Você nunca estará sozinha – Cap 2

Já no aeroporto, Fábio fez questão de ser durão. Apoiou a decisão de Clara e aproveitou cada segundo com Pedro.

– Me liga todos os dias e se precisar de algo me fala. – Repetiu Fábio pela décima vez.
– Amor, parece que eu to indo pra forca!
– Esse seu senso de humor me tira do sério, Clara…
– Então você quer brigar? Relaxa, meu! Eu sei me cuidar e sei cuidar do Pedrinho, minha família inteira tá lá, são só alguns dias!
– Eu não vou comentar nada sobre a sua família, só pra garantir a tranquilidade entre a gente. Quando você volta?
– Em poucos dias, Fábio… Fica tranquilo, São Paulo é logo ali. E olha só, meu embarque começou, vem cá me dar um beijo.
– Olha com quem eu fui me meter, meu Deus!

Fábio se despediu de Clara e Pedro torcendo para que aquela loucura da sua mulher durasse poucos dias. Enquanto ele já se contorcia de saudades, ela parecia uma criança com um novo brinquedo.

A viagem é longa. Mais de dez horas, contando algumas escalas. Clara optou por driblar a ansiedade ao lado de Pedro, que com certeza sequer entendia o que estava acontecendo. Preparada, ela levou seu notebook com alguns vídeos e desenhos animados meticulosamente escolhidos para entreter seu pequeno. E funcionou perfeitamente. Entre uma soneca e outra, Pedro se deliciava com os vídeos ao lado de sua mãe, que se perguntava, vez ou outra, se não estava sendo injusta com Fábio e Pedro.

O fato é que sua impulsividade sempre falava mais alto. Clara nunca se utilizou dessa característica para justificar seus acertos, muito menos seus erros, mas quem a conhece sabe que esse adjetivo é o mais adequado para ela. Todos ao seu redor colecionam histórias em que é fácil provar que Clara se joga sem sequer olhar para o lado… A questão é que nem ela sabe se isso é bom ou ruim.

“Talvez São Paulo esteja diferente. Talvez meus pais estejam mais abertos e dispostos a esquecer do passado. Talvez minha família tenha desistido de me taxar como ovelha negra. Talvez meus amigos tenham casado!”. Clara imaginava tudo, não conseguia se conter.

A chegada em São Paulo foi tranquila. Não tinha ninguém esperando por Clara e Pedro, afinal, ela não avisou nada para sequer um conhecido. Após retirar as bagagens, eles seguiram de táxi para o flat que Clara reservara. E ali alguém estava os aguardando, ao menos isso. O porteiro ajudou a retirar as malas do carro, Pedro estava dormindo no colo da mãe e isso não facilitava as coisas.

– Obrigada pela ajuda, moço! – Exausta, Clara agradeceu a disposição do porteiro.
– Nossa, imaginei que a senhora era gringa, por isso nem cumprimentei, me desculpe!
– Mas como assim gringa? Sou daqui mesmo! Me chamo Clara e esse é o meu filho, Pedro. – Respondeu Clara, aos risos, enquanto se dirigia ao hall do prédio.
– Eu sou o João, dona Clara, trabalho aqui há vinte anos! E olha, eu tava meio certo, então! A senhora tá vindo de fora, né?
– To sim, seu João, mas eu conheço essa cidade como a palma da minha mão…

E só ali a ficha dela começou a cair. Ela não sabia o que fazer e nem por onde começar. Afinal, tinha algo para ser feito?

Começava a escurecer na cidade-que-nunca-para quando Clara se acomodava no quarto. Pedrinho dormia na cama enquanto sua mãe retirava algumas roupas da mala. Seu celular, que estava jogado entre uma pilha de blusas, tocou. Era Fábio, preocupadíssimo com a falta de notícias da mulher e filho:

– Que horas você pretendia me dar sinal de vida, princesa?
– Oi, amor! Foi tudo tão corrido, ainda não parei desde que pisamos em Sampa! Já estamos no flat.
– Mas poxa, não custava avisar, fiquei tenso e dei um jeito de te ligar, ainda bem que funcionou. Como tá o bebê?
– Estamos bem, ele tá capotadão na cama, super cansado! Foi tudo muito pesado, mas ele se comportou muito bem.
– Ele não iria me decepcionar! Mas então, já sabe o que fazer?
– Não tenho ideia!
– Você resolve sair de casa com nosso filho, embarca pra um lugar longe pra caramba e não sabe o que vai fazer ai?
– É isso ai, sabichão!
– Eu não sei como ainda fico surpreso com você, Clara… Me avisa o que der na cabeça, se puder, combinado? Preciso voltar pro trabalho, isso aqui tá uma bagunça.
– Farei o possível, amor.
– Fica bem e cuida do nosso moleque, princesa. E ah, liga pra Maiara depois.
– Eu te amo! Ligarei pra ela sim.
– Eu também amo você, até mais.

Ao desligar a chamada com Fábio, Clara ficou pensativa. Procurou o número da casa dos seus pais na agenda do seu celular e quis ligar. Ela não tinha como prever a reação da sua mãe, especialmente. A convivência entre elas sempre foi difícil e Clara não tinha ideia se a surpresa agradaria sua família. E ela ligou.

– Alô?
– Dona Rose?
– É ela, quem fala?
– É a Clara, mãe. Tudo bem?
– Que surpresa! Oi, Clarinha. Aqui tá tudo na mesma, cadê meu neto?
– Tá aqui do meu lado, dormindo igual um anjo, cansadíssimo!
– Dia cheio por ai?
– Digamos que sim, foi um pouco longo e ele não aguentou.
– Entendi. Dá um beijão nele, deve estar enorme!
– Tá um meninão, mãe.
– Ele é um anjo! Mas então, Clara, aconteceu algo?
– Aconteceu, mãe. Eu e o Pedrinho estamos em São Paulo. – Um silêncio quase constrangedor fez com que as mãos de Clara começassem a suar. Ela aguardou pacientemente a resposta da sua mãe.
– Desde quando? Você não tá brincando, não é?
– Não é brincadeira não, mãe. Chegamos há pouco mais de duas horas, estamos num flat.
– E o seu marido?
– Não veio conosco, ele preci… – Rose interrompeu a fala de Clara com uma curta risada e deu continuidade ao assunto.
– Já era de se esperar!
– Eu quero te ver, mãe. Quero que o Pedro conheça a avó dele.
– Nós vamos nos encontrar, eu contarei a novidade para o seu pai e vamos combinar algo pra os próximos dias. Ao menos algo bom o Fábio fez nessa vida.
– Ótimo, eu ligo pra você amanhã, então.
– Aguardarei a ligação, Clara. Se precisar de algo é só telefonar!
– Brigada, mãe. Beijo!
– Não esquece o beijo no meu neto!

Foi mais fácil do que Clara imaginou que seria, e isso gerou um grande estranhamento, apesar do alívio. Há quase cinco anos ela não encontrava com ninguém da sua família.

Clara saiu de casa várias vezes. Aos quinze colocou na cabeça que era independente, foi morar com uma amiga cinco anos mais velha e fez sua primeira tatuagem. Alguns meses depois ela voltou para casa dos pais e decidiu que não queria mais frequentar o colégio. Seus pais surtaram e conseguiram convencê-la a prosseguir com os estudos. Aos dezessete ela fugiu com uma namorada. Passou quase duas semanas sem dar notícia. Não bastando o susto com o sumiço, Clara surpreendeu ao assumir um namoro com outra garota. Namoro que não durou muito. O instinto de liberdade sempre foi muito forte em Clara e sua vida agitada não cabia em um relacionamento sério. Quando completou vinte anos resolveu alçar um voo mais longo e, graças à Maiara, Vegas tornou-se sua nova casa. Por esses e mais uma série de pequenos e grandes motivos, Clara sempre manteve uma relação conturbada com seus pais.

Passado o susto, ela resolveu ligar para Maiara e tranquilizar a amiga.

– Você não tem juízo mesmo, não é?
– Oi pra você também, Má!
– Cara, eu tava prestes a surtar! Liguei várias vezes pro Fábio e ele sequer atendeu. Seu marido é foda!
– Tá tudo bem, relaxa!
– Tudo certo com o flat? Pedrinho tá bem?
– Sim, o flat é ótimo e o neném tá dormindo aqui do lado.
– Ótimo, Clarinha! Alguma novidade?
– Liguei pra minha mãe, Má. Tivemos uma rápida e confusa conversa, mas proveitosa!
– O que houve?
– Ela ficou meio descrente sobre eu estar aqui em São Paulo, vai conversar com meu pai e tentaremos nos encontrar nos próximos dias.
– Então finalmente a dona Rose conhecerá o Pedrinho?
– Estou torcendo por isso, amiga!
– Briguinha de orgulho, abaixem essas armas e conversem, você não tem mais quinze anos!
– Vamos ver no que dá, não sei o que esperar, sendo bem sincera.
– Não espere, vá lá e mostre pra eles que tá tudo diferente.
– E se não tiver, Má?
– Deixe de besteira! Cinco anos se passaram, você tem sua grana, um marido e um filho lindo, o que mais você quer?
– Eu quero dar uma voltar pela cidade com você, como nos velhos tempos! Vem ficar aqui comigo, Má!
– Não posso, amiga. Queria muito te acompanhar nessa loucura, mas eu não tenho a sua coragem e disposição!
– Nem me fale em disposição, eu to morta!
– Vai descansar, Clarinha! Aposto que a viagem foi cansativa demais!
– E como foi! To morrendo de dó de acordar o Pedrinho pra um banho!
– Ah, deixa ele dormir sujinho, nunca vi ninguém morrer assim! Amanhã você compensa.
– Acho que farei isso mesmo. Vou tomar um banho, comer algo e deitar.
– Vai lá, amiga. Não deixa de dar sinal, por favor! E se cuida! Dá um beijo no Pedro pela madrinha aqui.
– Darei, todos do mundo! Brigada por tudo, Má!
– Você é minha irmãzinha, eu te amo!
– Beijo, Má!

Clara se sentiu mais leve. Maiara sempre sabia falar exatamente o que ela precisava ouvir.

Depois um banho, Clara alimentou Pedro, ainda que dormindo, e jantou. Deitou ansiosa, pensando em como seria o encontro do dia seguinte, caso acontecesse. Imaginou sua mãe encontrando seu filho, seu pai o colocando no colo. Pensou em pedir perdão pelo trabalho que deu. Pensou se escutaria um pedido de desculpas por tudo que ouviu. A noite seria longa para Clara.

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Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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