Raios

Era como uma pintura. Dessas de algum artista famoso que vale milhões. O movimento do sol se escondendo atrás das montanhas que ficavam de frente para a janela do quarto de Brenda, era um espetáculo. A menina, com seus cabelos castanhos e olhos azuis aproveitava os dias de férias para deitar em sua cama no final da tarde e apreciar aquele espetáculo da natureza. Ela sempre fazia a mesma coisa: pegava um copo de coca, algum biscoito ou lanche, ligava o som não muito alto, abria bem as cortinas e se jogava, apoiada em seus braços, na cama. Depois que os últimos raios sumiam e o céu estava se preparando para receber a dama da noite, Brenda levantava e ia até a janela olhar o movimento noturno da rua.

No final da calçada tinha um polo de bares e restaurantes e todos os dias a movimentação por ali era muito grande. Brenda adorava ficar analisando os vários tipos de pessoas que caminhavam num eterno vai e vem em frente a sua casa. Seu apartamento ficava no quarto andar então o barulho não era tão grande, só quando alguém, já alterado pelo álcool exagerava no tom de voz. Mas rapidinho surgia um vizinho recém acordado para gritar e mandar o ‘maldito’ bêbado falar mais baixo. Brenda ria com tudo isso. Com seus dezessete anos, ainda não tinha permissão do pai, super conservador e tradicional, para ir aos bares. Só lhe restava ficar olhando quem ia.

Em plena quarta feira, Brenda repetiu sua rotina. Biscoito, coca cola, cama, sol. Em seguida, pegou sua câmera, não muito profissional e levou para a janela. Ela gostava de tirar foto das pessoas mais interessantes que via. Seu sonho era rodar o mundo, fotografando pessoas e o por do sol em diferentes lugares. Na cabeça de Brenda a vida ainda não tinha começado, aquilo tudo era apenas um filme. Apenas um ensaio.

Já estava tudo escuro e a lua já dominava os céus acima de todos. Brenda estava achando aquela noite bem fraca para um mês de férias, até que viu ao longe duas meninas caminhando, abraçadas. Era claro que eram um casal. Estavam de mãos dadas, rostos próximos e sorrisos apaixonados. Uma delas era loira, com um cabelo comprido e calças largas. Brenda ficou hipnotizada. De longe podia ver o all star rabiscado da menina e a aliança que carregava no dedo e que tinha um par na mão da menina ao lado. A menina foi registrada em mais de dez imagens na câmera de Brenda.

Os cabelos castanhos acordaram molhados de suor depois da noite agitada de Brenda. A menina, que aos dezessete anos nunca tinha namorado teve sonhos proibidos com a tal loira. Acordou no meio da madrugada ofegante e molhada. De suor. Decidiu revelar suas imagens.

O pai de Brenda tinha construído um pequeno estúdio de revelação de fotos no escritório ao lado do quarto de Brenda. Ela tirava as fotos e depois passava o resto do tempo no estúdio, revelando, descobrindo novas cores, novos sorrisos e novos sonhos. Lá estava a loira. Era uma seqüência angelical de sorrisos, olhares e toques. Brenda percebeu que a menina tinha sorrido para a câmera. Ficou envergonhada e se encabulou na hora como se a fotografia fosse a menina ali presente.

A quinta feira de Brenda começou com o nascer do sol. Depois de seus sonhos pecaminosos e o resto do tempo gasto no estúdio, Brenda foi assistir ao outro espetáculo de seu astro preferido. Deitou na cama com uma xícara de café e viu os primeiros raios do dia incomodarem seus olhos claros e desprotegidos. Decidiu caminhar até a janela novamente e quase engasgou com o café quando viu pela janela a sua loira. Ela estava com a mesma roupa, voltando da noite anterior, com a mesma menina entrelaçada em seus braços, mas dessa vez Brenda estava sem a câmera e a loira a olhava fixamente.

Brenda sabia que devia parar de olhar para disfarçar, mas simplesmente não conseguia. Acompanhou cada passo lento do casal sem tirar os olhos dos olhos da loira misteriosa que tinha feito parte de seus sonhos mais tórridos.

Antes de sumir na esquina, a loira sorriu e acenou para Brenda. E neste momento, a morena descobriu que nenhuma foto captada em um filme será mais poderosa do que uma foto captada em sua mente.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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