QUANDO MENOS SE ESPERA – Capítulo 27

O alvorecer já despontava quando Amanda ainda se virava de um lado para o outro na cama com uma inquietude perturbadora. O sonho a havia deixado completamente atordoada. Mas, depois de muito pensar sobre ele, ela chegou à conclusão de que tinha sonhado daquele jeito com Valentina, porque havia visto no dia anterior a garota aos beijos com uma moça desconhecida. Por fim, ela internalizou esse motivo dentro dela e, assim, conseguiu se tranquilizar mais.

A primeira pessoa que seus olhos encontraram naquele dia, ao chegar à cozinha para tomar café da manhã, foi Valentina, que, inacreditavelmente, havia acordado antes dela.

Inevitavelmente, Amanda se lembrou do sonho e enrubesceu.

Então, acanhada e com uma voz baixinha, Amanda olhou rapidamente para Valentina e a cumprimentou:

– Bom dia…

E, esboçando um leve sorriso, Valentina respondeu:

– Bom dia…

Amanda retribuiu o sorriso e desviou o olhar. Não conseguiu olhar por muito tempo para Valentina.

E, assim, no mais completo e ensurdecedor silêncio, elas tomaram café da manhã durante alguns minutos que pareceram uma eternidade.

Valentina, que antes era indiferente à presença de Amanda, estava inquieta, agitada, com vontade de sair dali o mais rápido possível. Então, apressou-se em terminar o café para poder voltar ao seu quarto. Amanda estava constrangida com aquele silêncio. Mas não conseguia pensar em nada que pudesse conversar com Valentina.

Depois de engolir o último pedação do pão integral que estava comendo, Valentina se levantou vagarosamente e falou:

– Com licença…

De repente, Amanda falou:

– Dr. Agnelo ligou?

Valentina se virou e respondeu:

Pra mim não.

Amanda logo emendou outra frase:

– Nem minha mãe…

– Acho que eles se esqueceram da gente! – Valentina falou abrindo o sorriso.

Esse ato fez com que o coração de Amanda palpitasse rapidamente dentro do peito e isso a fez ficar sem compreender o motivo de tal agitação.

– Pois é! A viagem deve boa mesmo! Esqueceram as filhas! – Amanda sorriu e percebeu que Valentina desviou o olhar para sua boca. E aquilo a deixou ainda mais desconcertada.

– Isso é até bom. Vamos ter um pouco de paz! – Valentina completou.

Sorrindo, Amanda balançou a cabeça negativamente.

– Com licença, eu vou indo pro meu quarto. – Valentina falou se retirando.

À tarde, Agnelo e Júlia ligaram para falar com as respectivas filhas e avisaram que estavam cogitando a ideia de esticarem a viagem até depois do ano novo.

– Não acredito nisso, mãe! – Amanda não gostou muito da ideia.

– Oh, meu amor, você pode ficar com a família do seu namorado. Lá vai ser divertido também. Eles sempre fazem uma grande festa e você não vai nem se lembrar da sua mãe!

Não querendo deixar a mãe preocupada, Amanda não disse que havia terminado o namoro com João Pedro.

– Claro que vou, mãe! Que absurdo!

Já Valentina não ligou que o pai e a madrasta fossem demorar mais dias. Já sabia que seu ano novo seria em casa, devido à sua condição de saúde.

No outro dia, Amanda ligou para algumas amigas mais íntimas e todas já estavam viajando para as festas do fim do ano. Ficou um pouco frustrada, pois sempre curtiu o réveillon com muita gente e com animação. Depois ainda soube que até Rosa iria para a casa da irmã no dia trinta de dezembro.

Assim, no último dia do ano, Amanda acordou e se viu sozinha com Valentina naquela casa enorme. No meio da manhã, a filha do padrasto ainda dormia. Então, Amanda resolveu por a roupa do balé e ir dançar um pouco na academia.

Quando Valentina acordou e chegou à cozinha, ela se deu conta de que não havia ninguém em casa, além de Amanda. E se perguntou mentalmente onde a garota estava. “Deve no quarto dela. Numa hora dessas já deve ter tomado café, com certeza!”, Valentina pensou desanimada.

A filha de Agnelo tomou café rapidamente e andou um pouco pela casa, sem se dar conta que a caminhada tinha o objetivo de encontrar Amanda, apesar de ela não perceber ou não querer perceber esse fato.

Quando Valentina chegou próximo à piscina e ouviu a música vinda da academia, percebeu que Amanda não estava no quarto, mas sim dançando. “Não vou nem chegar perto!”, ela pensou.

Mas a vontade de vê-la dançando outra vez foi tão mais forte do que seu pensamento, que, quando Valentina se deu por si, estava parada na janela contemplando os movimentos suaves de Amanda, como se ela fosse um quadro de um pintor famoso exposto em um museu. Por alguns minutos, Valentina ficou completamente hipnotizada por Amanda, que, além da beleza, dançava com vivacidade e, ao mesmo tempo, com delicadeza, que chegava a ser até mesmo sensual.

Quando a música parou e Amanda finalizou a dança, Valentina saiu do transe em que se encontrava. E, antes que pudesse ser vista espiando pela janela, ela saiu em direção ao interior da casa.

Entrou em seu quarto, fechou a porta e ralhou para si mesma com a testa encostada na porta:

– Pra quê que eu fui ver ela dançando de novo?! Pra quê? Você é uma idiota, Valentina!

Depois de dançar, Amanda voltou para o seu quarto. Como não viu Valentina, pensou que ela ainda estivesse dormindo. Quando ia tomar banho, Amanda mudou de ideia e vestiu o biquíni. Pela primeira vez, desde que chegou àquela casa, ela resolveu dar um mergulho na piscina. Colocou uma toalha ao redor do corpo e desceu. Chegando lá, ela estendeu a toalha numa das cadeiras de tomar sol, ajeitou o biquíni delicadamente, depois foi até a beirada da piscina e mergulhou.

“Ai, meu Deus! Já não bastava eu ver ela dançando ainda tenho que ver ela de biquíni? Aí é sacanagem!”. Valentina havia acompanhado a cena de longe. E, de maneira irreprimível, seus olhos passearam pelo corpo de Amanda.

Valentina tinha ido até a varanda com um livro na mão para ler ao ar livre. Estava cansada demais daquele quarto. Com a visão que teve da garota, pensou em retornar ao quarto, mas desistiu. Sentou-se em um dos sofás, abriu o livro e começou a ler. Não conseguiu ler nem duas frases completas, visto que seus olhos eram capturados pelos mínimos movimentos de Amanda na piscina.

Depois de nadar um pouco, Amanda saiu e, enquanto espremia os cabelos molhados, viu Valentina na varanda. Por milésimos de segundos, seus olhos se encontraram, mas ambas os desviaram rapidamente e Valentina fixou o olhar no livro, apesar de não ler uma palavra sequer.

Depois, enrolada na toalha, Amanda caminhou até a varanda. Parou e perguntou:

– Você pode entrar na piscina?

– Boa pergunta. Eu não sei… Mas acho que posso.

– Você quer entrar um pouco? Se quiser, eu te ajudo. – Amanda sorriu.

– Não sei…

– Ah, desculpa! Você lendo, né?

– Não é isso! só criando coragem… Pode ser uma boa! Faz tempo que quero entrar nessa piscina. – Valentina sorriu.

– Então, vai. O dia tão bonito e quente!

Assim, Valentina entrou até seu quarto e pôs o biquíni. Amanda a esperou na varanda. Quando Valentina voltou, elas caminharam até a piscina em silêncio. Foram para a parte rasa, onde havia uns degraus. Seria mais fácil entrar por ali do que pela escada de alumínio do outro lado.

Então, Amanda deu a mão para Valentina, que a segurou com firmeza. Tanto Amanda quanto Valentina perceberam que a mão uma da outra estava fria.

– Cuidado! Devagar! – Amanda falou e Valentina sorriu do cuidado da garota.

Quando ela atingiu o piso da piscina, elas lentamente afastaram as mãos.

Valentina mergulhou devagar molhando a cabeça. Depois que emergiu, passou as mãos no rosto e perguntou gracejando:

– E aí, Amanda? Como vai ser seu Ano Novo? Animado?

– Ah, vai sim! Não sei para qual festa eu vá! São tantos convites! – Amanda entrou na brincadeira.

E elas riram juntas. Amanda sempre ficava surpresa de como Valentina, quando queria, era legal e simpática. Nem parecia aquela rebelde sem causa de meses atrás. Talvez o acidente a tivesse mudado um pouco.

Elas ficaram mais um pouco dentro da piscina e depois cada uma foi para o seu quarto. A cozinheira havia deixado vários depósitos de comida congelada na geladeira. Porém, elas não comeram juntas. Quando Amanda desceu para almoçar, não viu Valentina, que tinha ficado em seu quarto pintando.

Desde o acidente, Valentina não teve vontade de pintar. Mas naquele dia se sentiu incrivelmente inspirada. E, assim, começou a esboçar a tela e, de repente, surgiu a silhueta de uma bailarina. “Caramba! Isso não vai sair nunca da minha cabeça?”. Então, ela continuou fazendo o desenho para tentar passar aquele pensamento para a tela. “Pode ser que saia da minha cabeça!”

Nunca havia pintando um quadro tão rápido! Terminou a pintura da bailarina naquela mesma tarde e a nomeou de “La ballerine”. “A bailarina” em francês. Depois que finalizou o quadro, Valentina o observou e falou para si mesma:

– Preciso esconder essa tela! Quem vê vai saber que é ela…

E, assim, pegou um lençol e o enrolou. Precisava levar até seu quarto no andar de cima. Então, sorrateiramente saiu do quarto e observou o ambiente para saber se Amanda estava lá embaixo. Encontrou apenas o vazio.

Então, Valentina pegou a tela e bem devagar subiu as escadas em direção ao seu verdadeiro quarto. Ao entrar, deixou o quadro em um canto do quarto.

Quando desceu, já era noite. Ao invés de entrar no quarto, Valentina foi ao bar do pai. Como fazia tempo que não bebia e era ano novo, resolveu beber alguma coisa. Então, pegou uma garrafa de vodca e foi para a varanda. Colocou uma música no celular e ficou bebendo.

Depois do almoço, Amanda foi para o quarto e acabou adormecendo e ccordou apenas no final da tarde.

Por volta das oito horas da noite, Amanda resolveu descer um pouco e ficar na varanda. Estava cansada de ficar no quarto.

Enquanto caminhava para lá, ouviu uma música. Ao chegar à varanda, viu Valentina deitada em um dos sofás, dormindo, e a garrafa de vodca quase na metade.

– Valentina! – Amanda falou se aproximando dela.

Tocou em seu braço e nada de a garota acordar.

– Valentina! Valentina! Acorda! – Amanda tentou mais uma vez despertar a garota embriagada tocando em seu braço com mais força.

Ela apenas soltou um grunhido.

– Vamos! Levanta!

Valentina então falou com a voz embolada:

– Eu não quero!

– Você não pode dormir aqui! Vamos! Eu te ajudo! – Amanda insistiu.

Valentina abriu os olhos e viu Amanda próxima a ela. Então, ela acariciou os cabelos de Amanda, meio sem jeito devido à embriaguez, e falou:

– Você é… tão… tão linda… Amanda…

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