Tudo muda, tudo passa – Cap 8 – Parte 5

Tudo muda, tudo passa – Cap 8 – Parte 5

Na sexta seguinte Alex finalmente conseguiu falar com a avó. Ela havia passado mal do coração e tia Shelley estava com ela no hospital. Enquanto isso o senhor Angus também passou mal e Herbert ficara com o irmão. Por isso estavam incomunicáveis. Alex não teve coragem de falar o que houve, e apenas disse que encerrou aquela conta bancária por outras razões, pedindo para que ela não depositasse mais dinheiro. Deu meu telefone do trabalho e o da secretaria da engenharia civil da faculdade para ela tentar entrar em contato se precisasse.

Depois disso, dois meses meses haviam passado, e vivíamos um cotidiano corrido. Alex estava fazendo um curso longo na arquitetura e com isso chegava em casa na mesma hora que eu, por volta das seis e pouco da tarde. Eu vivia como louca nos canteiros de obra de Bonsucesso, e virava e mexia me aborrecia com um ou outro peão, porém, a cada dia, aumentava o número dos que gostavam de mim, até porque eu me preocupava com a segurança e bem estar deles, apesar de tudo. Por conta disso, eu praticamente não parava no escritório em Botafogo, e meu contato com os colegas de trabalho se resumia a reuniões com Bárbara, Alcides e Anderson, mas os dois primeiros quase não iam na obra, por conta das tarefas que foram incumbidos de fazer.

Anderson e eu nos revezávamos nos plantões de final de semana.

Com todo o corre corre, Alex e eu encontrávamos tempo para nós, e nos divertíamos com programas simples, porém românticos. Fazíamos amor com uma freqüência considerável.

Eu não deixei que ela saísse da academia de ginástica, pois o dinheiro estava dando para pagar. Minha capoeira e o vôlei na praia continuavam firmes e fortes na medida do possível.

Meu contato com as Feiticeiras se restringiu a trocas de e-mails. Aline estava comparável a Alex, efetivamente no sétimo período da engenharia elétrica. Soninha disse que se formaria no final do ano, e que estava com um namorado sério que era da igreja dela. Pensavam em se casar em janeiro, talvez. Taís andava por todas as farras possíveis e imagináveis e havia recebido uma carta da faculdade dizendo que se não passasse em física e álgebra desta vez seria ejubilada. Não notei da parte dela qualquer receio com isso.

Eu me inscrevi no plano do telefone fixo, e Anderson tinha um primo que trabalhava na empresa de telefonia e se dispôs a acelerar meu processo mediante um “cafezinho”. Com isso, a previsão era de que o aparelho chegasse no começo de junho. Estávamos no meio de maio.

Um dia desses houve uma chuva tão danada que alagou tudo, como uma que houve nas vésperas do carnaval. Ficamos dois dias sem poder ir para o canteiro e com isso trabalhei no escritório, do qual estava longe praticamente desde que comecei.

Simone, a secretária, me olhava de um jeito que me perturbava e eu às vezes me via de olho em seus “atributos físicos”. Ela tinha uma intimidade esquisita com Júlio, o que parecia chatear Anderson. “Esse escritório deve ser cheio de fofocas…”

Saí para almoçar com Leon, Camille e Alcides. Na verdade, Alcides me chamou e os outros dois se ofereceram para vir junto.

– E então Mona, quer dizer que você já é casadinha? – perguntou Leon.

– Casadíssima, eu diria.

– Por que todo boiola é indiscreto?

– Pára Alci, a conversa aqui é com a Mona.

– Alci? – ri

Ele fez cara de contrariedade.

– Quê que seu maridão diz de você trabalhar em obras, cherry? – Camille perguntou

“Ih, é agora!”

– Ela não se surpreende, até porque é estudante de engenharia civil e sabe como é a coisa.

Fez-se um silêncio tumular até que Leon deu um gritinho afetado e falou:

– Ai, você é da comunidade, Mona! Que bom saber, eu me sentia tão só naquele escritório cheio de heteros quadrados…

– Ei! – Camille se revoltou.

Alcides permaneceu quieto e não abriu mais a boca no almoço. Leon me encheu de

perguntas sobre Alex e Camille perguntou algumas coisas sobre ela também, mas nada indiscreto. Voltamos para o prédio e na entrada da sala Alcides parou para tomar um cafezinho. Os outros dois entraram. Parei perto dele e peguei um café também.

– Então. Eu espero que nada disso afete o nosso trabalho, que tá para acabar e muito bem sucedido.

Ele me olhou e respondeu.

– Não tenho nada com vida pessoal de colega. Além do mais eu entendo. Os homens tão virando uns boiolas e os que gostam de mulher não têm mais seriedade. As mulheres ficam sem opção. Se eu fosse mulher nem sei o que faria.

Conseguimos concluir os trabalhos no final de maio, totalmente dentro do planejado e Arthur ficou satisfeitíssimo. A Prefeitura marcou uma cerimônia para inaugurar a linha nova e Arthur e Júlio foram convidados. Ganhei um aumento de salário e fiquei incumbida de coordenar os trabalhos nas favelas. Seriam cinco favelas, e todas sob minha responsabilidade. O prazo era até março do ano seguinte.

A fofoca da minha sexualidade correu no escritório como fogo em rastro de pólvora, e com isso notei que Bárbara mudou seu jeito comigo. Parecia ter medo. Simone continuava com suas atitudes estranhas. Júlio se decepcionou e Arthur não se modificou em nada. Os outros às vezes cochichavam, menos Camille, Leon e Alcides.

O telefone chegou no dia 3 de junho e Alex estreou ligando para a avó. Dona Dorte ainda estava melhorando do coração, e perguntou quando a neta iria abrir outra conta bancária. Disse que estava gastando muito dinheiro com a saúde mas que ainda poderia ajudar. Alex tinha medo de piorar o estado da avó e não contou tudo a ela. Concordei. Eu liguei para as Feiticeiras e soube das novidades. Aline estava estagiando na emissora onde a mãe trabalhava, Soninha se preparando para abrir um loja grande de autopeças na Avenida

 Suburbana e Taís a poucos dias de ser ejubilada. Tinha certeza de que não conseguiria 

passar em álgebra e física.

Alex, como sempre, muito bem nas notas e havia acabado de concluir o tal curso que fez na arquitetura. Naquela noite fomos assistir a um espetáculo muito bonito no Teatro Municipal, e Paulinha e a namorada, Ruth, foram conosco. Ao final, paramos em um dos belos bares da Cinelândia e tomamos um café bem gostoso.

– Meninas, que espetáculo! Eu fiquei tão emocionada! E uma coisa dessas por um preço acessível! Se minhas filhas tivessem sensibilidade pra ver algo assim! Mas elas só gostam do rock barulhento e sem sentido dessas bandas de malucos viciados… – disse Ruth

Paulinha não dava muita sorte em seus relacionamentos, e ela sempre se envolvia com mulheres bem mais velhas e complicadas. Desde o final do ano passado estava com Ruth, que era separada e mãe de duas filhas. Era professora, tinha 42 anos mas parecia mais velha. Era baixinha, magra, morena e dona de cabelos curtos pintados de ruivo. Seus olhos eram negros e esbugalhados como se fossem saltar das órbitas a qualquer momento. Paulinha tinha 20 anos, era nissei, e um pouco mais alta que Alex. Seus cabelos eram curtos e lisíssimos.

– É o jeito delas Ruth! Nem todo mundo consegue entender esse tipo de espetáculo. – disse Paulinha bebendo seu café.

– Eu sempre gostei. Em Londres a vida cultural é muito intensa e vovó me acostumou desde cedo a gostar de teatro, balé e musicais. Meus pais também adoram e isso foi outro incentivo para mim.

– Eu confesso que comecei a dar atenção a essas coisas depois de você. – olhei para Alex – E hoje gosto muito.

– E eu fui incentivada por Ruth. – apertou a mão da outra – O primeiro espetáculo que vimos foi em São Paulo, quando eu fui visitar meu avô no final do ano. Ele estava doente de reumatismo e se tratando na Beneficência Portuguesa. No dia que íamos embora ela descobriu que Aleluia! estava em cartaz e me chamou para o musical. Adorei!

– Ai, nem me fale! Eu estava atacada de reumatismo e com muito custo subi as escadarias do teatro. Durante o show minhas pernas se enroscavam uma na outra toda hora e eu tive que lutar pra não virar um espaguete humano naquele ar condicionado.

– Eu não me lembro de nada disso Ruth. – Paulinha disse desconfiada.

– Porque eu disfarcei! E você é uma cabeça de vento.

Paulinha balançou a cabeça, respirou fundo e perguntou:

– E sua avó Alex? Melhorou?

– Acho que agora ela anda bem mais disposta. Disse que os médicos falaram que ela precisa sair dos ares de Londres e espairecer em algum lugar diferente e tranqüilo. Pensei que fosse para a fazenda dos meus tios, mas eles estão tendo problemas porque o irmão do meu tio anda doente, e bem doente, e agora está lá com eles.

– E ela certamente não vai querer incomodar. Ah eu entendo isso. Quando eu tive problema de coração não queria dar trabalho pra ninguém…

– Você teve problema de coração Ruth? Quando? – Paulinha se espantou.

– Ih, minha filha nem te conto! Eu fui subindo as escadas do metrô do Estácio e senti uns troços dentro de mim que comecei a dar um monte de trimiliques. O povo todo me olhava. Eu tava igual a Elvis dançando. Depois vim saber que era infarto.

– Infarto? – perguntei surpresa e já achando graça.

– Infarto! Os médicos me disseram que não morri porque sou muito forte. Mas a coisa foi assim: eu subindo as escadas e os infarto me comendo… – repetiu os tais trimiliques que tivera

Ruth era assim, adorava falar de doença. Quando sabia que alguém teve alguma doença tratava de dizer que teve também e ainda pior. No dia que soube que eu perdi o útero por conta do tiro, tratou de dizer que também tinha perdido o dela, com trompas, ovários e tudo mais, e na mesma idade que eu. Só que ninguém saberia explicar como tinha então duas filhas geradas por ela.

– Alex, eu andei pensando, por que não convida vó Dorte pra ficar aqui com a gente? O período vai acabar em meados de julho, e ela pegaria suas férias. Poderia ficar aqui o tempo que quisesse, desde que não se incomodasse com a simplicidade de nossa casa. Nós dormiríamos no sofá cama e ela no nosso quarto. O Rio pode não ser um lugar tranqüilo, mas sem dúvidas seria diferente pra ela. E no nosso inverno nem faz frio direito! Ela poderia curtir umas praias, passear com a gente e conhecer tudo aqui.

– Sério, amor? – perguntou feliz.

– Claro! – respondi sorrindo.

– Traz ela mesmo boba! A coroa vai gostar porque quando eu tive meus infarto passei uns dias em Salvador e foi muito bom. Vai fazer bem. – disse Ruth.

– Ruth, onde eu andava que não vi nada disso e nem soube que você passou dias em

 Salvador? – Paulinha perguntou desconfiada.

– Ah! Você não me conhecia ainda. Eu era casada com Agenor naquele tempo e morava lá em Araras!

– Sei… – sua cara era de descrença.

Alex gostou muito da idéia e disse que conversaria com a avó a respeito.

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