A História de Rafaela – Capítulo 6

Rafa não reagiu. Não estava pronta para encontrar com Dominique assim, sem aviso prévio, sem preparação. A última conversa que tiveram ainda assombrava parte dos seus pesadelos. 

– Dominique, quanto tempo! – D. Cida falou chamando atenção da mulher que seguia parada ali

– Ô D. Cida, que saudade da senhora!

As duas se abraçaram e pareciam genuinamente felizes em se encontrar. Em meio a um término, o que acontece é que quem tá em volta do casal não sofre como as pessoas envolvidas, precisa “esquecer” todo o tempo que compartilharam e, muitas vezes, não tem motivo pra isso. D. Cida tinha um carinho enorme por Dom. Viu a menina virar mulher e se tornar quem ela era agora. Era impossível não ser sincera naquele abraço.

– Você anda sumida daqui… sua mão falou que não a via há tanto tempo – D. Cida continuou a conversa percebendo que Rafa não ia conseguir emitir uma palavra que fosse

– Realmente, D. Cida, eu estava muito tempo sem aparecer e aí, quando chego, ela já me coloca na cozinha! É ou não é um absurdo?

As duas sorriram e Dom, percebendo que não teria nenhuma interação com Rafa, apenas se despediu das duas e disse que voltaria para ajudar na cozinha. Aparentemente um dos funcionários haviam faltado e ela estava cobrindo ele.

Rafa não falou com Dominique. Apenas sorriu sem mostrar os dentes quando a outra se despediu. A respiração, que parecia ter ficado em suspensão desde o momento que ouviu aquela voz, retornou como um soco no estômago.

– Tá tudo bem, filha?

– Não, mãe… mas me dá 5 minutos que vai ficar

Rafa levantou, pegou seu chopp e foi em direção à porta. Ela estava sufocando. Buscou o ar que lhe faltava, andou com passos rápidos e curtos, bebeu o resto do chopp que ainda restava em suas mãos e precisou lembrar de toda as técnicas de meditação que conhecia para conseguir voltar ao prumo. Dar de cara com Dominique acabava com seus planos de esquecer essa mulher de vez. Mas, na verdade, ter voltado para o bairro também acabava.

Quando não tinha mais uma gota de chopp no copo, quando a respiração já havia voltado ao normal, Rafa entrou no restaurante e seguiu para a mesa com sua mãe. Nina estava sentada lá e, provavelmente, as duas estavam conversando sobre o temido encontro que tinha acabado de acontecer.

– Rafa, minha filha, você tá bem? – foi Nina quem perguntou

– Tá tudo bem, Nina, não se preocupe

Ninguém tocou no assunto. Nina falou que ia até a cozinha ver se os pedidos já estavam prontos. Rafa e D. Cida começaram a conversar sobre qualquer outra coisa. Falaram da Roberta, da quitinete e de quando a professora poderia se mudar. Pelo menos, Rafa achou que poderia simplesmente desligar a chave e fingir que tudo aquilo não tinha acabado de acontecer.

As duas almoçaram e Rafa teve certeza que aquele prato havia sido feito pelas mãos de Dominique. Ela conhecia aquele tempero, aquele ponto do frango empanado, aquele molho de tomate caseiro. Era o mesmo que ela comia em casa. Cada pedaço foi um flash de memória retornando. Mas ela não deixou transparecer e manteve toda a conversa com sua mãe.

Assim que as duas encerraram e, mais uma vez, Nina não deixou que pagassem, saíram do restaurante para voltarem para casa. E quando estavam prestes a atravessar a rua, uma voz as impediu.

– Rafa! Espera!

D. Cida olhou para a filha, que acenou com a cabeça dando a entender que estava tudo bem. Ela esperava que estivesse.

– Você… voltou mesmo, né?

– Sim, Dominique. Eu falei que ia voltar…

– E você tá bem?

– O que você quer comigo?

– Saber como você esta… 

– Você perdeu esse direito quando decidiu que meus sonhos não valiam o suficiente para nós duas

– Rafa, eu sei que errei, sei de tudo que fiz com você e me arrependo de cada vírgula que eu falei, vamos conversar… por favor

– Você também perdeu esse direito indo embora daquele jeito, Dominique. Eu preciso ir, minha mãe esta me esperando

E sem dar espaço para responder, Rafa simplesmente deu as costas para Dominique e foi em direção a sua mãe. Cada célula do seu corpo se agitou. Sua respiração se descontrolou e ela levou o perfume de Dominique junto. Sem dúvidas, aquela mulher ainda mexia com cada poro do seu corpo. Ela só não sabia se era raiva ou… qualquer outra coisa.

Depois do encontro com Dominique, Rafa voltou para junto de sua mãe e precisou respirar fundo algumas vezes para não surtar. Ela queria esquecer aquela conversa com a Dom, mas era impossível. Ela ainda tinha um longo caminho de superação pela frente.

– Você tá bem?

– Não sei, mãe, mas vou ficar em algum momento… 

D. Cida respeitou o momento da filha e deixou para fazer mais perguntas depois. A verdade é que ela nunca soube detalhes do término das duas. Tinha vontade de perguntar e investigar mais, mas sabia que sua filha ainda não estava pronta.

– 

Depois do encontro com Dominique, Rafa precisou assistir o resto do fim de semana passar enquanto se escondia dentro de si. As poucas palavras que trocava com sua mãe eram aquelas necessárias: “tudo bem, mãe”, “preciso dormir, mãe”, “vou começar a arrumar as malas, mãe”.

Por mais que amasse demais curtir esses dias ao lado da mãe, Rafa precisava de espaço. Talvez ela só precisasse gritar no travesseiro e beber uma garrafa de vinho direto do gargalo sem lidar com os olhares inquisidores da sua mãe. 

O Fantástico já estava passando na única televisão da casa, mas a cabeça de Rafa ainda estava no que tinha acontecido no sábado de manhã. Ela não conseguia esquecer o olhar de Dom, os gestos comedidos, que não eram característicos dela, e aquele cheiro insuportável que a deixava tonta desde sempre. 

Ao mesmo tempo, ela balançava a cabeça expulsando todas as memórias tão frescas de sua mente. Levantava, rearrumava sua mochila para o dia seguinte, revia o planejamento das aulas, pegava o celular mais uma vez, bebia um gole de água, suco ou café, caminhava até seu quarto, olhava pela janela. A ansiedade estava a mil.

Não demorou para o Fantástico ser substituído pelo reality show que vinha logo depois. Naquela hora, Rafa já estaria se encaminhando para a cama, afinal de contas, precisava estar em sua melhor forma para aguentar seus alunos logo cedo. Mas não naquele dia. O excesso de café que havia tomado para controlar a ansiedade tirou completamente seu sono. Muito esperta, Rafa! Agora você vai estar ansiosa e parecendo um zumbi amanhã de manhã. 

Não deu outra. Rafa tinha conseguido pegar no sono apenas uma hora antes do despertador tocar. Se arrastou até o banheiro, tomou um banho mais gelado do que quente e esperou que a água fria fizesse o efeito de acordá-la. Não funcionou muito, mas era o que tinha para o momento. Recolheu suas coisas, deu bom dia à mãe, encheu sua garrafa de café, mas apenas para beber nas salas. Pegou o material e foi andando. 

Enquanto cruzava o pequeno caminho que dividia a casa de sua mãe da escola, Rafa só rezava internamente para não cruzar com Dominique. Ela não sabia se sua ex ainda estava pelo bairro, mas quanto mais a esquina do restaurante de Nina se aproximava, mais o coração balançava. Ela realmente não precisava desse tipo de encontro antes de começar mais um dia de aula. 

– Rafa! Rafa! – uma voz tirou a atenção da professora e vinha justamente da direção do restaurante

Por mais que ela soubesse que não era a voz de Dom, ela não confiava em sua própria percepção para ter certeza que não era ela. 

– Rafa! Me espera! 

Pedindo a todas as deusas que não fosse Dom, Rafa virou em direção ao chamado e deu de cara com Cami. Ela segurava um copo de café enquanto saia do restaurante de Nina. O sorriso que ostentava fez Rafa desarmar e relaxar o corpo. Ela nunca tinha ficado tão feliz de encontrar sua mais nova amiga.

– Ué, porque está comprando café aqui?

– A cafeteira lá de casa quebrou e não queria depender apenas do café da escola… a gente sabe que o orçamento é meio apertado e tudo mais

– Eu trouxe minha garrafa cheia hoje, mas vou deixar guardadinha para pegar apenas nas salas… não quero irritar ninguém por lá

– Muito bem! Nada de fazer inimizades logo no início… elas vão vir naturalmente com o tempo

As duas riram da piadinha e começaram a andar em direção à escola. Rafa tinha ficado uns 10kg mais leve ao encontrar Cami. Não pela menina em si, mas principalmente pelo fato de ter conseguido esquecer Dom, mesmo que seja por alguns minutos.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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