QUANDO MENOS SE ESPERA – Capítulo 30

– Porra! – Valentina bateu na porta depois que Amanda saiu do quarto dela assustada. – O que foi que eu fiz, meu Deus! Caramba! Que porra foi essa que eu fiz?! – ela não parou de se perguntar andando de um lado para o outro. Depois se jogou pesadamente na cama com as mãos na cabeça. – Eu não posso ter feito isso!

Amanda chegou ao seu quarto ofegante sem acreditar no que havia acabado de acontecer. Estava tão atordoada e trêmula que ficou andando de um lado para o outro em seu quarto com a cabeça a mil.

– Meu Deus, eu não acredito que isso aconteceu! A Valentina me beijou! Ela me beijou! Por que ela fez isso? Será que ela sente alguma coisa por mim? Claro que não, Amanda! – ela balançou a cabeça negativamente na tentativa de rechaçar essa possibilidade. – Deixa de ser idiota! Claro que ela não se interessa por você! Mas por que ela me beijou?

Naquele momento, na cabeça de Amanda só havia perguntas, nada de respostas.

– Eu preciso me acalmar! – ela sentiu seu coração com as mãos e o encontrou aos pulos dentro do peito.

Então, ela se sentou na cama e tentou puxar o ar profundamente.

– Meu Deus! Isso não pode tá acontecendo! – Amanda deitou na cama e ficou fazendo dezenas de elucubrações.

De repente, ela se sentou de uma vez e falou para si mesma:

– Será que ela tava brincando com a minha cara? Participando de algum tipo de aposta? Eu já vi isso em filme!

E, ao pensar nessa possibilidade, além do atordoamento que lhe afligia, Amanda sentiu raiva. Raiva por imaginar que Valentina teria feito isso com ela logo agora que elas estavam começando a se dar bem. “A Valentina de meses atrás seria capaz disso. Mas ela tá tão mudada! Seria capaz de fazer isso hoje?”. E sentiu mais raiva ainda por já sentir um carinho especial por ela.

– Mas como vou saber se ela fez isso?

Nesse dia, Valentina passou a noite em claro. Amanda até que conseguiu dormir por alguns minutos, mas acordou sobressaltada porque sonhou com o beijo de Valentina. Com isso, lembrando-se do beijo, ela passou os dedos nos lábios e pensou em como os lábios dela eram macios. “Para de pensar isso, Amanda, e ai dormir!”. Essa auto-repreensão não surtiu efeito, porque, depois disso, ela não conseguiu mais dormir.

No dia seguinte, como era rotineiro, o pai e a esposa foram para o clube e Valentina aproveitou para passar o dia inteiro no quarto, acompanhada apenas da sua solitária aflição. Pensou até em ir falar com Amanda, mas não conseguiria encará-la. Pelo menos, não naquele dia.

Amanda fez o mesmo e passou praticamente o dia em seu quarto, zonza e angustiada devido aos diversos questionamentos e sentimentos não decifrados.

Na segunda feira, durante o café da manhã, Agnelo, que estava acompanhado de Júlia e Amanda, perguntou para Rosa se Valentina já havia acordado.

– Não sei, Dr. Agnelo. Sei que ela ainda não desceu. – respondeu a governanta.

– Pois Rosa, você poderia fazer o favor de acordá-la e pedir pra que ela desça. Preciso falar com todas juntas.

– Sim, senhor.

E, assim, Rosa se dirigiu ao quarto de Valentina. Bateu na porta e rapidamente ela atendeu. Já estava acordada, mas não teve coragem de descer, pois sabia que, nesse horário, o pai, a madrasta e Amanda costumavam tomar café da manhã.

– Minha menina, seu pai quer que você desça. Acho que quer falar algo importante.

O coração de Valentina quase parou. “Será que, de alguma forma, eles descobriram o que aconteceu no sábado? Mas como? Amanda não seria capaz de contar! Ou seria?”

– Diz a ele que eu tô indo já. – Valentina falou disfarçando seu desespero.

Minutos depois, Valentina apareceu na sala de jantar. Ela relanceou o olhar rapidamente para Amanda, que não correspondeu, pois não tirou os olhos da xícara.

– Bom dia. – ela cumprimentou.

– Bom dia. – Agnelo e Júlia responderam.

Amanda ficou silente. E Valentina percebeu o angustiante silêncio dela.

– Você queria falar comigo, pai? – Valentina perguntou se sentando à mesa e tentando não transparecer a inquietude que lhe arrebatava.

– Não só com você! Com vocês duas! – Agnelo respondeu.

Valentina se tremeu toda ao ouvir a frase do pai. E, de maneira rápida, ela olhou para Amanda, que apesar de estar pálida, não lhe lançou sequer um breve olhar. A palidez de Amanda aumentou ainda mais a agonia de Valentina.

Então, o pai começou a falar:

– Bom, eu combinei com Júlia e vou tirar uma semana de férias. E quero que essa semana seja antes de vocês recomeçarem as aulas, porque eu quero fazer uma viagem em família. Por isso, já reservei passagens e hotel para nós quatro. Será nossa primeira viagem juntos! E passaremos uma semana na Itália! – ele falou com empolgação.

Elas olharam para Agnelo sem conseguir dizer nada. Valentina havia ficado aliviada, porque a conversa do pai não era sobre o beijo que ela tinha dado em Amanda. Já a apatia de Amanda era porque, com aquela inesperada viagem, teria que passar uma semana com Valentina.

– Nossa! Vocês não gostaram da minha surpresa? – Agnelo falou um pouco frustrado, porque não esperava a reação apática das duas garotas.

E Amanda foi a primeira a falar:

– Gostamos sim, Dr. Agnelo. Quer dizer, pelo menos eu gostei muito! Obrigada! – sorriu sem jeito.

– Aconteceu alguma coisa, minha filha? Você tão estranha! – Júlia questionou a filha.

– Não aconteceu nada não, mãe! – Amanda respondeu e sorriu tentando disfarçar sua angústia a todo custo.

Agnelo então olhou para Valentina, que se mantinha calada observando a conversa de Júlia e Amanda, e perguntou:

– E você, minha filha, não gostou da surpresa?! Uma semana na Itália! Você ama a Itália!

E, realmente, Valentina amava a Itália. Além de já ter viajado para lá muita vezes, era a terra dos seus antepassados tanto por parte de mãe quanto de pai. Todavia, aquela viagem não seria nada fácil.

– Gostei, pai. Claro que gostei. – Valentina tentou dar o sorriso mais natural do mundo.

Não conseguiu, porque, logo depois, Agnelo comentou:

– O que acontecendo com essas meninas hoje? Estão tão estranhas!

E, Valentina tentou desconversar, dizendo:

– Não foi nada, pai. Eu sou assim estranha. Não é o que todos dizem? – ela tentou até sorrir com a brincadeira. – Era só isso mesmo, pai?

– Era.

Valentina se levantou e quando estava saindo, Agnelo falou:

– Ah, mais uma coisa: viajamos na sexta pela manhã, ? Tente acordar cedo!

certo, pai! – ela revirou os olhos e voltou ao seu quarto.

Antes do meio dia, Valentina recebeu uma mensagem de Léo perguntando se ela gostaria de ir ao cinema com ele. Ela respondeu que estava sem vontade de ir ao cinema, mas perguntou ao amigo se ela poderia ir à casa dele à tarde. Ele prontamente disse que sim.

Apesar de Valentina ser muito discreta sobre as coisas da sua vida, naquele momento, devido ao ocorrido há dois dias, ela queria desabafar. Queria não, precisava! E a única pessoa para a qual teria coragem de contar sobre o beijo era Leonardo.

Assim, por volta das três horas da tarde, Valentina chegou à casa de Léo.

– O que aconteceu? com uma cara estranha! – Léo falou ao cumprimentar a amiga.

– Eu fiz uma merda muito grande, Léo! – Valentina falou pesarosa sentando na cama dele.

– O que foi, menina? Conta logo! Engravidou alguma garota? – ele riu.

Valentina riu e disse:

– Seu idiota! Graças a Deus isso não é possível! Ai, Léo! Só você pra me fazer rir numa hora dessas!

– Nossa! Conta logo! me deixando preocupado!

Valentina respirou fundo e, sem rodeios, ela disse:

– Eu beijei a Amanda!

Ao ouvir a frase da amiga, Leonardo se engasgou por causa da pipoca que estava comendo. Depois de parar de tossir, ele exclamou completamente embasbacado:

– O quê?! Espera! Eu ouvi direito? Você beijou a Amanda? Amanda, a filha da sua madrasta?

– Exatamente.

– Amanda, aquela que você tinha raiva, porque ia morar na sua casa?

– Isso!

– Amanda, a que você costumava chamar de santinha?

– É, Leo. Essa mesmo! Agora já chega, né?

– E como foi isso, garota? Me conta tudo! Meu Deus, tô passado! – incrédulo Léo falou pondo a mão na boca.

– Vou te contar se você prometer que nada que eu disser vai sair desse quarto. Promete?

– Claro que prometo!

E, assim, Valentina contou tudo: quando viu Amanda dançar, o sonho, a ajuda de Amanda no banheiro, o abraço no Natal, o presente de aniversário que ela ganhou. E finalizou dizendo:

, quando ela ia saindo do meu quarto, eu chamei ela e não me aguentei. Acho que a bebida me ajudou a criar coragem… Aí dei um beijo nela.

– A bebida ajudou a criar coragem pra você fazer uma coisa que já estava a fim de fazer há tempos, né? – Léo completou.

– É… – Valentina confirmou envergonhada.

– É, eu já desconfiava de uma paixonite sua por ela, mas pelo jeito que você fala dela, só tenho uma coisa pra te dizer: Você completamente apaixonada pela Amanda! Não tem como fugir.

Valentina já sabia disso, mas, ouvir a verdade em voz alta, a deixou bem exasperada.

– Mas eu não posso sentir isso, Léo! Não por ela! – Valentina esfregou as mãos no rosto.

– Por quê? Vocês não são nem irmãs?

– Eu sei… Mas, cara, é ela, sabe? É a garota que, meses atrás, eu odiava! É a filha da mulher do meu pai! Se eles souberem, me matam! Meu Deus, a Júlia me mata mesmo!

– Mas ninguém manda no coração, Valentina! As paixões acontecem…

Valentina respirou fundo e disse:

– Mas precisava ser por ela? Não poderia ter sido pela Bia, pela Nanda ou pela Dani? Por que ela? Argh! – ela grunhiu.

– As paixões acontecem por pessoas inesperadas, que nem sempre a gente quer. – ele silenciou por alguns segundos. – Vou te confessar uma coisa: eu já fui apaixonado pelo Edu no 1º ano. Daí você imagina meu sofrimento e minha raiva. Por que ele é um idiota. Hoje já passou, graças a Deus! Mas foi duro na época.

– Sério, Léo? Cara, você soube muito bem disfarçar, viu? Nunca imaginei! E que dureza, hein? Já é horrível quando ele gosta de você e você não corresponde, imagina gostar dele sem ser correspondido!

– Pois é! Muito ruim mesmo. Bom, mas esqueçamos disso, porque são águas passadas! A fila andou! – ele riu. – E nós estamos falando do seu caso! Da sua paixão pela santinha da Amanda.

– Não fala assim, Léo! – ela falou rindo.

– Cara, você apaixonada mesmo! Não quer que eu fale o que você vivia falando!

– Besta! – ela riu empurrando o braço dele, fazendo com que caíssem algumas pipocas na cama.

Então, rindo e brincando um com o outro, eles começaram a apanhar a pipoca da cama. Quando finalizaram, Valentina ficou séria e comentou:

– Léo, o pior é que eu senti… sei lá como, mas eu senti que ela gostou. Claro que ela saiu assustada sem dizer nada, mas na hora do beijo, eu lembro que ela retribuiu, mesmo que tenha sido por milésimos de segundos. E isso foi uma das coisas que mais me deixou inquieta! Porque se ela tivesse me empurrado, me dado um tapa na cara, eu estaria mais aliviada. Mas não sai da minha cabeça que ela só interrompeu o beijo, porque ficou com medo e não porque não queria, sabe? – ela pôs as mãos na cabeça. – Esses pensamentos estão me matando!

– Por que você não fala com ela, pra ter certeza?

– Acho que não tenho coragem…

– Arrume coragem de algum canto! Você só não pode ficar nessa angústia, nessa incerteza… Isso acaba com a gente!

– É, eu sei!

Depois da longa conversa com Leonardo, Valentina saiu disposta e encorajada pelo amigo a falar com Amanda. Esperaria um momento propício para isso, de preferência quando o pai e a madrasta não estivessem em casa.

E não foi naquele dia, porque, quando ela chegou, viu Amanda na sala conversando com Isabela e Maria Clara e, relanceando o olhar para as três garotas, disse um discreto:

– Boa noite.

– Boa noite. – as amigas de Amanda responderam e ela apenas mexeu os lábios, sem pronunciar som algum.

Amanda havia pensado muito sobre ir falar com Valentina sobre o beijo. Mas não criou coragem. Mas aquela incerteza a estava deixando atormentada. Queria saber de uma vez por todas se ela estava sendo motivo de chacota de Valentina e os amigos.

No dia seguinte de manhã, quando Valentina saía do seu quarto em direção à academia, deparou-se com Amanda saindo do quarto dela. Elas se olharam rapidamente, mas permaneceram silentes. Valentina havia desistido de conversar com Amanda sobre o beijo. Então, ela passou por Amanda de cabeça baixa e quando ia descer a escada, ouviu:

– Valentina, espera!

De repente, Amanda falou por impulso, mas não sabia o que dizer. Valentina respirou fundo antes de se virar e disse tentando aparentar tranquilidade:

– Oi…

– Eu preciso te perguntar uma coisa.

O coração de Valentina martelou dentro do peito e ela falou:

– Pode falar.

– Eu preciso saber por que você fez aquilo. Por que você me beijou? Foi algum tipo de jogo entre você e seus amigos?

Totalmente surpresa com aquela pergunta, Valentina aproveitou e mentiu:

– É… O Caio me desafiou beijar você. Foi isso! Desculpa, foi uma brincadeira… – Valentina, apesar de tremer de nervosismo, tentou falar com indiferença.

Ao ouvir aquilo, Amanda ficou devastada! Cogitava aquela possibilidade, mas, no fundo, não acreditava que pudesse ser verdade.

– Por que, Valentina? Eu pensava que você tinha mudado! Mas você continua sendo uma garota mimada, idiota e sem um mínimo de escrúpulos! Por favor, não me dirija mais a palavra! – Amanda, com os olhos marejados, falou encolerizada e saiu deixando Valentina completamente arrasada!

A filha de Agnelo havia resolvido pegar o gancho da pergunta de Amanda e encobrir a verdade, porque percebeu, em seus infindáveis pensamentos, que não poderia ter nada entre ela e a filha da madrasta. E, naqueles segundos, pensou que deixar Amanda com raiva dela seria a melhor opção para tentar esquecê-la de vez!

Amanda foi encontrar os amigos da igreja em um asilo, que eles costumavam visitar. Apesar de estar totalmente sem clima para socializar, não deixou de ir ao compromisso. Todos contavam com a presença dela.

Já Valentina foi caminhar na esteira. Querendo expurgar aquela angústia de dentro de si, ela começou a correr e, ao poucos, aumentou a velocidade da corrida. De repente, sentiu uma intensa dor nas costas, no local da lesão, e parou a esteira. A corrida e a dor a deixaram com falta de ar. Tentou se acalmar e respirar fundo. Depois bebeu água e voltou para o quarto, para descansar a coluna.

Não viu mais Amanda naquele dia. E se viram pouquíssimas vezes nos outros dias até a sexta-feira de manhã cedo, dia da viagem à Itália.

Valentina desceu até a sala de óculos escuros, porque estava com os olhos inchados de sono, carregando sua mala e encontrou todos esperando Valdir preparar o carro.

Ela se jogou no sofá, colocou os pés na mesa de centro e escorou a cabeça.

– Bom dia, né, minha filha! – Agnelo falou com ela.

– Bom dia. – ela falou com mau-humor.

Se alegre! Estamos indo para a Itália!

, pai. Mas são seis e meia da manhã. Ainda não acordei.

– Esse jovens… – Agnelo comentou.

Enquanto isso, Amanda mexia no celular, fingindo não escutar a conversa e Júlia lia uma revista de moda e estava alheia a tudo.

Minutos depois, Valdir veio avisar que as malas já estavam no carro. Então, os quatro caminharam até a garagem e entraram no carro. Agnelo no banco do motorista, Júlia entre Amanda e Valentina. Assim, dirigiram-se ao aeroporto.

Durante o trajeto, Amanda ia olhando a paisagem e pensando em tudo que acontecera nos últimos dias. A raiva havia diminuído e a decepção se intensificado. A alegria em voltar para a Itália não se sobrepôs à tristeza que estava sentindo.

Já Valentina colocou os fones de ouvido, deitou a cabeça no banco e fingiu dormir através dos óculos escuros. Mas seu pensamento também se fixou nos últimos acontecimentos. Pensou até na possibilidade de desmentir o que havia confirmado para Amanda. Mas logo achou que não era o melhor a fazer.

“Como vou passar uma semana inteira na presença dela?”

 

Como Valentina vai aguentar passar uma semana vendo Amanda toda hora?

Eita! Que essa viagem promete, hein?!

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