Fotógrafa conta como é a vida de lésbicas na Rússia

A fotógrafa Anastasia Ivanova pegou sua câmera e foi para a Rússia para conversar com casais gays que enfrentam um futuro incerto com a controvérsia política de Putin. Vamos conhecer um pouco dessas mulheres que sobrevivem ao caos na Rússia.

Olgerta, 54 e Lisa, 48

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Quando nos apaixonamos estávamos ambos em uma idade ‘respeitável’. Nós pensávamos que
uma bela história de romance não iria nunca acontecer com a gente. Depois de nos conhecermos na
Moscow’s Lesbian and Gay Archive em 2008 e trocarmos cartas todos os dias, logo percebemos que não poderíamos viver separadas.

Fomos militantes por quase 15 anos. Um monte de coisas que foram conquistadas na Rússia durante o século passado foram eliminadas nos últimos dois anos. Não está melhorando. Gays e lésbicas estão sendo demitidos de seus empregos. Eles são presos durante protestos, colocados na cadeia, espancados e assassinados. Muitos estão com medo de perder seus filhos por causa das afirmações que a convivência com gays irá prejudicar a saúde e desenvolvimento mental dessas crianças.

Às vezes, nossos amigos gays na Alemanha, Estados Unidos ou Inglaterra falam sobre sua
vidas, e nos sentimos como se estivéssemos em um outro mundo. Sem dúvida eles pensam o mesmo sobre nós, quando nós contamos da situação na Rússia. Nosso futuro é simples. Devemos sair.

Irina, 27 e Antonina, 31

Irina-Antonina

Temos as redes sociais, amigos em comum e um pouco de sorte para agradecer pelo nosso primeiro encontro. Depois disso, demorou apenas alguns dias de conversa pela internet e pelo telefone antes de decidirmos nos encontrar. Quatro anos depois, ainda estamos apaixonadas.

Sempre fomos muito discretas em público. Nós nunca nos beijamos apaixonadamente na frente das
pessoas como se fôssemos um casal heterossexual. Há algo muito pessoal sobre demonstrar afeto.

Os gays não têm quaisquer direitos legais na Rússia. Com a nova lei, nossas relações estão em algum lugar entre o legal e o ilegal. É tudo muito triste.

No futuro, tudo o que queremos é manter a nossa pequena família unida. Talvez, se tivermos sorte, um dia vamos ter um filho.

Victoria, 24 e Dasha, 27

Victoria-and-Dasha

Nós nascemos e fomos criadas na mesma cidade. Mas, foi só mais tarde que nos encontramos quando alguns amigos em comum nos apresentaram em São Petersburgo.

Na rua, sempre andamos de mãos dadas e beijamos na bochecha. Às vezes, você pega um olhar estranho e uma vez tivemos uma experiência ruim quando jogaram uma pedra enquanto andávamos de mãos dadas em um parque.

Victoria trabalha para uma organização LGBT, por isso ela está sempre bem informada sobre a situação dos direitos dos gays na Rússia. A sociedade aqui tem uma atitude bastante agressiva em relação à homossexualidade. Principalmente agora que o governo está incentivando a homofobia, a comunidade LGBT muito vulnerável. Sua lei absurda sobre propaganda gay e transexual tem essencialmente legalizado a discriminação.

As coisas poderiam ter sido muito diferentes entre nós. Apenas duas semanas antes de nos conhecermos, Dasha estava planejando uma mudança para a República Checa, mas o nosso encontro mudou isso.

Hoje, nós amamos viver em São Petersburgo, mas entendo que pessoas como nós não podem ter uma vida tranquila aqui. Esperamos um dia ter um Jack Russell terrier . Agora, nós só queremos a simples felicidade.

Olga, 32 e Ulia, 28

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Nós nos conhecemos através de amigos em comum , mas não como você pensa. Ulia costumava viajar de São Petersburgo para Moscou a negócios e em uma dessas visitas ela perdeu seu telefone. No hotel e sem seus contatos, ela pediu para um amigo achá-la uma companhia para a noite. A pessoa que chegou foi Olga.

No começo era estranho, porque nós não nos conhecíamos muito bem, mas assim que a noite continuava nossa conversa não parava mais. Ulia partiu para São Petersburgo pela manhã, mas mantivemos contato e depois passamos meses viajando entre as duas cidades. Recentemente, Ulia deixou seu emprego e se mudou para Moscou.

Apesar de nos sentirmos mais livres na cidade, só expressamos afeto quando estamos cercadas de pessoas que nos aceitam. Não há direitos para os homossexuais na Rússia. Lutando por esses direitos parece que estamos envolvidas em um show de criminosos no cabaré e nós não queremos fazer parte desse show.

Por enquanto, nós só queremos viver.

Kate, 29 e Nina, 32

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A tragédia nos uniu . Kate estava comemorando o aniversário de sua amiga em um barco quando ele colidiu com outro. Nove das 16 pessoas a bordo morreram, mas Kate sobreviveu, e Nina estava entre aqueles que chegaram ao local. Demorou cinco meses para percebemos que estávamos apaixonadas e queríamos ficar juntas. Antes de nos conhecermos, Nina era casada. Agora estamos juntas há um ano e meio.

Em público, tentamos não esconder nossos sentimentos, e estamos determinadas a dar as mãos e nos beijarmos livremente, mas a situação dos direitos gay na Rússia vai acabar mal. O modo como vivemos nos faz parecer bandidas. Neste momento, o nosso futuro é incerto. Embora nós não queremos guerra ou revolução, queremos viver abertamente. Na Rússia, parece que não é possível.

Tasha, 33 e Ksenia, 39

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Nós nos conhecemos através de amigos e estamos juntas há quase um ano e meio. Em público, nós pensamos e avaliamos sobre mostrar nosso afeto. Nós nunca tivemos quaisquer reações negativas, mas não há direitos para os homossexuais aqui na Rússia. Neste momento, estamos à procura de uma “rota de fuga”.

Katerina, 20 e Zhanna, 25

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Já se passaram dois anos desde que nos conhecemos. Nossos caminhos se cruzaram primeiro em um festival em São Petersburgo, onde Zhanna foi voluntária. Nós conversamos e trocamos telefone antes de ir para o nosso primeiro. Nele Zhanna disse que nunca me deixaria ir embora. Ela fez e somos felizes juntas até hoje.

As pessoas tendem a olhar para nós com uma mistura de surpresa e desaprovação quando expressamos afeto em público. Às vezes, ouvimos eles falarem sobre Zhanna : “É um menino?”

A situação dos direitos humanos na Rússia parece estar piorando com o tempo. Gostamos de acreditar que um dia o país vai ser livre e feliz, mas na realidade os políticos estão tentando implementar políticas que não nos permitem ver um belo futuro pela frente.

Em algum momento vamos deixar o país e ir para a Europa. Dessa forma, poderemos viver a nossa vida ao máximo e parar de se esconder.

Tradução de From Russia With Love

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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