O Amor, Simplesmente – Cap 83

Entendendo Estella…

As notas, como sempre, eram impecáveis. Estella era sempre a primeira da turma, desde que se lembrava. Isso não era bom, ou melhor, era bom para sua mãe que ficava orgulhosa com a filha inteligente. Mas isso rendia à Estella um carma eterno de solidão e nenhum amigo.

Ser a “nerd” ou “cdf” ou qualquer outro apelido a afastava de todos seus possíveis amigos. Em um dado momento da vida, ela se acostumou. Deixou para lá e foi ser feliz sozinha, ou fingia ser feliz sozinha. Ninguém é feliz sozinho. E Estella sabia muito bem disso, mas sabia também que era esse seu caminho. Ser sozinha e ser muito boa.

Os anos passaram e ela resolveu ser professora. Queria espalhar seu conhecimento. Sabia que era inteligente e sabia que podia deixar o mundo um pouco melhor se ensinasse as crianças o poder dos livros. Era essa sua meta, os livros. Apaixonada pelas palavras, suas rimas e seus sonhos, Estella se formou em letras e foi dar aula em um colégio. Ela tinha mais ou menos uns 25 anos e nunca tinha beijado na boca. Isso sem contar seu primo que dava estalinhos nela enquanto brincavam de novela.

A primeira turma era de sétima série. Adolescentes encapetados prontos para acabar com sua carreira. Pelo menos era o que ela achava. Não foi assim. Os alunos se apaixonaram por ela. Ela era linda, de verdade. Gostava de andar arrumada, achava que passava austeridade e estava sempre maquiada. Era a contradição em pessoa. Estella conseguiu despertar naqueles jovens a paixão pelos livros e no ano seguinte conseguiu uma turma de oitava série. O sonho de todos os professores.

No primeiro dia de aula da nova turma, Estella chegou confiante ao colégio e depois de um ano maravilhoso esperava repetir a dose na oitava série. Veio com seu discurso ensaiado e estava disposta a mostrar para os alunos o poder das palavras e como eles poderiam ser mais felizes se se rendessem a elas. Fracasso total. Estella foi recebida por uma turma ignorante e cheia de adolescentes metidos. Por um momento se sentiu na própria oitava série, onde todos estavam planejando viagens de formatura, namoros, beijos, noitadas e ela não tinha nada. Ela era o peixe fora do aquário. O sentimento ruim a fez acabar a aula mais cedo e dispensar a turma para o recreio. Se escondeu no banheiro no final do corredor e chorou. Como chorava todos os dias há anos atrás.

Sufocada com as próprias lágrimas, Estella não ouviu quando Camila entrou no banheiro. A morena passava despercebida em sua turma. Ela era aluna da nova turma de Estella e viu quando a professora saiu chorando da sala em direção ao banheiro. Ela entendia o que Estella estava passando e por isso resolveu ir junto.

– Professora? Está tudo bem?

Estella dentro da cabine levou um susto tão grande que deixou seu celular cair. Ele saiu deslizando por debaixo da porta e foi parar nos pés de Camila. A professora, tentando disfarçar as lágrimas, abriu a porta e sorriu sem graça para Camila. Ela não pode deixar de reparar na beleza de sua aluna. Pegou o celular, agradeceu e começou a caminhar em direção a porta e foi quando a menina interrompeu o caminho da professora.

– Espera. Não fica triste. Essa turma é cheia de babacas e você é uma ótima professora.
– Obrigada….
– Camila. Meu nome é Camila.
– Obrigada, Camila. Você é muito gentil, mas não precisa chamar seus amigos de babacas.
– Eles não são meus amigos. Eu não tenho muitos amigos por aqui.

Estella entendia. Sabia com o que estava lidando e sabia da dor que isso causava. As cicatrizes do seu passado ainda ardiam a cada lembrança revivida na mente.

– Você quer ir lanchar comigo?

Estella falou sem pensar e mais do que rapidamente, Camila aceitou. O assunto eram os maravilhosos livros do mundo de Estella. Sentadas em uma das mesas do enorme pátio as duas repetiram o encontro durante muitos dias e semanas, cada vez mais próximas e amigas, elas, pela primeira vez, entenderam como todo o resto dos adolescentes se sentiam na hora do recreio.

Quando chegou a época de provas, Camila pediu que Estella a ajudasse com algumas outras matérias. Sempre a primeira em suas turmas, a atual professora não conseguiu negar a ajuda, mesmo sabendo que isso não era ideal. As duas eram próximas demais e ela tinha medo de que não fosse bem visto perante ao resto da escola. Pediu que tudo acontecesse em segredo e marcou as aulas para o fim da tarde, em seu pequeno apartamento.

Na hora marcada, Camila apareceu e tocou a campainha. Quando Estella abriu a porta quase caiu para trás. A menina, que agora estava sem o uniforme escolar, era ainda mais linda. Com os cabelos soltos, uma camiseta decotada, mas não muito e uma calça jeans surrada, Camila fez Estella perder o ar.

Estella nunca tinha tido ninguém, mas no fundo sempre soube que algo de diferente queimava dentro dela. Sentia atração por meninas e tinha desejo por elas. Mesmo que nunca tivesse tido uma namorada na vida. Camila a deixava nervosa demais e a fazia pensar e sonhar coisas indecentes.

Final da primeira aula. Estella corrige os exercícios de Camila, que estavam incrivelmente perfeitos, e avisa que não precisa de outra aula, a menina já sabia toda a matéria.

– Não, professora. Preciso de mais aulas sim.
– Mas você sabe tudo, Camila.
– Não sei não. Hoje dei sorte porque a sua aula é muito boa.

Estella ficou sem graça e deixou transparecer. Abaixou a cabeça, puxou o óculos que usava e ficou vermelha ao encarar o olhar sorridente de Camila. A aluna, pegou na mão da professora que repousava sobre a mesa e a olhou bem fundo nos olhos

– Eu preciso de você. Por favor.

O encontro estava marcada para o mesmo horário dali a dois dias. Toda terça e quinta, Camila tinha aula de reforço com Estella. Não demorou para o reforço mudar de área.

Na segunda semana, Camila chegou com uma cara de triste, quase que chorando. Estella logo percebeu e antes de começar as matérias escolares, sentou com a aluna em seu sofá para conversar. Acreditava que ser professora era mais do que preparar para provas, mas também, preparar para a vida.

– É besteira, professora.
– Camila, aqui você pode me chamar de Estella.
– Desculpe, Estella. Mas não se preocupe, é só besteira.
– Me conte. Gosto de besteiras.
– Eu ouvi algumas meninas combinando de ir ao cinema hoje a noite e fiquei pensando em como nunca tive isso. Nunca tive amigas que me convidassem para o cinema, nem para lugar nenhum.

Estella foi pega de surpresa, sabia muito bem como era aquele sentimento. Se aproximou de Camila e passou o braço pelo seu ombro para confortar a aluna. Era estranho demais ver a história se repetindo na sua frente.

– Não se preocupe com isso. Os anos passam e as coisas mudam. A vida segue em frente, sabe?

Camila olhou para a mulher que lhe ajudava. Elas estavam incrivelmente perto. Estella se arrependeu de ter abraçado Camila e quando foi se afastar, foi surpreendida por um beijo. A aluna em um movimento rápido se lançou em direção à professora que tomada pelo susto, não reagiu ao beijo, ou melhor, reagiu, deixando acontecer.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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