Você nunca estará sozinha – Cap 11

Vanessa sorriu com a ameaça de Clara, no fundo, não soou como intimidação, mas sim como prenúncio de uma ótima noite que estava por vir. E fez questão de deixar isso claríssimo para a loira.

– Eu não tenho medo de você, Clara. – Disse Vanessa, sorrindo.

– Ah, não? Pois devia ter!

– Olha seu tamanho, mano! Eu lá vou ter medo de uma mina assim?

Clara aproveitou que o carro ainda estava parado e ela sequer tinha colocado o cinto de segurança, segurou o rosto de Vanessa e quase colou sua boca na dela:

– Devia, você devia mesmo. Aliás, você tá linda. Vamos pra festa?

Os olhos de Vanessa se fecharam sem ela perceber. Ela sabia que já estava entregue, mas Clara não precisava saber disso. Não deu uma palavra após a chegada de Clara, apenas sorriu, ligou o carro e seguiu dirigindo para a festa.

– O que toca no seu carro? Liga o som ai! – Perguntou Clara, curiosa.

– Eu só ouço música legal, mano! Deixa eu por uma que você vai curtir. – Retrucou Vanessa, ligando o som.

Paradas no semáforo, Vanessa aproveitou para escolher a faixa com cuidado. Para surpresa de Clara, a canção escolhida era uma das suas preferidas e completamente adequada para a situação: I don’t wanna lose your love tonight. Foi o suficiente para Clara se empolgar e cantarolar cada frase:

– … So many things that I wanna say, you know I like my girls a little bit older… – E Clara fez questão de encarar Vanessa ao cantar o trecho seguinte. – I just wanna use your love tonight! I don’t wanna lose your love tonight!.

Vanessa entendeu o recado e só conseguiu sorrir diante daquilo. O semáforo abriu, ela seguiu dirigindo enquanto Clara jogava os cabelos de um lado para o outro e simulava um microfone em suas mãos, cantando o restante da música.

Chegaram ao local da festa já perto das onze da noite, um bar pequeno, mas que estava lotado, aparentemente todos se conheciam. E Clara lembrava de vários daqueles rostos. Ao descer do carro, Vanessa logo cumprimentou dois amigos.

– O que vai rolar aqui? – Indagou Clara.

– Três bandas de rock vão tocar, além de dois DJ’s. Todo mundo é amigo aqui, são bandas da turma, os DJ’s também… Ai a gente se reúne, nada em especial, só pela folia.

– Cara, to vendo muita gente que eu já conhecia…

– Sério? Tá mais do que provado que temos muitos amigos em comum, mano!

– Ainda não acredito que nós duas não nos conhecemos bem antes! É muita gente em comum mesmo!

– Vem, vamos pegar uma bebida e ver como tá tudo lá dentro! – Vanessa puxou Clara pela mão e entraram no bar.

Seguiram juntas até o balcão e pediram seus drinks. Brindaram por nada, talvez pelo prazer da companhia, mas foi em silêncio que os copos se encontraram.

– Hoje eu vou te dar trabalho, menina! – Decretou Clara.

–Fica tranquila, eu cuido de você!

– Ahn? – Clara tinha escutado perfeitamente a frase de Vanessa, mas quis ouvir novamente só pra ter certeza. Vanessa se aproximou do ouvido de Clara e repetiu:

– Falei pra você ficar tranquila que eu vou cuidar de você hoje!

– Ah, entendi! Ótimo, acho bom cuidar mesmo, que hoje eu to na sua mão!

– Vem, Clara! Vamos dançar, eu quero me divertir! – Mais uma vez Vanessa puxou Clara pela mão. As duas foram para a pista de dança, que estava lotada, mas muito animada.

Dançaram juntas, soltas e com muita vontade. Entre uma troca de olhares e outra, Clara não escondia as tentativas de flerte. Vanessa desviava de todas as investidas de Clara, sempre com um sorriso sacana, daqueles de quem quer tanto quanto o outro… Mas que faz questão de enrolar o quanto puder.

Clara estava se sentindo no topo da maior descida de uma montanha russa: o corpo estava tenso e louco para sentir toda aquela adrenalina que a descida iria proporcionar. Vanessa era a sua descida naquele momento.

Os primeiros acordes de Crazy, do Aerosmith, começaram a soar. Foi o combustível que Clara precisava para explodir. Ela se aproximou ainda mais de Vanessa, que deu as costas. Oportunista, Clara não se abateu e tratou de abraça-la por trás, segurando sua cintura e seguindo numa dança lenta, quase sensual, seguindo o ritmo de Vanessa.

Vanessa não ofereceu resistência. Clara pouco estava se importando com aquela pista cheia de gente e sentiu que Vanessa estava curtindo aquilo tudo, tanto quanto ela.

– Meu, eu to querendo muito te beijar! – Clara aproveitou que seu rosto estava próximo ao ouvido de Vanessa e confessou sua vontade.

Ainda de costas e devidamente certa que Clara não estava conseguindo ver seu semblante, Vanessa sorriu satisfeita. Ela estava com a mesma vontade, mas gostou de não precisa tomar nenhuma iniciativa.

O momento era delas, estavam claramente se curtindo e deixando tudo acontecer no tempo certo. Só não esperavam ser interrompidas por Kadu, conhecido de Vanessa. Clara lembrou dele. Era o mesmo cara que Walter comentou na última festa. Clara pouco sabia sobre ele, mas o necessário veio na sua memória: “o cara é DJ, namora, e dá em cima da Vanessa”, pensou ela. O rapaz chegou mal intencionado, fazendo questão de separar as meninas e se colocar entre elas, que dançavam abraçadas.

– Abre um espacinho que o Kadu chegou!

Clara o reconheceu assim que escutou seu nome, e não gostou nada da intromissão. Do outro lado, Vanessa estranhou a atitude do seu amigo:

– Tá maluco, Kadu?

– Só vim te dar um oi, Vanzinha! Como é que tá? Dá aqui um abraço! – Kadu estava sufocando. Partiu para cima de Vanessa e lhe deu um abraço quase que a força. E continuou o show:

– Tá acompanhada? Quem é a loirinha? – Disse Kadu, olhando para Clara.

– É uma amiga, o nome dela é Clara.

Clara soltou um sorriso forçado, estava incomodada.

– Então, interrompi alguma coisa? Vamos voltar a dançar, gente! A festinha tá bombando, né? Daqui a pouco eu vou tocar com os caras! Vamos lá atrás falar com eles, Van! – Continuou Kadu.

– Depois eu passo lá, vou dar uma volta com a Clara. Vamos, Clara?

– Po, mas só porque eu cheguei? Fica aqui comigo, Van! Tenho certeza que a Clarinha não vai se perder, o bar é pequeno, não é, Clarinha? – Kadu insistia em continuar abraçado com Vanessa, que tentava se afastar.

– Solta ela, cara… A gente vai dar uma volta. – Falou Clara, encarando Kadu.

– Ih, a amiguinha ficou com raiva? Controla sua amiga, Van… Depois eu volto pra trocar uma ideia contigo… A de sempre! Vou falar com uns parceiros. Tchau pra vocês! – Finalizou Kadu, se afastando das duas.

Vanessa se jogou para um abraço em Clara, que retribuiu o carinho, e seguiu rindo. Ela sentiu que Clara ficou incomodada, com ciúmes, talvez, mas não tocou no assunto, apenas se divertiu com seus pensamentos. Também não deu espaço para o clima continuar esquisito entre ela e Clara, correu até o bar e pegou mais dois drinks para elas.

Devidamente entretida, Clara tratou de esquecer o ocorrido com Kadu. Apesar de lembrar o que foi dito por Walter, que Kadu insistia em tentar ficar com Vanessa, ela preferiu ignorar a situação que acabara de rolar e preferiu curtir com Vanessa.

Uma das bandas começou seu show. Como praticamente todos se conheciam no bar, o respeito pelo palco era notável: a maioria dos presentes acompanhava o início do show com empolgação. Vanessa era uma dessas pessoas, cantava junto e até arriscava bater cabeça.

Clara até tentou curtir a banda, mas seu interesse estava muito maior em curtir a Vanessa. No intervalo de uma música e outra, ela e Vanessa foram até o bar buscar outras bebidas. Ao notar o interesse de Vanessa em voltar para perto do palco, Clara propôs:

– Ei, Vanessa! Vamos ali comigo? Tá mais quieto e eu quero perguntar um negócio pra você.

Inocente, Vanessa não entendeu que Clara estava muito mal intencionada, concordou com o convite de Clara e seguiu com a loira até um canto do bar, quase na saída e consideravelmente escondido, se comparado à pista de dança.

– Nossa, que escuro aqui, né? – Constatou Vanessa.

– É? Nem reparei! – Clara respondeu rapidamente e, antes mesmo de qualquer reação de Vanessa, inclinou seu corpo para junto do dela e a beijou.

Foi um beijo longo, com desejo, daqueles bem aguardados e ensaiados. Clara se segurou pelo tempo que conseguiu, mas estava feliz em se entregar daquele jeito. Vanessa se assustou somente no primeiro segundo. Ela estava esperando por aquele beijo a noite inteira, definitivamente.

Colados, os corpos se moviam no mesmo sentido. As mãos de Vanessa percorriam o corpo de Clara, em cada centímetro possível e adequado para aquele momento; enquanto as de Clara insistiam em segurar o rosto de Vanessa, vez ou outra indo para os cabelos, segurando um pouco mais firme e demonstrando toda a sua vontade. Elas se permitiram.

Após o beijo, se abraçaram em silêncio. Exatamente como fizeram da primeira vez que seus lábios se tocaram. Foi Clara quem quebrou o sossego, falando no ouvido de Vanessa:

– Van…

– Oi, Clara.

– Preciso falar uma coisa.

– Pode falar, mano.

– Chupa, Kadu! To pegando a mina que você queria!

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Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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