Segunda tela

Eu não sou qualquer uma. E sei disso. E não estou falando no sentido que todo mundo pensa, da sacanagem ou dos relacionamentos. Eu quero dizer em relação a vida mesmo. Nada vinha fácil para mim. As escolhas eram carregadas de consequências e eu sempre lidei com cada uma delas. Quando contei para toda a minha família que era gay, afastei algumas pessoas e aproximei outras. Consequências. Eu já sabia disso, mas encarei. Eu vivo pelo dia perfeito, eu ainda espero que um herói (no meu caso, heroína) vá me salvar um dia. E enquanto isso não acontece, eu vou encarando os dias.

E foi assim que eu a conheci. Com 24 anos já tinha estudado tanto que dava aula em alguns cursos. Eu era especialista em um fenômeno moderno chamado segunda tela. Ele consistia no fato de que com a explosão do uso das redes sociais, as pessoas usavam o celular ou tablet como segunda tela da televisão, ou seja, comentavam e discutiam os programas nas redes sociais. E isso mudou a forma como a tv deve ser feita. Até ela levantar o braço e me perguntar se o mercado de comunicação brasileiro estava pronto ou não para isso. Eu tinha um opinião, ela outra. Eu tinha me apaixonado, ela também.

Durante o resto da aula eu não conseguia tirar o riso irônico que ela dava toda vez que discordava de mim da cabeça. Foram dois sábados seguidos assim e então o curso acabaria e eu voltaria para a minha normal, chata e rotineira vida. Ou não.

– Passei a semana pensando em você – foi assim que ela me abordou no final da segunda aula, quando a sala já estava vazia
– Eu sou boa em discussões, faço as pessoas pensarem – eu nunca fui humilde, admito
– Não pensei na discussão. Pensei em você.

Eu não tive reação. Apenas sorri sem graça, abaixei um pouco a cabeça e procurei meu celular, que era minha rota de fuga. Ela me entregou um papel, sorriu, me disse até logo e virou de costas. Acompanhei seus cabelos balançando nas costas e pela primeira vez reparei que ela estava de all star vermelho. Eu amo all star vermelho.

Recuperei o ar e, ainda sentada, olhei o papel: “te aguardo na minha segunda tela: jeanine.lopes@gmail.com”
Será que era sério? Ela tinha acabado de me passar o email dela? Será que eu tinha entendido tudo errado e ela só queria uma chance na equipe que eu coordenava na agência? Será que eu era louca e estava tão desesperada para ter alguém que estava vendo coisas? Irritada, arrumei minhas coisas, desci até o estacionamento do prédio e fui embora. Precisava urgentemente de uma cerveja gelada e uma comida gostosa.

A semana recomeçou e aquela menina dos cabelos negros esvoaçantes não saia da minha cabeça. Encarava aquele papel todas as vezes que abria a minha pastasse trabalho. Imaginava o que eu poderia mandar para ela. Um vazio ficava na minha mente. Procurei não abrir a pasta e terminei minha semana.

A noite de sexta era sempre igual: saia do trabalho, passava em algum bom restaurante, comprava algumas garrafas de cerveja e seguia para casa. Eu não era do tipo que saía, nem do tipo de barzinho, gostava de livros, filmes, séries e cama ou sofá. Aquela sexta não seria diferente. Rodei a chave na porta, larguei os sapatos e a bolsa. Liguei o som enquanto tomava banho e coloquei a comida para esquentar e a cerveja para gelar. Foi quando meu celular apitou. Era um email. Se fosse qualquer outra sexta, eu não ousaria interromper meu sagrado ritual para olhar um spam qualquer. Mas algo me dizia que a minha segunda tela não tinha me chamado a toa.

“Achei que você iria mandar algo, mas fui obrigada a tomar a primeira atitude. Meu telefone é: 98767-0345 e estou esperando você me mandar algo. A bola está com você”

Essa sexta não seria como todas as outras. Nenhuma sexta seguinte seria como todas as outras.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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