QUANDO MENOS SE ESPERA – Capítulo 28

QUANDO MENOS SE ESPERA – Capítulo 28

Ao ouvir o elogio de Valentina, Amanda enrubesceu de vergonha e, outra vez, seu coração martelou dentro do peito, mas continuou tentando convencê-la a ir para o quarto dormir.

– Vamos, Valentina! Você tem que levantar…

E ela falava frases entrecortadas com a voz alterada:

– Me deixa aqui… Você não pode… Não pode mais dançar… Sai, Amanda! Sai daqui… Não… sonhar não…

Para Amanda, Valentina falava frases desconexas e sem sentido.

– Tá certo, Valentina! Eu não vou dançar… Mas vamos pra o quarto, senão você pode ficar doente aqui nessa friagem.

E, finalmente, Amanda conseguiu fazer Valentina se levantar. Colocou o braço dela em volta do seu pescoço e enlaçou-lhe a cintura. Enquanto caminhavam até o quarto de Valentina, Amanda ouviu mais frases sem sentido:

– Eu não quero, Amanda… Não posso…

Olhou para Amanda com o dedo em riste e continuou:

– A culpa é sua…

– Tá certo. A culpa é minha! – Amanda confirmava tudo para não contrariá-la. Ela achou que o melhor a fazer era não discordar de uma pessoa embriagada.

Chegaram ao quarto e Amanda ajudou a embriagada garota a se deitar na cama. Valentina meteu-se na cama com os olhos fechados como se já estivesse dormindo. Então, Amanda pôs o lençol sobre o corpo dela e se virou para sair.

De repente, ela sentiu sua mão ser segurada. Olhou para trás e viu Valentina, com os olhos cerrados, segurando sua mão. Ela estremeceu e Valentina murmurou:

– Ano novo…

– Como é? – Amanda perguntou, pois não entendeu o que a garota havia falado por causa da sua voz embolada.

– Feliz… Ano… Novo… – Valentina tentou falar mais explicado e puxou a mão de Amanda com certa força, fazendo com que seu corpo pendesse para em sua direção e beijou-lhe o dorso dela demoradamente.

Em seguida, ela apagou, ainda com a mão de Amanda presa a sua. Amanda ficou totalmente atordoada com aquele gesto meigo e inesperado de Valentina.

Nervosa, Amanda se desvencilhou da mão de Valentina, acarinhou seus cabelos com a mão trêmula, sorriu meio sem jeito, e sussurrou:

– Feliz Ano Novo, Valentina.

E, finalmente, saiu do quarto, dirigindo-se ao seu. Chegando lá, ela se deitou e ficou pensando em tudo que havia acontecido nos últimos minutos.

E perguntas surgiram em sua mente: “Por que será que ela disse que eu não podia mais dança… Falou também ‘sonho não’. O que isso queria dizer? Ela também disse que ela não podia… Não podia o quê? Disse também que não queria! Mas não queria o quê? E ainda disse que a culpa era minha? Culpa de quê, meu Deus?! Eu não tô entendendo nada! Como eu vou ter as respostas destas perguntas? Nunca! Porque não tenho coragem de perguntar a ela amanhã. Se é que ela vai se lembrar de alguma coisa…”

Atônita com aqueles pensamentos, Amanda olhou para o dorso da mão, onde Valentina havia beijado, deslizou seus dedos nele e falou para si mesma:

– Meu Deus, ela ainda beijou minha mão e disse que eu era linda… O isso significa?  – ela mergulhou os dedos nos cabelos em sinal de agonia.

Amanda não teria ficado tão exasperada com aquele ato, se não soubesse a verdade sobre Valentina e se nunca tivesse tido aquele sonho.

Demorou um pouco a dormir, mas, mesmo assim, dormiu cedo para uma noite de ano novo.

No outro dia, Amanda foi despertada, no meio da manhã, com a ligação de Júlia avisando que eles voltariam no dia seguinte. Ela perguntou para a filha como tinha sido a passagem do ano. Nessa ocasião, Amanda disse que havia terminado o namoro e passou a noite em casa dormindo.

Depois de falar com a mãe, Amanda se virou de lado para tentar dormir mais um pouco, mas o acontecimento do dia anterior, de repente, invadiu seus pensamentos.

Para afugentá-lo, ela tentou pensar em várias outras coisas e pessoas. Mas foi em vão! Sua mente sempre retornava para Valentina!

Já era tarde quando Valentina acordou com uma intensa dor de cabeça.

– Ai! Nunca mais eu bebo na vida! – prometeu a si mesma com as mãos na cabeça.

De súbito, flashes da noite anterior apoderaram-se da sua mente. Ela balançou negativamente a cabeça e falou, exaltada, para si mesma:

– Eu não acredito que eu fiz isso! Não pode ser! Deve ter sido sonho! Só pode!

A cabeça de Valentina doeu ainda mais.

– Como vou olhar pra ela daqui em diante? Pra quê que eu fui beber? Fui tentar esquecer e piorei a situação.

Como sua dor de cabeça estava beirando o insuportável, Valentina precisou levantar e ir até a cozinha atrás de algum analgésico. Sua esperança é que não encontrasse Amanda pelo caminho.

Mas, assim que entrou na cozinha, Valentina deu de cara com Amanda. Elas quase se trombaram. Olharam-se sem jeito e sorriram uma para a outra. Valentina precisava fingir que nada havia acontecido. Então, resolveu perguntar:

– E aí? Como foi seu ano novo?

– Bom, depois que eu te ajudei, fui pro meu quarto dormir.

Valentina ficou sem jeito com o comentário e falou:

– Desculpa eu ter te dado trabalho, Amanda. Acho que a bebida me pegou de jeito. Inclusive, tô com uma ressaca pesada!

Amanda também fingiu que nada havia acontecido. E comentou:

– Tem remédio na gaveta do armário da cozinha. Vem, que eu pego pra você!

– Não precisa! – Valentina disse prontamente.

“Pelo amor de Deus, não seja mais tão gentil, carinhosa, linda, cheirosa…”. Valentina percebeu o que estava pensando e tentou afugentar os pensamentos atrevidos.

– Não custa nada. Senta aí na mesa que eu pego pra você.

Valentina aceitou a ajuda, porque sua dor de cabeça estava muito intensa. Então, ela se sentou à mesa, Amanda pegou o comprimido e um copo d’água e entregou a Valentina, que sorriu e agradeceu.

Em seguida, ambas voltaram aos seus quartos com a motivação de que iriam voltar a dormir. Valentina estava nervosamente envergonhada e Amanda envergonhadamente nervosa.

No outro dia, os pais voltaram de viagem e os empregados voltaram da folga. Tudo havia voltado ao normal. Ou melhor, quase tudo!

Valentina já não era mais a mesma há um tempo e Amanda também não estava mais a mesma. Algo havia mudado dentro dela. Ela mesma estava se sentindo diferente.

Um dia depois da volta da mãe e do padrasto, Amanda estava em seu quarto, antes de dormir, deitada com o notebook nas pernas, entrando e saindo de alguns sites, quando, de repente, viu-se acessando um site de filmes com temática lésbica. Agitada, ela ficou olhando a lista de filmes sem saber se clicava ou não.

Tomada por uma intensa ansiedade, ela escolheu pelo nome: Azul é a cor mais quente! O título do filme lhe pareceu interessante. Já iniciou o filme com uma agitação dentro de si, como se ela estivesse fazendo alguma coisa errada.

No momento em que começou a primeira cena de sexo entre as personagens, Amanda fechou rapidamente a tela no note. Entontecida, ela arfava com as mãos em cima no note. Seu corpo estava quente e pulsante, mas, no momento, ela não percebeu que aquilo que estava sentindo era tesão.

Depois de ficar por alguns minutos em conflito consigo mesma por não saber se continuava ou não a ver o filme, Amanda abriu a tela do computador lentamente. A cena estava estática ali na sua frente. Antes de clicar o play, ela se levantou e lentamente trancou a porta do seu quarto. Depois voltou para a cama, pôs o note em suas pernas e apertou o play. E, dessa vez, assistiu ao filme até o final.

Quando terminou, Amanda se sentiu apavorada, porque, enfim, percebeu que havia ficado excitada com o filme. Sua cabeça então entrou em parafuso. Naquele dia, sua noite foi longa.

Alguns dias se passaram e, depois de ‘Azul é a cor mais quente’, ela havia assistido a outros filmes com a mesma temática, sempre trancada no seu quarto. Inclusive, continuou a série que o ex-namorado tinha sugerido naquele fatídico dia. E toda vez que estava na presença de Valentina, ela ficava nervosamente sem jeito e com palpitações.

E o turbilhão de emoções que Valentina sentia por Amanda crescia cada vez mais, mesmo que ela tentasse refutá-lo de todas as formas.

 

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