O Amor, Simplesmente – Cap 76

Era a lavagem da alma que elas precisavam para começar uma nova vida, ou ao menos, uma nova etapa da vida. Fizeram o que mais gostavam: assistir o pôr do sol de dentro da água. As três juntas, meio que abraçadas, meio que próximas, meio que boiando enquanto a natureza garantia o espetáculo que fazia todo o resto valer a pena.
Caminharam já com sono pela areia, se enxugaram pulando no sol, vestiram as roupas por cima do biquini ainda um pouco molhado e começaram a trilhar o caminho para o primeiro dia do resto do ano. Foram descalças até metade do caminho e só então colocaram os tênis sujos de areia.
Na porta da escola, pararam para comprar café, café com leite, pão e bolo. Estavam famintas depois de uma noite de vodka e maconha. Precisavam repor algumas energias antes de, finalmente, entrarem no pátio já lotado.
O trio tinha passado a maior parte das férias longe e depois do incidente do luau, ficaram completamente ausente dos assuntos e fofocas que rolaram entre o pessoal do colégio. Elas não ligavam muito para isso, mas de alguma forma, se sentiram deslocadas e um pouco mal até. Fizeram diferente então. Sentaram em uma mesa no meio do pátio, assim podiam ficar ouvindo tudo e todos.
Não demorou muito para duas meninas sentarem junto com elas e começarem a contar de tudo. Na verdade, elas não sabiam, mas tinham se tornado pequenas celebridades depois do ataque de sinceridade de Tati no luau. Todos olhavam para elas e as encaravam como modelos de atitude. Essas meninas foram as primeiras a se aproximarem e puxarem assunto. E, logicamente, não perderam tempo em perguntar o motivo do sumiço delas nas últimas semanas. Quando Beta respondeu que tinham viajado juntas para a cidade grande foi como mágica. Em alguns instantes a mesa estava cheia de gente perguntanto detalhes e novidades vindas do mundo do outro lado.
O trio virou a atração dos poucos minutos que antecediam o sinal de entrada. Contaram tudo da viagem. Da praia, das festas, das noites viradas bebendo cerveja e comendo pizza. Do sol, que por lá brilha diferente. Da comida, que por lá é mais gostosa. Tati era a que mais falava junto com Dani. Beta apenas dava pitacos na história. O show era das outras duas. E quem diria…estavam adorando a atenção e o estrelato.
O sinal finalmente tocou e aos poucos todos foram deixando a mesa para irem para a sala. A melhor parte dessa festa toda foi que o sono se afastou um pouco. Não por muito tempo, mas o suficiente para que elas conseguissem chegar na sala um pouco mais animadas.
A turma ainda era a mesma. Mesmos rostos conhecidos, mesmos lugares, mesmos olhares, mesmo cheiro, objetivos diferentes. Incrivelmente o ambiente era diferente. Todos muito atentos, todos muito responsáveis discutindo a matéria logo cedo. O trio se sentiu deslocado neste momento. A professora entrou na sala. Era nova, linda, loira. Estella seria responsável pelo português. Pior matéria de Dani. Ela entrou sem falar nada, escreveu o nome e a matéria no quadro e pediu para abrirem a página 17 do livro.
A turma parecia em choque. E onde estava aquela apresentação com piadinhas? A descontração que todo professor deveria fazer antes de atolar os alunos com matéria? Ninguém se moveu durante alguns minutos e então Estella se apoiou na mesa do professor e disse:
– Meu nome é Estella. Posso parecer nova demais para ser professora de vocês, e na verdade sou. Mas, se estou aqui é porque tenho capacidade. Meu objetivo é fazer vocês passarem nos vestibulares, seja o curso que for. Alguém tem alguma pergunta?
Nem que tivessem. A voz de Estella era dura e ao mesmo tempo melódica. Entrava como música nos ouvidos e acabou pegando Beta desprevenida. No meio do discurso os olhos dela fecharam e não abriram mais. Estella viu e foi o momento perfeito para demonstrar seu poder.
– Ei, você que está dormindo. Alguém a chama, por favor?
Tati fez um carinho no braço de Beta para que ela acordasse. Os olhos se abriram lentamente e quando ela se deu conta que todos da sala estavam olhando para ela, ela quase caiu da cadeira. Estella continuou.
– Qual seu nome?
– Beta.
– Estava dormindo?
– Não, professora. Apenas estou cansada, desculpe
A voz de Beta era trêmula e insegura.
– Cansada? Você trabalha?
– Não senhora.
– Tem filhos?
– Não senhora.
– Então cansaço não é desculpa.
Beta não tinha resposta e apenas se ajeitou na cadeira olhando de rabo de olho para a namorada e para Dani. Estella não parou por aí.
– Vocês vão ficar muito cansados este ano, mas isso vai ser recompensado por uma nota alta no vestibular e a garantia de ingressar na faculdade que vocês quiserem. Qualquer dúvida, vocês podem me procurar. Estou disponível para aulas particulares e exercícios extras com quem quiser. Alguém tem mais alguma dúvida?
A turma em silêncio concordou, sem palavras, que ninguém falaria nada.
– Então podem abrir na página 17 que vamos continuar a aula.
No primeiro momento que Estella virou de costas para escrever no quadro, Tati, Beta e Dani trocaram olhares assustados. O ano não seria fácil.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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