O Amor, Simplesmente – Cap 86

Dani estava decidida. Não perguntou nada a ninguém, nem falou nada pra ninguém. Decidiu que iria tentar. Decidiu que iria correr atrás. Decidiu que a vida precisa de mais ações e menos sonhos. Teria Estella, custe o que custar.

Naquela segunda, depois de dar café e ajudar a professora, não se falaram mais. Dani passou os intervalos com Tati e Beta como sempre, combinando horários de estudos e o que fariam no fim de semana. A vida começava a ficar mais difícil, estava na hora de estudar e decidir um pouco mais sobre o futuro.

Elas ainda não sabiam muitas coisas. Beta queria ser alguma coisa, Tati, jornalista e Dani, desenhista, design, escritora e adorava história também. A única certeza é que iriam juntas para a cidade grande. Dividiriam um apartamento, trabalhariam se fosse necessário e seriam felizes morando juntas. O plano perfeito para um futuro incerto.

Estava na hora de voltar à realidade. Era hora de voltar para as aulas. Historia, geografia, literatura, redação, matemática e filosofia. Era muita coisa para uma cabeça tão ocupada por mulheres. Era exatamente assim que as três se sentiam as vezes. Beta não parava de pensar em Tati e quando seria o próximo encontro a sós das duas. Tati não parava de imaginar alguma surpresa para Beta e Dani, bom…Dani só pensava em Estella.

A segunda a tarde foi dedicada aos estudos. O trio se encontrou na casa de Beta, que tinha mais espaço e tranquilidade e colocou os livros todos no chão. Elas estavam realmente estudando e isso era muito estranho. Beta e Tati deitavam uma ao lado da outra e deixavam as mãos se tocar as vezes, só para ter a sensação boa da proximidade. Dani não ficava longe e era sempre ela que fazia alguma piada com a matéria e fazia as três rirem.

A noite já estava ali quando Dani recolheu seu caderno, livros, mochila e tudo mais e seguiu para casa. Deixou o casal a sós para curtirem a noite. Tati iria dormir ali, estavam com saudades, já. Em seu caminho para casa, Dani decidiu mudar a rota de sempre. Não pegou a rua principal de sempre. Foi pela rua interna. Um pouco menor, paralela ao caminho de sempre. As casas que beiravam a rua eram menores. Normalmente cabia uma pessoa ou um casal só. Mas eram tão bonitas e bem cuidadas quanto as maiores. Dani foi em um passo lento, olhando casa por casa como se estivesse pronta para encontrar algo que não sabia que procurava.

E como se fosse um capricho do destino, Dani avistou uma sombra parada em uma das pequenas varandas. O escuro não deixou que ela percebesse tão rápido, mas ao se aproximar viu que era Estella, do outro lado da rua, tomando uma taça de vinho, enrolada em um robe de seda vermelho. Dani parou, virou o corpo e durante alguns segundos fotografou aquela cena, para que nunca mais esquecesse. Era lindo aquele cabelo solto, desleixado, aqueles pés descalços e as mãos soltas, o corpo sem rigidez e os olhos quase fechados.

Dani atravessou a rua e viu que a professora estava com um fone de ouvido e de olhos fechados. Ficou pensando em como abordaria Estella. Não podia subir até ali e simplesmente tirá-la daquel transe que a deixava tão linda. Ficou apenas observando de longe.

A música deve ter acabado porque Estella abriu os olhos e se preparou para tomar um gole do vinho na taça. Quase caiu da cadeira com o susto que tomou ao ver Dani parada na calçada de sua casa a olhando.

– Desculpe, professora. Desculpe mesmo. Não quis assustar a senhora.
– O que você está fazendo aqui, Daniela?
– Eu estava passando, to indo pra casa e vi a senhora.

Os animos se acalmaram depois do susto. Estella se arrumou na cadeira, bebeu mais vinho e ficou olhando para Dani. Aquela menina mexia demais com seus instintos e emoções. Dani percebeu que Estella baixou a guarda e arriscou.

– Qual era a música?
– Michael Jackson, Human nature.
– Acho que não conheço.
– Conhece sim, só não sabe que o nome é esse.
– Pode ser. Um dia você me mostra?
– Acho que sim….

Estella não esperava o atrevimento de Dani, foi pega desprevenida e não sabia direito o que responder. Não queria convidar a menina para entrar e não sabia o que falar. Para a sorte dela, Dani tomou atitude:

– Vou deixar a senhora com o seu vinho, professora. Amanhã nos vemos.
– Até amanhã, Daniela.
– Sentirei saudades.

E sem esperar a resposta de Estella, Dani seguiu seu caminho. Em passos lentos, firmes mas com o coração acelerado quase sendo cuspido pela boca. A professora ficou em sua varanda vendo a menina se afastar até perder de vista no escuro. Como ela conseguiria lidar com aquilo? Sonhou a noite inteiro com o atrevimento de Dani em sua cama. No sonho pareceu dar tudo certo.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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