Você nunca estará sozinha – Cap 4

Apesar do encontro com sua mãe não ter sido tão proveitoso, Clara estava feliz. São Paulo a recebeu de braços abertos, ou melhor, ela estava com essa sensação.

Na manhã do dia seguinte ela acordou antes de seu filho e resolveu ligar para Fábio, com quem não havia falado no dia anterior. “Ele deve estar puto comigo”, pensou Clara enquanto discava o número do marido.

– Amor?

– What the h… Clarinha?

– Sim, amor! Te acordei?

– Acordou sim, aconteceu alguma coisa?

– Nossa, o fuso-horário! Foi mal, amor!

– Não tem problema, cadê o bebê?

– Ainda não acordou, são oito da manhã aqui… E tá tudo bem sim! Como você tá?

– São quatro da manhã aqui! Eu to bem, fiquei preocupado, tentei ligar pra você ontem e não completava a chamada.

– É que eu fiquei usando o celular com um número daqui e o dia passou tão rápido que não deu pra te ligar. Encontrei minha mãe ontem no Villa Lobos…

– E como foi o encontro?

– Ah, ela tava muito na defensiva, acho que eu também, mas ela tá apaixonada pelo Pedrinho! Devemos nos encontrar mais vezes, queria ter visto meu pai, mas ele precisou viajar.

– Sua mãe é uma louca. O passeio foi tranquilo, ao menos?

– Sim, bastante! Encontramos uma mina lá que estava passeando com um cachorro, imagina a reação do Pedro?

– Deve ter ficado loucão, ele adora bicho!

– Tipo isso mesmo! Foi mó doidão atrás do cachorro e eu igual louca correndo atrás! A sorte é que a mina que tava com o cachorro foi super tranquila, conversamos um pouco até. E nossa, ela era linda! Você ia curtir, com certeza! Eu curti um monte, mas ela nem me deu bola! – Os dois gargalharam.

Para o estranhamento de muitos, Clara e Fábio mantinham uma relação digamos que: moderninha demais. Ele foi o primeiro homem que realmente despertou interesse em Clara, interesse afetivo, no caso. Todos os outros homens que passaram em sua vida foram casos curtos, sem muito significado. Com ele, Clara se sentia protegida e livre, ao mesmo tempo. Ela sempre preferiu se relacionar com mulheres e, se perguntar sobre a sua orientação sexual, a resposta não será outra: eu gosto de mulheres, elas são as melhores!

Era, no mínimo, estranho observar essa situação. Ora, ela gosta de mulheres e está casada com um homem. Mas Clara é assim. Ela nunca escondeu de Fábio o seu desejo e interesse em mulheres e, em comum acordo, ele não se importa em ser traído, desde que Clara fique apenas com mulheres.

Do outro lado, Clara nunca proibiu seu marido de fazer nada. Assim como ela, ele é livre para ficar com quem quiser. O fato é que esse casal está longe de estar nos padrões aceitáveis e comuns para a maioria da sociedade. Mas eles não se importam e são muito felizes juntos, do jeito deles.

O casal lida muito bem com esse formato meio esquisito de casamento, inclusive. É normal eles saírem juntos e comentarem entre si acerca de outras mulheres, exatamente como Clara fez durante a ligação, ao contar sobre Vanessa.

– Já viu alguém da tua turma, princesa?

– Não, não falei com ninguém. Aliás, só com uma ex-namorada, acho que vamos nos encontrar por esses dias também. Lembra da Simone?

– Lembro que você já comentou sobre ela, é a que te deu trabalho, não é?

– Essa mesma!

– Juízo no que for fazer, o bebê tá com você.

– Fica tranquilo, amor. Volta a dormir, só queria te falar que tá tudo bem aqui.

– Voltarei, preciso dormir mesmo. A empresa tá uma loucura, cheguei de lá nem faz muito tempo!

– Aconteceu alguma coisa?

– Nada que eu não resolverei, fica tranquila quanto a isso.

– Então tá bom, boa noite, amor! Eu te amo!

– Eu também, dá um beijo no meu moleque!

– Darei! Tchau, tchau!

– Tchau, princesa!

Clara notou preocupação na voz do marido, mas preferiu não indaga-lo acerca dos problemas com a empresa. Assim que desligou a chamada com Fábio, Pedro acordou cheio de energia. Ele e sua mãe brincaram bastante, como era de costume. Clara preparou um café da manhã para os dois e aproveitou o tempo com o filho.

Ainda durante a manhã Clara resolveu estudar um pouco. Em Vegas ela trabalhava bastante como modelo fotográfica, dentro de uma linha mais alternativa, visto que esse era seu estilo. Além de não ser muito alta, Clara chama atenção por suas inúmeras tatuagens e seu cabelo loiro, quase branco, que é sua marca. O rosto angelical é seu cartão de visitas, sempre acompanhado de um sorriso arrebatador. Clara é uma daquelas pessoas absurdamente carismáticas, que fala enquanto sorri e que conquista quem a escuta. É hipnotizante.

Mas ela não trabalha só modelando. Sua verdadeira paixão é a música. Durante a adolescência iniciou um curso para se tornar DJ e desde então não parou. Entre cursos e muito estudo, Clara se sentiu pronta para se lançar no mundo eletrônico. Iniciou sua carreira em Vegas há dois anos e já possui um público cativo pelas boates que costuma tocar. Estudar música é sua diversão. Clara passa horas pesquisando sobre o assunto e buscando métodos para aprimorar seu estilo.

Enquanto ela estudava, Pedro ficou brincando pelo quarto. A televisão estava ligada e uma manchete do jornal chamou atenção de Clara. Era algo envolvendo a libertação de alguns cães e gatos de uma fábrica de cosméticos. Ativistas invadiram o local, que estava sendo investigado por fazer testes em animais. Ela largou seu notebook e logo foi ver a reportagem. Um vídeo foi gravado durante a invasão e o jornal reproduziu as imagens. Clara assistiu e se surpreendeu ao achar um rosto conhecido no meio da confusão. Sua suspeita foi confirmada logo após o vídeo. O tal rosto foi entrevistado, era a moça do parque Villa Lobos, Vanessa.

Além da surpresa, Clara ficou ainda mais encantada pela garota, que no dia anterior despertou interesse pelos seus atributos físicos. “Gata daquele jeito e ainda protetora de animais? Eu devo tá sonhando, essa mulher não existe!”, pensou Clara.

A manhã transcorreu tranquila. Em meio aos estudos, Clara pensava em Vanessa e na absurda coincidência de tê-la encontrado no dia anterior. Ao mesmo tempo lamentava por saber que era quase impossível encontra-la de novo, afinal, São Paulo é uma cidade enorme.

Naquele mesmo dia, Clara recebeu a ligação de sua tia Judite. Ela é irmã de sua mãe e sempre foi muito próxima à Clara.

– Como você ousa estar em São Paulo e não ter vindo me visitar ainda?

– Tia Judite?

– Mas é claro que sou eu! E eu estou muito puta com você!

– Tia! Que saudade!

– Se você tivesse com saudade de mim já estaria aqui comigo! Cadê meu neto?

– Tá aqui comigo! Caralho, a gente precisa se ver!

– Claro que precisamos, mas você não lembra de mim! Precisei conversar com sua mãe pra saber que você tá aqui. O que você veio fazer aqui, menina?

– Nem eu sei, tia, mas isso é o de menos.

– Sua mãe disse que o gringo não veio, vocês terminaram?

– Ele não é gringo, tia! Mas não terminamos, estamos muito bem!

– E o que você ta fazendo aqui sozinha? Ele deveria estar com você!

– Não deu pra ele me acompanhar, precisou ficar por causa do trabalho.

– Que maluco deixar você sozinha com a criança aqui em São Paulo! Vocês tão precisando de algo?

– Não tia, tá tudo bem com a gente e eu sei cuidar de mim e do meu filho, né?

– Pra mim você ainda é uma criança, Clarinha! E eu to morrendo de saudade! A gente precisa sair e tomar algo juntas!

– Vai com calma, tia Ju! Tem o Pedrinho, não posso surtar como antes.

– Nossa, é mesmo! Aliás, quero conhecer esse moleque! Onde você tá? Me passa o endereço que essa semana eu tentarei ir te ver.

Clara passou o endereço do flat e conversou mais um pouco com a sua tia. Desligou o telefone feliz da vida por saber que a encontraria em breve. Judite é uma das poucas na família que nunca a julgou, Clara realmente gostava dela.

No correr da tarde, uma leve dor de cabeça começou a incomodar Clara. Para passar o tempo, ela resolveu descer para o playground do flat. Pedro adorou os brinquedos!

A dor parecia aumentar, como se Clara estivesse prevendo algo ruim. A confirmação se deu com um telefonema de Fábio, já no início da noite.

– Princesa, to indo pra São Paulo ainda hoje, chego ai durante a manhã. – Foi com essa frase que Fábio cumprimentou sua mulher e, obviamente, conseguiu assustá-la.

– Hã? Como assim você vem pra São Paulo hoje, Fábio?

– To com saudade de você e do Pedro, vou ficar com vocês.

– Mas e a empresa? Mais cedo você falou que estava com problemas lá. O que tá acontecendo, amor?

– Nada, não tá acontecendo nada. Só quero dar um tempo das coisas por aqui, já comprei o bilhete, inclusive.

– É óbvio que tem algo acontecendo, você não quer falar. Quem cuidará do escritório?

– O Diego ficará responsável.

– Mas você nem gosta dele!

– É o único que eu confio pra continuar tocando a empresa.

– Amor, fala pra mim o que tá acontecendo, por favor.

– Relaxa que tá tudo bem. Quando eu chegar a gente conversa, tudo bem? Confia em mim.

– Confio, amor.

– Eu amo você e o Pedro, amanhã estaremos juntos.

– Nós te amamos, até amanhã, amor.

Clara estranhou a atitude do marido e sabia que algo errado estava acontecendo. Atendendo ao seu pedido, ela resolveu esperar o dia seguinte, que o encontrará e tentará esclarecer tudo.

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Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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