozinho para ele se afastar de Vanessa e ela ocupar seu lugar. E ele foi sem retrucar.

– Então, nossa, que coincidência, né? – Clara se aproximou de Vanessa e puxou assunto.

– Mano, muita! Faz tempo que vocês se conhecem? Eu nunca te vi com o Walter! – Respondeu Vanessa.

– Faz um tempo sim, mas é que eu não to morando aqui em São Paulo tem um tempo, cheguei de viagem essa semana. Tinha uns cinco anos que não pisava aqui.

– Ah, então tá explicado! Porque eu sempre vejo o Walter e nunca vi você junto, eu lembraria se tivesse visto!

– É? Por que? – Vanessa não estava esperando essa pergunta de Clara, ela havia dito que lembraria por pura espontaneidade, mas Clara não deixou escapar.

– Modo de dizer, mano… – Vanessa caiu na risada após responder, ficou visivelmente embaraçada com a indagação de Clara.

– Eu também lembraria de você se tivesse te encontrado, assim como lembrei. – Clara deu um gole em sua bebida enquanto encarava Vanessa, após falar essa frase. Vanessa respirou fundo, como quem sente a espinha gelar.

– O que você tá bebendo? – Continuou Clara.

– Não to bebendo hoje não, vim só pra acompanhar umas amigas, que eu acho que até já saíram do banheiro e me largaram aqui com o Walter!

– Ah, para! Toma um drink comigo, só um! É pra comemorar essa bola dentro do destino!

– Tá bom, mas só um, hein?!

Clara não conseguia parar de olhar para Vanessa. Ela não resistia. Vanessa estava com um short curto, um par de pernas aparentemente esculpidos com uma séria preocupação com perfeição, o coturno preto deixava claro seu estilo. As duas trocavam olhares a todo tempo, mas Vanessa parecia desconfiada, tímida. Clara pegou uma bebida para Vanessa e sugeriu um brinde:

– Ao acaso, que me fez te encontrar.

Elas brindaram e continuaram próximas, até uma amiga de Vanessa se juntar a elas. Vanessa pediu licença para Clara e se afastou um pouco para falar com sua amiga, do outro lado, Clara resolveu ir falar com os seus amigos também.

– Achei que você tinha sumido, Clarinha! – Pontuou Bela.

– Não, não, to ali no canto conversando com uma conhecida!

– O Dudu vai começar a tocar, nós vamos lá pra frente, você vem? A Simone já foi lá!

– Daqui a pouco eu chego lá…

– Ela tá de olho na mina que eu tava conversando, Belinha! – Walter entregou a vontade de Clara.

– Aquela loira de coturno? – Perguntou Bela, enquanto olhava para Vanessa.

– Essa ai sim! – Confirmou Walter.

– Walter, fica tranquilo porque saiu da boca dela que ela não quer nada com você. – Retrucou Clara, enquanto Bela caiu na risada.

– Vai lá e pega mesmo, Clarinha! Tá super aprovada, deixa que eu cuido da dor de corno de Walter! Vem cá, Walter, vamos ver o show! – Bela puxou Walter pela mão e foi para perto do palco, enquanto Clara foi ao encontro de Vanessa, que estava pegando outro drink.

– Não resisti e vou pro segundo!

– Eu sabia! – Brincou Clara.

– É a banda do seu amigo que vai tocar?

– É sim!

– O Walter foi lá pra frente, né? Você não vai?

– Aqui tá mais legal, você não acha?

– É, tá sim. – Respondeu Vanessa, mais uma vez envergonhada.

– Ainda to surpresa pelo nosso encontro!

– Nem me fala, mano! Falando nisso, cadê seu filho? Ele é lindo!

– Ficou com o pai dele! Ele adorou seu cachorro! – O semblante de Vanessa mudou ao ouvir essa frase.

– O Jack é um amor, se dá muito bem com crianças! Você é casada?

– Sou sim, por quê?

– Ah, não é muito normal ver mulher casada em balada sem o marido, né?

– Eu e meu marido temos um relacionamento pouco convencional, então é normal pra gente!

– Como assim pouco convencional?

– Ele não liga de eu sair pra balada com meus amigos e ele ficar em casa com o bebê, ele também não liga se eu ficar com mulheres… É o meu jeito, ele me aceita, ele é livre pra fazer o que ele quer também, a gente se entende assim. – Vanessa ficou surpresa com a resposta de Clara.

– Mano, você é louca!

– Não é loucura! Eu só sou livre! E você?

– O que tem eu?

– Você é maior gata, deve ter alguém!

– Não tenho não, to fugindo disso! To bem aqui quieta.

– Tá quieta porque quer, o Walter tá louco pra te pegar, pelo que eu entendi…

– Ele vai ficar é na vontade! – Falou Vanessa, em tom firme. Clara riu. Ela estava muito satisfeita com o que Vanessa acabou de dizer.

– Acho que a gente deveria ir lá fora um pouco, é melhor pra conversar, o que você acha?

– Concordo, vamos lá sim.

Vanessa e Clara pegaram mais um drink e foram para uma área reservada do clube, quase uma varanda. Lá, Vanessa ficou encostada numa parede enquanto Clara sentou numa poltrona na sua frente. Elas continuaram conversando sobre a bondade do destino e mais uma série de aleatoriedades, até Clara ouvir Is this love.

– Nossa, eu amo essa música!

– Eu também, mano! – Concordou Vanessa, empolgada.

Nesse momento Clara levantou e foi até Vanessa e, sem rodeios, perguntou:

– Dança ela comigo?

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Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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