Tudo muda, tudo passa – Cap 6 – Parte 9

Tudo muda, tudo passa – Cap 6 – Parte 9

O almoço de natal aconteceu por volta das 15:00h, que foi mais ou menos quando Alex e eu entramos em casa. Terry pediu para fazer a oração de agradecimento e disse algumas coisas sobre “acabar com o mal que quer invadir o seio da família”. Ficou claro para mim que Alex e eu fazíamos parte deste mal.

Bryan e Corina chegaram depois de nós e com aspecto de que haviam “almoçado” antes em algum canto destacado da fazenda. Mesmo assim ele sentou em frente a Alex. Os pais dela ficaram um pouco mais longe. Vó Dorte beijou nossas testas e sentou-se ao lado de Alex. Leslie e Meg não deram as caras.

As conversas transcorreram sobre assuntos amenos até que Bryan resolve abrir a boca:

– Está noiva prima?

– É o que parece, não? – respondeu.

Corina riu.

– Isto é só um anel. Ela não está noiva. – disse Jack.

– Estou sim mamãe.

– E onde está seu noivo? – Bryan perguntou debochadamente.

– Eu disse que estava noiva, mas não disse que tinha noivo.

– E como pode ser isso? – perguntou o senhor Angus – Que conversa é esta entre vocês?

– Onde você está querendo chegar Bryan? – Vó Dorte perguntou seriamente.

– Ele está querendo uma família decente tia Dorte. Eu não agüento mais o que acontece aqui! – Terry bateu na mesa – Alexandra fica noiva de uma mulher e todos têm que achar isso natural. Kevin traz o pequeno namorado escocês e eu tenho que me sentar do lado do “casal” na mesa porque foi o lugar que sobrou! E onde estão Leslie e Meg? Alguém sabe? Pois eu digo: – levantou-se – estão fumando maconha perto do estábulo! E o tio Henry? Alguém se lembra do nome da namorada dele que aqui está? Nem adianta memorizar porque ano que vem provavelmente será outra mulher e talvez venha mais um filho por aí. E mesmo você Bryan, – apontou para o rapaz- deveria se envergonhar de fazer sexo com Corina no meio do mato! – olhou para ela – Não imaginava que fosse essa a educação que recebeu.

– Corina! – dona Doroty deu um grito tapando os lábios com a mão.

– E quem elegeu você o representante da moral e dos bons costumes mocinho? Eu faço de minha vida o que bem entender, e criei meus filhos sem a sua ajuda e dela nunca hei de precisar, se Deus quiser. – Henry estava de pé furioso.

– E se minhas filhas estão fumando você não tem que se meter nisso. São minhas filhas, minhas, e não suas! – Carmem estava aos berros – Elas são saudáveis, e não puritanas complexadas e idiotas como você!

– Eu não quero mais permanecer aqui. Estamos de saída. – Kevin preparava-se para sair acenando para Martyn

– Oh, Deus, que vergonha! – Jack exclamou.

– Isso aqui está um antro! Se eu soubesse disso nem teria vindo. – o senhor Angus jogou o guardanapo na mesa.

A confusão se alastrou e Alex e eu permanecemos paradas apenas observando tudo, até que Shelley se levanta furiosa e grita:

– Chega!!! Chega! Calem a boca agora! – socou a mesa – Ninguém sairá daqui! Chega de tanta hipocrisia e show gratuitos de intolerância! Chega!

– Mas vovó… – Terry tentou argumentar.

Shelley saiu de seu lugar pegou Terry pelo braço e o sentou em seu lugar com um empurrão.

– Deixe de ser tão desagradável e inconveniente. Que Deus você diz louvar se não sabe sequer respeitar a família que tem? Ninguém é obrigado a fazer o que você acha certo, e como bom cristão você deve respeitar as escolhas alheias! – olhou para Kevin e Martyn – E vocês dois sentem-se nos seus lugares, pois não vão a lugar algum. Essa é minha casa e recebo quem eu bem entender, Terry goste ou não.

Voltou para seu lugar e sentou-se. Herbert, que estava na outra cabeceira levantou a voz:

– Se estamos aqui reunidos é pelo aniversário de Cristo. – olhou para todos – Angus você é meu irmão mais velho, mas não admito que chame minha casa de antro. E trate de pegar seu guardanapo de volta e agir como um cavalheiro. Se vocês não respeitam os direitos dos outros de fazerem o que bem entendem das próprias vidas respeitem pelo menos a Cristo que deve ser comemorado com alegria e não com deboches, provocações e lições baratas de moral!

– Mas vovô, como respeitar a data como ela merece se estas pessoas…

– Cale a boca Terry! – Malcon gritou – Seus avós já falaram com você, e chega por hoje com suas observações inconvenientes! Se abrir a boca novamente eu mesmo vou dar um jeito de fechá-la!

– Corina, conversamos depois! – disse dona Doroty.

Corina abaixou a cabeça sem graça.

– O mesmo para você Bryan! E não quero mais ouvir nenhuma pergunta idiota de sua parte! – Henry afirmou com raiva

– Nada disso teria acontecido se… – Robert ensaiou um discurso.

– Robert! – vó Dorte disse secamente – Cale-se!

Ele obedeceu prontamente. Um silêncio tumular invadiu o salão e todos voltaram a comer normalmente. Olhei para Alex e ela estava visivelmente chateada. Pus a mão na perna dela que então me olhou sorrindo. De repente, Leslie e Meg chegam esbaforidas.

– E então família? No meio de toda essa paz há lugar para mais duas na mesa?- Leslie tinha os olhos vermelhos.

Depois do almoço tudo foi acontecendo rapidamente. Dona Doroty disfarçou um pouco e foi embora com a neta. O senhor Angus alegou ter de ir visitar a família de um amigo e se foi logo depois. Bem à noite, Malcon, Mildres e Terry despediram-se de todos e partiram. O frio aumentou e foi quase impossível ficar do lado de fora depois do almoço. A neblina era tão intensa que mal se via a mão na frente do rosto. Mesmo com a casa sendo grande achei que este contato forçado estimulou os incomodados a irem embora; acharam mais fácil dirigir no nevoeiro.

Herbert criou várias opções de jogos para nos entreter, e todos, menos Bryan e os pais de Alex, participamos. Henry conversou com o filho em particular, que não apareceu mais pelo resto do dia. Bandhari parecia ter medo da família.

Com a sobra de quartos, Meg e Leslie foram dormir em outro lugar e Alex e eu ficamos sozinhas no quarto.

– Enfim, sós! – abracei-a pela cintura.

– Ai, não amor, por favor! Estou morrendo de dor de cabeça. Mesmo com as boas tentativas do tio Henry em nos divertir, aquele episódio do almoço me deixou chateada demais. – desvencilhou-se de mim e caminhou até o espelho da penteadeira.

– Eu sei linda, eu também morri de raiva e de vergonha se quer saber. Não esperava por aquilo. Bryan e Terry estragaram o que sobrou do almoço de natal, mas a gente não pode deixar que isso contamine tudo mais. Amanhã é outro dia, e o que importa é que muitos nessa casa nos aceitam como somos. – aproximei-me e beijei-lhe a nuca.

-Eu quero dormir, Sammy. Hoje não, por favor. – olhou para mim com uma cara de cansaço.

– Quer que eu peça um remédio para sua dor de cabeça? Alguém pode ter.

– Se você quiser…- encaminhou-se para sua cama.

– Deixa comigo! – saí do quarto

“E eu que pensei que só homem ouvisse essa desculpa da dor de cabeça…”

No dia seguinte estávamos, Alex e eu, tomando café da manhã com Shelley, Herbert e vó Dorte.

– Agora que estamos sozinhos aproveito para me desculpar pelo inconveniente de ontem. Lamentável.

– Tudo bem tio. Esqueça.

– Alex tem razão. Esqueçam isso. – disse.

– Acho que as meninas estão certas. Vejam – bateu palmas – que tal irmos para Oxford daqui a algumas horas? Samantha ainda não conheceu os arredores!

– Ótimo Dorte! Falarei com Henry e vocês irão no carro dele, que é quase um ônibus. Aproveite e convide os outros jovens. Talvez eles queiram. – disse Shelley.

– Boa idéia! Que acham? – Herbert olhou para nós

– Sim, vamos lá. E eu agradeço a gentileza. – respondi.

Horas mais tarde saímos no carro de Henry. Kevin, Martyn, Augustus e Mirayn foram conosco, enquanto vó Dorte mandava ver no acelerador.

“Essa velhinha é do barulho!”

– Eu nunca estive por estes lados. Acho que minha vida se resume a Escócia e Irlanda. – disse Martyn.

– Eu conhecia por causa dos natais na fazenda. Meu pai nos traz todo ano. – respondeu Kevin.

– Eu conheço muito pouco da Inglaterra. Esta região dos arredores da fazenda, Cardiff e nada mais. Nem Londres eu conheço! – disse Mirayn.

– Onde você mora? – perguntei

– Nova York.

– Realmente é um pouquinho longe! – respondi – E vocês? – perguntei aos outros filhos de Henry.

– Eu moro na Escócia, em Edimburgo. Martyn mora a 50m da minha casa. – disse Kevin.

– E eu moro na França, em Paris. Minha mãe é argelina e há um monte de compatriotas naquele país.

– E você nasceu lá Augustus? – Alex perguntou – Disto eu nunca soube.

– Eu sou francês, Kevin é escocês, Mirayn é norte americana e Bryan é londrino. Porém a mãe dele atualmente mora em Barcelona; eles moram, melhor dizendo.

– Mirayn, se seu pai deixar, você pode passar uns dias em Londres comigo e as meninas. Minha casa tem lugar para mais uma.

– Ah tia Dorte eu adoraria. Deixe-me falar com papai na volta.

Vó Dorte parou bem no centro da cidade, perto do famoso campus universitário e fiquei surpresa com o porte das construções. A Oxford University é formada por 36 faculdades, fundadas entre os séculos 13 e 16. Foi como se estivesse em um filme da Idade Média.Visitamos rapidamente quatro faculdades: Christ Church, All Souls, Magdalen e Corpus Christ. Subimos a Carfax Tower e tivemos uma bela visão da cidade. Andamos por belas praças e acabamos almoçando tarde em um restaurante chamado Castle of Oxford. Era realmente um velho castelo, conservando o charme da época e com um excelente atendimento. A comida é que deixava a desejar, mas eu já não esperava muito da cozinha inglesa desde que provei o primeiro prato.

Vó Dorte ainda nos levou de carro até o Blenheim Palace, fora da cidade, a mais alguns minutos de carro. Foi neste palácio que Winston Churchill nasceu, e a construção é magnífica. O palácio é cercado por lindos jardins, e é próximo a um grande lago. Naquela época do ano ele não estava aberto aos visitantes, e por isso contemplamos apenas o lado de fora. O dia tinha sido muito divertido em companhia deles e estávamos de bobeira em um lindo jardim cheio de fontes, batendo fotografias, quando o celular de Alex tocou.

– Ah, é minha mãe! Com licença! – afastou-se do grupo.

Pude perceber por seus gestos que a conversa estava tensa.

– Você se dá bem com seus sogros? – Martyn me perguntou.

“Que situação engraçada essa pergunta dele.” 

– Não. Eles não aceitam nosso relacionamento. Quando minha avó era viva, e ela era minha família, aceitou muito bem, mas os pais da Alex…

– A mãe de Kevin não se conforma! Ela faz o que pode para nos separar. Graças a Deus, porém, o Henry tem outra cabeça e nem se incomoda.

– E os irmãos dele?

– Cada um mora em um país e só se vêem no final do ano. De vez em quando passam as férias com o pai, mas é difícil que se encontrem. Acho que só Bryan é meio… estranho.

Alex voltou para perto de nós visivelmente contrariada.

– O que foi bebê? – vó Dorte perguntou

– Meus pais estão indo para Londres agora e depois pegam um avião para a Escócia. Esta é a vez dos parentes de mamãe. Eu disse que não iria e então… Imagine.

– Mas e aí, querida? – perguntei

– E aí que eles vão e eu fico.

“Graças a Deus, já foram tarde!”

– Desceremos para Londres amanhã. Vamos aproveitar bem o tempo. – disse vó Dorte.

– Quando vocês partirão? – Augustus perguntou.

– No dia 10 de janeiro – Alex respondeu.

-Por que não antecipam para dia 08? Volto para casa neste dia e não me incomodaria de apresentar Paris a vocês em dois dias. Verão que é bem mais bonita que Londres!

– Ei! Olhe como fala rapaz! – vó Dorte fingiu estar invocada.

– Que acha? – Alex me olhou empolgada.

– Calma linda! Temos que ver algumas coisas primeiro…

Chegamos de volta na fazenda por volta das nove da noite. Compramos algumas lembrancinhas na cidade e tiramos várias fotografias. Aliás, Alex fotografou quase tudo nesta viagem, inclusive na fazenda e no avião. Disse que era por estar comigo.

– Querida seus pais já foram! – disse Shelley para Alex – Thompson e a família acabaram de sair e deixaram beijos para todos, e Henry levou Bandhari para a estação de trem. Ela quis voltar para Cardiff, mesmo sem ser de carro. Acho que ficou com medo de nós. – riu rapidamente.

– E ele não voltou ainda? – perguntou Kevin.

– Deve estar tentando convencê-la a ficar. Inclusive está com seu carro Dorte.

– Oh Deus! – ela disse.

– E Bryan? – perguntou Mirayn

– Estou aqui. – apareceu na porta da sala.

“O último desagradável que sobrou na casa.”

– Eu vou tomar um banho. – disse

– Eu também. Espero você ir na minha frente. – Alex complementou.

– Banho em um frio desses? Loucas! Bem que me disseram que no Brasil as pessoas tomam banho todos os dias. Até Alex está contaminada com a mania. – disse Martyn

sig_Raydon

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