Rehab

Quando ela chegou, era um dia atípico, fazia frio no final de fevereiro.

Usava vestes que chamavam a atenção, a calça pra dentro da bota, e um blusa não muito a ver com o resto das peças. Usava também uma maquiagem forte.

Eram dez os convocados pra aquela reunião, e ela destoava do resto: nas vestes e atitudes.

Era impossível completar uma frase sequer, de qualquer que fosse a explicação, sem que ela interrompesse e questionasse.

Naqueles pequenos e prazerosos encontros, tomei as primeiras doses dela.

Passadas algumas semanas, recebi no facebook a solicitação de amizade, junto com uma mensagem que dizia me admirar pelo talento. E a partir desse dia passamos a tomar doses um pouco maiores.

Os diálogos agora eram mais longos e os assuntos convergiam com nossos olhares se esbarrando de forma incomoda, quando ela me abraçava, eu sentia o sangue correr quente por cada centímetro do meu corpo.

O processo foi rápido, não tive tempo de escolher. Com o aumento da tolerância pelo meu organismo, fui obrigada a cada dia tomar doses maiores, e com o passar das semanas abri mão dos chocolates e a cerveja não me interessava mais, o cigarro eu abandonei, e meu único vício eram os beijos dela.

Foi enlouquecedor quando ela partiu, dizendo estar curada de mim, que não precisava mais dos meus olhares e que minha cama já não trazia conforto, foi desesperador ve-la ir embora, e a abstinência tomou conta de mim.

Foram longos dias com amigos, incensos, e as músicas que ela gostava, foram semanas que pareciam meses e meses que pareciam anos. Ninguém mais aguentava ouvir o mesmo nome, saber dos gostos dela ou sentir aquele perfume, que comprei só pra fingir te-la por perto.

Por isso hoje estou aqui, pra dizer a todos que sei que é possível, com um dia de cada vez. Hoje fazem exatos treze dias que não abro o perfil dela do facebook, e nem procuro o @ no Twitter. Há treze dias eu não acordo conferindo as ligações no celular e nem se o telefone de casa esta realmente funcionando. O porteiro parou de me avisar quanto as cartas que não chegam.

Eu sei, como todo viciado, o mal que faz me alimentar dessa droga, seja qual for a dose, não importa, a dependência é iminente, o esforço pra conseguir ficar limpo é sempre o dobro a cada nova dose e já não quero mais reabilitação.

Se souberem dela, por favor: Não quero nem ouvir uma narrativa. Se não souberem: não falem de sua ausência. Estou quase curada, ontem mesmo ouvi chamarem o seu nome do mercado, e nem ao menos olhei pra trás.

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Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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