QUANDO MENOS SE ESPERA – Capítulo 35

Ao chegarem a casa, a família de Agnelo foi recepcionada com o doce e simpático sorriso de Rosa, que cumprimentou a todos com palavras, mas apenas Valentina foi presenteada com um abraço caloroso. Naquele dia, todos se recolheram cedo aos seus respectivos quartos, devido ao cansaço da longa viagem.

No domingo, Agnelo e Júlia não deixaram de ir ao clube. Apenas saíram um pouco mais tarde do que de costume. Já Valentina dormiu até muito tarde. Amanda acordou no meio da manhã e resolveu ir à missa das onze horas. Depois do ritual religioso, ela saiu para almoçar com os amigos da igreja. Por isso, ela chegou a casa apenas no fim da tarde.

Ao subir as escadas em direção ao seu quarto, Amanda encontrou Valentina, que as descia devagar, porque olhava para a tela do celular. Desviou o olhar para Amanda e a cumprimentou:

– Oi…

– Oi… – Amanda respondeu sem jeito, evitando olhá-la.

Ela ia continuar subindo as escadas quando sentiu a mão de Valentina em seu pulso, o que fez seu corpo estremecer.

– Vem aqui, quero falar com você! – Valentina falou e puxou Amanda até o home cinema.

Amanda deixou-se ser levada até lá, mas o nervosismo só aumentava.

– Por que você fugindo de mim, Amanda? com medo de mim, é isso?

Apesar de trêmula por recear que Valentina percebesse que realmente ela tinha medo de si mesma e não dela, Amanda respondeu:

– Eu não tenho medo de você, Valentina!

– Pois parecendo que tem… Nesses últimos dias você ficou me evitando… Eu sei que eu exagerei naquele dia… Eu peço desculpas de novo!

– Eu não te evit… – Amanda interrompeu a frase e bufou. – É porque eu acho… – esfregou as mãos uma na outra. – Eu acho que não é certo o que a gente fez! Não poderia ter acontecido!

– Não fizemos nada demais, Amanda! A gente apenas se beijou!

– Fala baixo, Valentina! – Amanda repreendeu a garota, olhando para a porta e para a janela. – E você acha pouco isso? – ela sussurrou.

Valentina revirou os olhos e falou:

– Acho normal! Quando as pessoas querem se beijar, elas se beijam e só!

– Mas Valentina nós somos duas garotas! Isso não é… – baixou mais ainda o tom da voz. – Isso não é normal!

– Porra, Amanda! Claro que é! Pode não ser convencional… Por causa dessa sociedade ridícula em que a gente vive! Mas é natural… É normal sim! Até entre os outros animais existe homossexualidade, sabia?! – passou as mãos nos cabelos. – E eu não sabia que você era tão homofóbica!

– Eu não sou homofóbica! – Amanda aumentou o tom de voz e franziu o cenho. – Não tenho nada contra os gays, mas…

– Ah! Sempre existe um ‘mas’, ? Mas o quê? – Valentina se indignou, colocando as mãos na cintura. – Contanto que não seja na sua família ou com você? É isso? Deixa de ser hipócrita, Amanda! – Valentina falou revoltada, também alterando o tom da voz.

– Eu não sou hipócrita, Valentina! – Amanda retrucou irritada – Eu apenas não sou…

Valentina a interrompeu:

– Olha pra mim e só me diz uma coisa: por que você me beijou naquele dia então?

Durante alguns segundos, Amanda a fitou calada. Seu coração estava inquieto dentro do peito. Enfim, ela respondeu, balançando a cabeça negativamente:

– Eu não sei, Valentina… Eu não sei…

– Pois eu sei! Acho que você sentindo o mesmo que eu e não quer admitir!

– Não é is…

– Eu acho que é isso sim, Amanda! E eu entendo o seu desespero! E te prometo que não vou forçar nada… Ora, se pra mim foi difícil encarar esse sentimento, imagino pra você, que é toda religiosa e tal… Tem também nossos pais… Enfim, eu entendo perfeitamente! Eu só quero te dizer que não se preocupe, porque não vou fazer nada que você não queira… Por um momento, eu pensei que talvez a gente até pudesse… – interrompeu a si mesma e não continuou a frase. – Eu pensei muito durante a viagem e sei que não deveria ter te falado nada sobre apaixonada por você! Eu joguei isso na sua cara sem medir as consequências! Desculpa! Mas também sei que, com o tempo, essa paixão vai acabar… É só dar tempo ao tempo! Enfim, eu compreendi que não pode rolar nada entre a gente…

Ao ouvir o que Valentina falava, Amanda se sentiu aliviada, por realmente achar que não deveria acontecer nada entre elas. E, ao mesmo tempo, sentiu-se extremamente desapontada por saber que não ia acontecer nada entre elas depois de ouvir a última frase de Valentina. Naquele momento, ela era uma contradição ambulante! Por isso, aquela conversa não serenou em nada seu coração.

Ela já estava em silêncio por alguns instantes, quando ouviu Valentina dizer:

– Fala alguma coisa, Amanda!

– Sinceramente, eu não sei o que dizer!

– Argh! – Valentina esfregou as mãos no rosto e saiu, deixando Amanda sozinha no home cinema mergulhada na paradoxialidade de suas emoções.

– Meu Deus, por que eu não feliz com o que ela disse?! Era pra eu aliviada! – Amanda falou para si mesma, sentando-se no mesmo sofá onde, meses atrás, Valentina a tinha acudido do assédio de João Pedro.

Ela pôs as mãos em seu rosto e começou chorar. Olhou para cima, esfregando o pingente de crucifixo de seu cordão e se questionou aflita:

– Por que, meu Deus?! Por que isso acontecendo comigo? Eu não posso sentir isso! Eu não posso!

Posteriormente, limpou as lágrimas que escorriam dos seus olhos, respirou profundamente e clamou aos céus:

– Meu Senhor, tira esse sentimento de mim, por favor! – as lágrimas escoaram novamente de seus olhos vermelhos. – Eu não quero gostar dela! Eu não posso gostar dela… Eu não posso! Eu não posso! Não posso!

Amanda redizia a frase incansavelmente como se a repetição fosse capaz de extirpar aquele sentimento que lhe consumia a alma.

Depois de deixar Amanda sozinha no home cinema, Valentina foi até seu quarto, bateu a porta com força, jogou-se na cama, pôs os fones de ouvido, ligou a playlist de seu celular e fechou os olhos. Seus ouvidos foram invadidos pelas batidas e notas de rock pesado.

Ela balançava a cabeça ao som da música e lágrimas escorriam de seus olhos. A raiva crescia dentro dela. Raiva por estar apaixonada por Amanda. Raiva por ter falado de seus sentimentos para ela. E, principalmente, raiva por não poder viver essa paixão!

“Por que eu não me apaixonei por outra? Pela Bia, por exemplo. Ou pela Dani! Ou pela Nanda! Tinha que ser logo por ela? Por que?”

Alguns dias transcorreram e, toda vez que Amanda e Valentina estavam na presença uma da outra, elas ficavam desconcertadas e nervosas. Tentavam a todo custo disfarçar os sentimentos e o desconforto quando estavam com outras pessoas. E, incessantemente, elas tentavam não ficar a sós.

E, para desespero das garotas, a paixão – que Valentina achava que iria acabar com o tempo e Amanda acreditou nisso – acresceu de forma exponencial.

Valentina havia iniciado o curso de arquitetura na universidade particular e Amanda tinha começado o último ano do ensino médio. Ambas estudavam pela manhã, o que fazia com que sempre se encontrassem em casa no período da tarde e da noite. Encontros esses que deixavam seus corações agitados e angustiados.

Nenhuma das duas conseguiu extrair da memória os beijos trocados e os toques sentidos. Amanda até tentou através de muita oração. Valentina, através de algumas festas, onde experimentou muitos beijos, mas nenhum a fez esquecer a boca de Amanda.

No primeiro final de semana de março, Valentina convidou seus amigos para um churrasco em sua casa. Quando fez o convite a Sabrina, enfatizou que ela levasse Fernanda. A garota aproveitou a viagem do pai e da madrasta, no meio da semana. Agnelo havia viajado a trabalho e Júlia resolveu acompanhá-lo para curtirem o fim de semana a sós.

Assim, sábado de manhã, os amigos de Valentina começaram a chegar. A pedido dela, Edu havia levado muita cerveja. Rosa, que fiscalizava a chegada de todos, não gostou nada da quantidade de bebida alcoólica.

– Ô, Rosinha! Eu não vou beber isso tudo sozinha não! É pra todo mundo e não quer dizer que a gente vá beber tudo… Relaxa, meu amor! – Valentina abraçou e beijou a bochecha da ex-babá.

– Olhe aqui, mocinha! Não venha me beijando não, porque eu vou de olho em você, viu? – Rosa fingia seriedade.

certo! Não se preocupe! Eu vou só me divertir com meus amigos… – Valentina não conseguiu segurar o sorriso.

– Não precisa beber pra se divertir, minha menina! – Rosa aconselhou franzindo o cenho.

– Eu sei, Rosinha! É só pra dar uma relaxada… – Valentina sorriu e beijou a governanta outra vez.

– Humpf! – Rosa bufou. – Cuidado, viu? Volto já aqui de novo! – falou e saiu em direção ao interior da casa.

Leonardo, Caio e Roberta chegaram juntos e, instantes depois, Sabrina chegou com Fernanda.

Ao abraçar Fernanda, Valentina sussurrou-lhe ao ouvido:

– Que bom que você veio…

– Que bom que você me convidou… – a garota sorriu.

Enquanto Edu fazia o fogo na churrasqueira, Caio e Roberta entraram na piscina e Leo ficou sentado em uma das cadeiras dos quiosques. Sabrina, Nanda e Valentina se juntaram a ele.

– Ó, galera, quem quiser alguma coisa é só se servir, viu? É pra ficarem à vontade! – Valentina falou.

Amanda havia saído de manhã cedo para o curso de francês que ela havia começado naquele ano. Por volta das onze horas, ela chegou a casa. Seu olhar logo encontrou Valentina. Elas se fitaram por alguns segundos. Quando Amanda passava pela piscina, Edu, que estava na água nesse momento, gritou:

– Amanda! Fica aqui com gente, gata! A piscina super gostosa! – ele falou malicioso.

A garota ruborizou de vergonha, mas respondeu com um sorriso sem graça:

– Obrigada, mas tenho que resolver umas coisas… – e continuou andando, esquecendo-se de cumprimentar o restante das pessoas.

Acompanhando Amanda com o olhar, Edu comentou com Caio:

– Cara, achando essa garota cada vez mais gata! Esse jeito de certinha até que deixa ela bem sexy!

Ao ouvir o comentário de Eduardo, o semblante de Valentina se transformou. Zangada, ela o censurou:

– Deixa de ser idiota, Edu! Para de falar assim da menina!

– Calma, gata! – ele levantou os braços. – com ciúmes é? – ele deu um sorriso brejeiro.

Ela riu debochadamente e falou:

– De ti? Claro que não, né? louco, Eduardo?

dando bandeira… – Léo cochichou no ouvido de Valentina.

Então, para evitar que os amigos desconfiassem Valentina não discutiu mais e saiu da piscina. Leonardo a seguiu e perguntou, sentando-se ao seu lado:

– E aí, como andam as coisas? Como convivência com ela?

– Não anda, ? A gente se evitando o tempo todo… Ahh, Léo! Por que isso acontecendo comigo, cara? Eu não posso olhar pra ela, que me dá vontade de… – Valentina suspirou não completando a frase. – Não sei por quanto tempo vou aguentar isso! É foda, cara! A vida brincou mesmo com minha cara! Olha ali a Nanda. – ela desviou o olhar para a prima de Sabrina. – Toda a fim de mim… Poderia apaixonada por ela, ?

– É, minha amiga, nem tudo é do jeito que a gente quer! A vida lhe pregou uma peça mesmo… Deve querendo te ensinar alguma coisa!

Valentina ficou em silêncio. Pensativa, olhou para Fernanda, que estava ali toda linda e disponível. Mas logo seu pensamento foi invadido por Amanda, toda linda e complicada.

Instantes depois, ao perceber que Valentina a olhava, Nanda se juntou a eles. Então, Leo saiu para deixá-las a sós. Não suportando mais seus pensamentos corrosivos, Valentina convidou:

Vamos lá no meu quarto, Nanda! Quero te mostrar uma coisa…

Ela se levantou puxando Fernanda pelo braço. Todos os amigos viram quando elas saíram em direção ao interior da casa.

Assim que Valentina fechou a porta do seu quarto atrás de si, avançou em Nanda a beijando com urgência. Suas bocas se experimentavam com sofreguidão e voracidade.

Sem interromper os cálidos beijos, Valentina levou Fernanda até sua cama e a deitou, pondo-se por cima dela. Suas mãos se exploravam com veemência e suas respirações estavam arfantes. No momento em que elas se despiam, Valentina inesperadamente parou.

– O que foi? – Nanda perguntou sem entender nada.

Saindo de cima da garota e se sentando na cama, Valentina respirou profundamente e disse, esfregando a testa:

– Desculpa! Eu não consigo…

Desolada, Fernanda questionou:

– Foi alguma coisa que eu fiz?

– Não! Claro que não, Nanda! Você é maravilhosa! Pode ter certeza disso! – desviou o olhar para o chão. – É que… com uns problemas aí… Minha cabeça cheia… Só isso! Não é nada com você. Relaxa! – olhou novamente para a garota. – Você ficaria com muita raiva de mim, se eu pedisse pra gente voltar lá pra piscina?

– Não… Claro que não!

Assim, recompuseram-se e, quando estavam saindo do quarto, elas se depararam com Amanda no corredor.

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