Sofia – uma história de diálogos

Sofia – uma história de diálogos

Em um domingo bem tranquilo e normal de pandemia, resolvi que não queria passar muito mais tempo assistindo programas de investigação criminal na AXN e por isso, liguei o computador, coloquei meu fone e fui pesquisar coisas legais para ouvir no Spotify. E justamente nesse momento, o próprio me indicou Sofia. Um podcast ficcional que, parece ser, algo revolucionário, novo e moderno. Mas, será?

Bom, como curiosa-geminiana nata, não demorei muito para dar o play e arriscar. E qual foi minha grata surpresa com o que estava ouvindo. Basicamente, é uma rádio novela. Na trama, Helena trabalha na empresa que controla a SOFIA, uma assistente virtual. O mais legal? A história se passa em Barra Mansa, ou seja, aqui no meio de nós. E para ex-aspirante a atriz de teatro, pensar em interpretações baseadas somente na voz é ainda mais interessante. Em cada episódio, Helena, lida com chamadas dos usuários da SOFIA e, por trabalhar na área de pássaros, responde desde tipos de aves baseado na descrição do usuário até um grupo de adolescentes fazendo piada.

Mas, vamos falar do que nos interessa? Escrita.

Apenas diálogos

Já pensou em escrever uma história que só tem diálogos? E que você precisa escrever a história toda através da conversa entre os personagens? Na prática, é exatamente isso. Não temos imagens para nos auxiliar, não temos a expressão dos atores para nos direcionar quanto aos sentimentos, apenas a voz e as palavras ditas por eles. Já pensou? Uma história inteira feita em diálogos.

Escrever diálogos

Nesses casos, é importante pensar que a pessoa não faz ideia do que está acontecendo, apenas está acompanhando diálogos. A escolha das palavras e como você irá formular as frases fica ainda mais importante já que não existe um narrador onisciente, ou seja, que já sabe de tudo. A história vai sendo descoberta de acordo com o decorrer dos diálogos. É interessante ir liberando informações de pouco a pouco, para que o leitor (ou ouvinte) possa ir descobrindo a história conforme for avançando nos diálogos.

É essencial também que os personagens sejam muito bem definidos dentro dos diálogos, afinal de contas, não temos trechos narrativos para dizer quem está fazendo o que ou quem está chegando aonde. Por isso, deixe claro, nos vocativos e referências quem são os interlocutores daquele momento. Dessa forma, o leitor pode se manter por dentro de tudo que está acontecendo. Vou tentar exemplificar:

– Senhor Carlos, eu sei que você é o chefe da minha equipe, mas preciso fazer uma pergunta um pouco pessoal

Os diálogos precisam ser claros, diretos e concisos, afinal de contas, em uma conversa, ninguém fala dez linhas né? Prepare-se para cortar as explicações em duas ou três linhas. E olhe lá!

Agora, falemos sobre a descrição das cenas. Lembrando mais uma vez que não teremos um parágrafo de descrição. Dentro dos diálogos, é necessário que você consiga, no meio de tudo, descrever o entorno:

– O que você queria falar comigo, afinal? Ei…para de olhar para essa tela e fala comigo logo, estou atrasada!

Se ligaram, nesse exemplo tosco que eu fiz aí, que você pode dizer que o interlocutor da pessoa atrasada está olhando no celular e não falando com ela? Quer mais um exemplo? Eu tento:

– Desculpa sair entrando assim, falaram que você estava nessa sala e a porta estava entreaberta.

Viu? A pessoa está em uma sala e a porta entreaberta. Não é tão difícil, né? E essencialmente importante.

E aí? Preparado para escrever apenas, e somente, diálogos?

De Lourenço

Publicitária que resolveu tentar a vida sendo escritora. Pica das galáxias em social media e viciadíssima em café.

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