O Amor, Simplesmente – Cap 91

– Posso entrar? Vim em paz – Dani disse ainda parada na porta de Estella
– Eu estou meio mal, acho melhor você voltar depois – Estella tentou, com todas as forças, fazer a cara de doente mais convincente que podia.
– Minha mãe sempre me disse que quando estamos doente precisamos de carinho, colo e uma boa sopa – Dani levantou o saco indicando o que tinha dentro dele.

Estella sabia que Dani estava cheia de segundas intenções, mas não tinha como expulsar a menina dali. Prometeu que a visita seria rápida, deixou ela entrar e agradeceu pela sopa. Realmente, estava com um cheiro maravilhoso.

– Ficou doente esta noite? Ontem você estava tão bem
– Pois é. Deve ter sido o ar condicionado.

Dani sentou no sofá da professora e analisou o ambiente. Comida congelada em cima da pia, garrafa de vinho aberta, televisão ligada e nenhum sinal de cobertor, remédio ou pessoa doente pela casa. Ela sabia que aquilo era mentira e ficou ainda mais convencida de que a tal desculpa de Estella tinha a ver com o que tinha acontecido na aula delas duas, na noite anterior. Tinha certeza que tinha mexido demais com a professora e isso era muito bom.

Aceitou o copo de água que Estella ofereceu e puxou uma conversa qualquer contando sobre como tinha sido a aula dada pelo diretor da escola, que substituiu Estella. Dani aproveitou para perguntar como ela tinha decidido ser professora. Por mais que estivesse distante e cheia de barreiras, Estella gostou de ter alguém para conversar. Por um instante esqueceu até da mentira que precisava continuar representando.

– Se importa se eu tomar uma taça de vinho? – Estella perguntou a Dani no meio da história sobre sua paixão por livros e palavras
– Doente pode tomar vinho? – Dani respondeu com um sorriso de canto de boca como se tivesse pego a professora no flagra. Realmente, Estella ficou calada.
– Serve um pouco para mim também? – Dani continuou.
– Você é menor de idade ainda!
– Eu não conto para ninguém sobre sua escapada do trabalho hoje e você não conta para ninguém sobre o vinho. Segredos só nossos.

Estella empalideceu com a afirmação quase que presunçosa de Dani sobre a desculpa para não ir trabalhar, mas o sorriso, quase puro, da menina a convenceu. Ela tirou mais uma taça do armário, riu e serviu as duas. A dela um pouco mais cheia. Não queria ser a responsável por uma adolescente bêbada no meio da semana.

A conversa continuou sobre como Estella decidiu abraçar a profissão de professora e sobre as milhões de dúvidas que Dani tinha sobre o futuro, sobre quem ela queria ser, afinal. A professora ajudou a menina como podia: com palavras bonitas e citando pensadores famosos. Ela adorava ser a inteligente da conversa. Gostava de ser o centro das atenções.

Neste momento, Estella estava sentada no sofá ao lado de Dani, uma de frente para a outra, com uma boa distancia, segura, entre elas. Dani ria com as historias de professora de Estella e a professora ria com as aventuras de Dani. Pareciam ter um mesmo gosto por fazer a outra rir. Era uma disputa saudável de quem fazia a outra rir mais. No final das contas, a garrafa de vinho estava bem perto de acabar e o sol do lado de fora já tinha cedido os céus à lua.

– Estou com fome – Dani falou meio sem graça.
– Temos uma sopa. Quer dividir? – Estella ofereceu com uma sinceridade que deixou Dani emocionada. Mesmo passando o dia juntas, em um clima leve e agradável, era como se as segundas intenções estivessem descansando.

As duas levantaram, foram até a pequena cozinha. Dani ajudou Estella a servir a sopa nos dois pratos, colocaram no microondas e se encostaram nos armários opostos, um de frente para o outro, com suas respectivas taças nas mãos, esperando que o aparelho apitasse. Enquanto isso, a conversa fluía facilmente, as duas riam e já se preparavam para começar a próxima garrafa de vinho.

Um minuto e meio depois o apito indicava que as sopas estavam prontas. Estella, que estava ao lado do aparelho se virou para abrir a portinha e Dani, que estava apoiada de frente para ele, no armário paralelo se dirigiu ao mesmo pequeno aparelho. O encontro das duas foi inevitável no meio do caminho. As mãos se encostaram quando iam abrir a pequena porta para retirar a sopa.

Dani podia sentir o cheiro que vinha do pescoço de Estella. Era um aroma pós banho misturado com o vinho que tinham dividido o dia todo. Estella, podia sentir a respiração de Dani em seu ombro. Tinha cheiro de perfume forte, que ela tinha passado mais cedo junto com o hálito de vinho que embriagava ainda mais a duas.

Dani pegou na mão de Estella não deixando que ela abrisse o microondas. Lentamente, puxando pela mão, a colocou de frente. Estavam cara a cara. A professora com as costas no mesmo armário de poucos segundos antes e a menina, encaixada no corpo bem torneado da mais velha.

Dani apoiou as mãos no quadril de Estella, que estremeceu e por um momento deixou escapar pelos seus olhos o medo e a insegurança. Dani percebeu.

– Confia em mim – Dani sussurrou sem tirar os olhos de dentro dos olhos de Estella
– Eu não confio é em mim – Estella sussurrou ainda mais baixo.

Dani sorriu maliciosamente com a declaração da professora. Era só o que ela precisava ouvir.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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