Você nunca estará sozinha – Cap 3

Depois de uma noite difícil o dia amanheceu bonito em São Paulo, daquele jeito de sempre: cinza, frio… Mas charmoso de um jeito que só essa cidade consegue ser. Pedro fez questão de acordar sua mãe. Agitado, balbuciava o que daqui a alguns meses será mais fácil de entender e encheu Clara de carinho, ou melhor, alguns pequenos chutes e tapas, suficientes para acordá-la. Ela estava se sentindo em casa.

Clara aproveitou a disposição de Pedro e brincou bastante com seu filho, ainda sem sair da cama. Ela sabia que, independente de onde estiver, aquele carinha estará ao seu lado por um longo tempo.

O momento mãe-e-filho foi interrompido pelo celular de Clara tocando, era sua mãe. Graças à viagem, Clara não atendeu a ligação, mas retornou no minuto seguinte. Sua mãe atendeu sem entender.

– Oi, Clara, o que houve?

– Oi, mãe! Bom dia! Fiquei preocupada com o valor da ligação, sabe como é, ainda não estou com um número daqui, não sei como funciona direito, então prefiro ligar.

– Entendi, sem problema. E meu neto, dormiu direito?

– Como um anjo! Estávamos brincando quando você ligou.

– Que graça! Só interrompi a brincadeira para combinarmos algo enquanto ainda é cedo. Seu pai ficou muito contente com a notícia de você estar por perto, mas infelizmente precisou viajar para o sul pelo trabalho.

– Que pena, queria encontrar você dois… Você pensou em algo?

– Acredito que teremos tempo pra esse encontro. Então, hoje é sábado, pensei em darmos uma volta no Villa Lobos, dá pro Pedrinho correr bastante, o que você acha?

– Acho uma ótima, eu adorava passear por lá! Que tal nos encontrarmos no final da tarde?

– Combinado, então. Você quer que eu te pegue em algum lugar?

– Não precisa, mãe, brigada. Me viro com táxi, me programarei com o Pedro pra chegarmos umas quatro horas.

– Tudo bem, até mais tarde! Dá um beijo no Pedrinho!

– Outro pra você, mãe.

Aquilo continuava soando muito estranho para Clara. Em seus vinte e cinco anos de vida ela e sua mãe nunca conversaram tão tranquilamente. Ao mesmo tempo em que alimentava esperanças sobre um encontro tranquilo, Clara tentava acalmar seu coração, afinal, dona Rose era muito imprevisível e, após cinco anos, ela estava somente a algumas horas de rever uma das pessoas que mais a machucou.

Clara tentou não mergulhar em mais alguns minutos de pensamentos. Resolveu pedir um café da manhã no próprio flat, já que sequer tinha passado em algum mercado desde que chegou. Tomou banho com Pedro enquanto esperava pela comida e continuou na companhia do filho depois disso.

Entre uma e outra brincadeira, Clara trocou mensagens com Maiara. Explicou para a amiga que encontraria sua mãe ainda naquele dia. Curiosa, Maiara perguntou se ela já havia tentado falar com Simone. A referida moça é um caso muito mal resolvido de Clara. Entre as várias mulheres que já passaram pela sua vida, Simone foi a que mais deu trabalho para ela e Maiara acompanhou parte do processo de desapego. Em resposta à amiga, Clara negou que tenha tentado entrar em contato com Simone e que sequer havia pensado nisso, mas que achou interessante o assunto e prometeu pensar a respeito – mesmo que essa não tenha sido a intenção de Maiara.

Após o café da manhã Clara resolveu dar uma volta com Pedro. Na verdade eles foram até o supermercado ao lado do flat, já que ela precisava comprar uma ou outra coisa para comer, além de providenciar um novo número para seu celular. No caminho de volta para o flat, Clara ficou pensando nos comentários de Maiara sobre Simone. Rindo sozinha, lembrou do trabalho que teve para superar um relacionamento tão doido e doído. “Eu vou atrás dessa garota, quero saber como ela tá”, decretou Clara em pensamento.

Família, antigo relacionamento… É, a passagem de Clara por São Paulo mal teve início e uma coisa era certa: vai dar pano pra manga.

O dia correu tranquilo, Clara e Pedro almoçaram, brincaram, dormiram um pouco e, finalmente, se arrumaram para encontrar dona Rose. Nervosa, Clara tentava ensaiar mentalmente o que fazer e falar diante da sua mãe. Definitivamente isso não funcionava com ela, apesar do esforço. Sua espontaneidade era latente em cada passo, em cada gesto e em cada sorriso ou cara feia. No fundo ela estava preparada para o pior e esperando o melhor, ou algo do gênero. Com Pedro no colo e um monte expectativa no peito, Clara partiu para encontrar sua mãe.

Pedro e Clara chegaram ao parque com quase meia hora de antecedência, o suficiente para passearem um pouco pelo lugar. Para um moleque que aprendeu a andar há poucos meses, ali era a oportunidade perfeita de aperfeiçoar seus passos, especialmente correndo. E ele o fez sem dó!

Em meio à correria de Pedro, Clara resolveu ligar para sua mãe, informar que já estava no parque e combinar onde elas poderiam se encontrar. Para aumentar ainda mais a adrenalina, dona Rose avisou que atrasaria alguns minutos, mas que tudo estava de pé.

Sob a supervisão da mãe, Pedrinho se esbaldava! Curioso, avistou um cachorro há poucos metros de onde ele estava e não deu em outra: correu em direção ao bichinho, para desespero de Clara, que disparou atrás. O cachorro estava com sua dona, devidamente seguro por uma coleira e aparentava ser bem calmo, mesmo sendo bem maior que Pedro. Mas Clara prestou atenção não só no cachorro…

– Oi, bebê! Você gosta de cachorrinho? – A dona do cachorro se abaixou para conversar com Pedro e evitar com que ele chegasse muito perto do bicho.

– Pedrinho, vem cá pro colo da mamãe. – Clara ficou preocupada. Apesar de adorar cães, não dá pra prever a reação de uma criança tão nova diante deles.

– Fica tranquila, ele é bem calminho e super se dá bem com crianças!

– Eu me preocupo mais com ele em relação ao cachorro do que do contrário, pra ser bem sincera. – Clara arrancou risadas da dona do animal, enquanto colocava Pedro no colo.

– Ele se chama Pedro, não é? – A moça se aproximou um pouco mais de Pedro e Clara e tentou brincar com o menino.

– Sim, é meu molecão! Dá oi pra moça, neném!

– Que gatinho com vergonha! Você não gostou da tia Van, Pedro?

– Ele gostou sim, só tá fazendo charminho! – As duas caíram na risada, enquanto Pedro se enfiava no colo de Clara tentando se esconder.

– Ele é lindo!

– Não só ele… Digo, seu cachorro é bonitão!

– Ah, valeu!

– Mas como você se chama mesmo?

– Vanessa, e ele é o Jack! E você, como chama?

– Clara, prazer!

– Prazer! Então, eu preciso voltar a correr com o Jack, quem sabe a gente não se encontra outro dia e o Pedro consegue me dar um oi, não é Pedro?

– Eu farei questão de ensinar! Espero que a gente se encontre sim!

– Posso dar um beijinho nele?

– Claro! Dá um beijo na tia, Pedro.

Pedro tentou se esquivar, mas Vanessa conseguiu roubar um beijo do menino. Os três se despediram acenando, sabe-se lá Deus se um dia iriam se encontrar de novo, mas foi um momento agradável. Tão agradável que, a partir do instante em que Vanessa deu as costas, Clara começou a torcer para que um novo encontro realmente acontecesse.

O fato é que Vanessa chamou muito a atenção de Clara e, com toda certeza, deve chamar atenção de qualquer um que passa perto. Ela é um mulherão. Assim mesmo, no aumentativo. Pele bronzeada, um belo porte físico, aparentemente bem definida… Ela atrai olhares. Clara guardou sua imagem com carinho.

Em meio à distração alguns minutos se passaram e, sem perceber, já passava do horário combinado com sua mãe. Clara resolveu ligar para ela, que já aguardava num local próximo. O nervosismo já não existia, o encontro com Vanessa deu uma bela relaxada em Clara que, ao avistar sua mãe, já abriu um grande sorriso enquanto caminhava em sua direção.

Elas se encontraram num abraço apertado, Pedro estava entre elas e não entendia nada do que se passava. Clara esperou muito por esse abraço, ao mesmo tempo em que sentiu muito medo dele… Tudo havia passado: medo, dor, ansiedade, mágoa… Aquele abraço curou tudo, ao menos para Clara.

– Mãe, esse é o seu neto! Vai com a vovó, filho.

Dona Rose não conteve a emoção ao segurar Pedro. Ela finalmente conheceu seu primeiro neto e o abraçou fortemente. Independente de tudo que passou com Clara, aquele momento foi especial para ela, estava sendo especial para os três.

Clara não conseguia chorar, estava feliz demais para expressar em lágrimas o que soube dizer através de sorrisos. Pedro estava à vontade no colo da sua avó, enquanto Rose parecia ter se preparado a vidai inteira para aquele momento.

Passado o primeiro impacto, os três se acomodaram num banco. Dona Rose ainda se recuperava do choro e Clara era só alegria.

– Como tá o pai?

– Tá bem, naquele jeito dele, sempre ativo com o trabalho. Seu irmão mandou um beijo e disse que queria te encontrar, aliás.

– Que saudade daqueles dois!

– É, nós também sentimos muito a sua falta, apesar de tudo. Você nos deixou muito cedo.

– Mãe, não me leve a mal, mas não acho que é momento pra isso…

– Tem dez anos que eu tento achar esse momento certo, Clara.

– Tem dez minutos que nos encontramos e eu já to querendo rever isso.

– Você não mudou nada, menina.

– Você devia curtir seu neto, mãe.

– Eu farei isso, mas nós temos muito o que conversar. Quanto tempo você ficará aqui?

– O suficiente pra resolver o que precisa ser resolvido.

– Muitas pendências?

– Nenhuma, mas sempre surge algo.

– Eu não sei porque ainda te pergunto as coisas…

– Fica tranquila que eu não tenho mais quinze anos.

Os primeiros minutos de conversa entre Clara e Rose não foram muito amigáveis, isso é reflexo da conturbada relação entre mãe e filha desde a adolescência. Mesmo incomodada, Clara estava disposta a se acertar com sua mãe. Do outro lado, dona Rose parecia evitar uma aproximação, seu interesse aparentava unicamente ser seu neto.

O tempo foi correndo e assunto nenhum fluía entre as duas. Rose estava entretidíssima com Pedro e Clara se sentiu deixada de lado, mas pouco importava, seu filho parecia estar se divertindo com a avó e isso era muito importante para Clara.

Ali de longe, enquanto encarava o vento, Clara avistou a tal moça do cachorro conversando com um rapaz e não mediu esforços para observá-la. As poucas palavras trocadas entre as duas estavam em loop na cabeça de Clara.

Rose tratou de atrapalhar a visão de Clara ao informa-la sobre a hora. Ela tinha um jantar para ir ainda naquele dia, portanto precisava voltar para casa e se arrumar. Ofereceu carona para Pedro e Clara, que recusou o favor de sua mãe e preferiu voltar de táxi para o flat.

Ao chegar, Clara tratou de entreter seu filho com algum desenho animado na televisão e preparou um rápido jantar para os dois. Pedro estava cansadíssimo, o dia foi cheio para o pequeno que esbanja energia. Só deu tempo de comer e tomar banho, em poucos minutos o menino dormiu.

O relógio não marcava nem nove da noite, era um sábado e Clara estava em uma das cidades mais incríveis que ela conhecia… E estava num quarto com seu filho. O ócio fez Clara lembrar-se da conversa que teve mais cedo com Maiara, sobre Simone. No mesmo minuto ela pegou seu celular e tratou de procurar o número da garota. Ora, pouco importava se aquele número era antigo, Clara sequer sabia se ele ainda continuava com Simone. Ainda assim resolveu ligar.

– Alô? Eu queria falar com a Simone.

– É ela, quem fala?

– É a Clara, tudo bem?

– Clara de onde? – Como assim “de onde?”, indagou Clara, mentalmente.

– Sei lá de onde, mulher! Da sua vida, talvez!

– Clarinha, porra! É você mesma?

– Claro que sou eu!

– Nossa, há quanto tempo! Você tá aqui em São Paulo? Esse número é daqui ou eu vi errado? – Simone não escondeu sua empolgação.

– Eu to sim, por isso te liguei! Como você tá?

– No momento eu sentei, porque to bem nervosa!

– Não vai chorar, hein? Segura o choro, Simone! – As duas caíram na risada.

– Meu, vamos nos encontrar! Onde você tá? Vamos beber!

– Calma, menina! Eu não tenho mais vinte anos, meu filho tá dormindo do meu lado, impossível sair hoje, apesar da vontade de ver algum rosto conhecido.

– Como assim? Filho? Você não pode ser mãe!

– Ele se chama Pedro, tem um ano e seis meses.

– Isso só pode ser brincadeira! Você me desculpa, mas nessa eu não acredito!

– Tudo bem, até eu fico sem acreditar às vezes.

– Então quer dizer que as coisas estão mudadas…

– Digamos que sim, mas isso não significa que não quero te ver!

– Meu, você sabe onde me achar, eu continuo do mesmo jeito, nos mesmos lugares e com as mesmas pessoas.

– Eu tinha certeza disso!

– Meu, como eu sinto sua falta!

– Vamos resolver isso em breve, combinado?

– Combinadíssimo, me liga quando puder dar um rolê, por favor!

– Ligarei sim, até logo, sua louca!

– Até, Clarinha! Beijão!

Era oficial: em seu primeiro dia de volta à São Paulo, Clara fez questão de chegar com o pé direito!

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Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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