Que isso fique entre nós

Acordei fazendo o máximo de esforço para que meus movimentos na cama não a acordassem. Vasculhei no armário do banheiro e achei umas escovas de dente virgens e antes de usar confesso que pensei por alguns segundos quantas outras não usaram suas escovas virgens, mas pensamento foi breve. Interrompido pelo ranger das molas da cama enquanto ela se ajeitava no edredom chamando minha atenção pra que eu desligasse a torneira que fazia barulho.

Na noite anterior inventamos uma salada com o que sobrou do almoço. Ela colocou a mesa enquanto descasquei as batatas. Risadas entre garfadas e interesses em comum. Tirei a mesa enquanto ela lavou os pratos pra que eu enxugasse enquanto ela tirava da máquina as roupas que esqueceu batendo quando saiu pro trabalho.

Ela me cuida sem impertinências, sem frases no imperativo, baixinho, com os dedos enrolando meus cachinhos da nuca e compreensão no olhar, jurando querer que comemoremos juntas as conquistas dos nossos objetivos. Eu cuido dela como quem equilibra peças de cristal, eu sei da tamanha força e do que já superou. Sei que sabe mais da vida do que posso desconfiar e adoro quando ela ri da minha imaturidade dizendo que ainda tenho muito pra viver, que tudo isso passa. A tranquilidade que ela leva nos ombros me faz abandonar as preocupações corriqueiras e assumir o momento presente como o único a ser pensado.

Voltei a cama pra acorda-la com um abraço e um carinho do nariz na orelha, sorrindo e observando ela sorrir com os olhos ainda fechados, espreguiçando um bom dia. Comuniquei que fui invasiva pegando a escova de dentes e como imaginei disse não haver problema algum, pediu que eu deixasse no pote junto com a dela para a próxima vez, e nossos sorrisos transbordaram.

Esse jeito doce de enxergar a vida o mundo e os imprevistos, uma persistência quase ingênua no que é bonito, uma paixão pelas coisas que curam que enaltecem a mente e a alma, essa vontade de viver apesar de tudo que a vida impõe, foram as coisas que me fizeram olhar e me observar sorrindo dentro dos olhos dela. Me apaixonei pelo que me fez sentir, me apaixonei quando me reconheci como sou, cheia de imperfeições e quereres, quando sorri de volta, sem esperar nada além.

Combinamos de nos manter em segredo, de falar pouco e de não descuidarmos de nós mesmas. Juramos não sacrificar nosso próprio ego como tende a paixão. O sigilo tem alimentando ainda mais nosso querer. Quanto ela toma meus pensamentos por longo período logo recebo no celular uma mensagem cheia de si: “Para de pensar em mim e volta a trabalhar!”. Respondo sorrindo, com o ego também inflado e a certeza de que estava pensando em mim.

Nossa vaidade pra outros exagerada é mais um ponto de compreensão, nós gargalhamos das nossas auto-afirmações enquanto outros torcem o nariz ou julgam ser soberba. Juntas transbordamos, porque já somos inteiras, não seremos metade, nem buscamos nos completar, a soma nos expande.

Em algum texto desses em que Caio Abreu me lê, ele diz que “Quanto mais não dita, melhor a paixão!” e de fato o mistério tem nos alimentado.

Muitos vão me perguntar quem é ela que tem me feito escrever poesias, que tem me feito cantar, que me botou pra dançar sem música, pra sair do ritmo, quem é ela que me faz mais uma vez afinar o violão… Mas não irei dizer: Essa história será repleta de fugas e sussurros na madrugada, disfarce pra trocar olhares e ciúme contido em público. Não vamos nos revelar, porque essa prosa será só nossa, todos nos assistem dançar, mas só nós ouvimos a música.

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Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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