O encontro das fugas

Depois de tudo, resolvi sair do país, sem nem pensar duas vezes, comprei a passagem pro primeiro vôo disponível, fiz as malas e parti.

No aeroporto, observei umas moças bem afeiçoadas que me chamaram atenção pelo desenho do corpo, mas logo passavam, como passavam também aquelas malas na esteira, e iam e vinham sem que ninguém as resgatasse.

Entrei na aeronave sem olhar pra traz, já procurando meu assento, estava afobada, ansiosa pra aterrissar em terras distantes, e ao mesmo tempo com certo receio de uma viagem tão longa.

Me acomodei, e mesmo antes da hora apertei os cintos, para poder dormir com tranqüilidade. Foi quando ela entrou pelo corredor estreito.

Cabelos no rosto visivelmente despenteados, na cintura um casaco amarrado de forma despojada, uma mochila que aparentava ser sua única bagagem, e um sorriso nos lábios e no olhar, tive a impressão de que toda face dela sorria. Caminhava com a leveza de quem sabe pra onde está indo, e como será o caminho, conferindo as letras e números dos assentos em voz alta, e se aproximando da minha fileira. Sem pudor, eu a observava.

Havia um assento entre nós, ela tinha a poltrona do corredor, mas queria a da janela, onde eu estava. Depois de ouvir algumas particularidades superficiais, cedi a minha janela com a condição de que pudéssemos visitar juntas algumas das obras de arte de interesse comum, eu vi pela tatuagem que era um interesse comum.

Quando aterrissamos, já havíamos planejado todo o roteiro de museus, igrejas e pontos que eram indispensáveis para ambas. Já não havia uma poltrona entre nós, e riamos, com o olhar de quem acaba de encontrar a solução de um problema complexo.

Hoje ela foi visitar uma tia na cidade vizinha, tirei o dia para descansar, e refletir, aqui no quarto do hotel, com vista pra cidade, observando nossas malas lado a lado e as maquiagens se misturando na pia do banheiro.

A cidade não tem graça sem ela, e não há outro lugar que pudesse querer estar. Amanhã está marcado o vôo de volta, mas parece que vamos adiar, quem sabe pra um outra hora, quem sabe pra um outra vida.

sig_natasha.png

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.