A História de Rafaela – Capítulo 4

A primeira semana de Rafaela na escola estava chegando ao fim. Na sexta-feira, ela saiu de casa junto com os primeiros raios de sol. Queria chegar cedo na escola, sentar sozinha na sala dos professores, apreciar o momento e preparar suas aulas calmamente. Era essa a intenção, pelo menos.

Assim que avistou o portão percebeu o grupinho de alunos na porta. Sorriu porque lembrou da sua época de aluna, quando ficava ali, conversando com suas amigas e… com Dominique. Ok, Rafa, esquece isso. Bola pra frente.

Assim que se aproximou do portão, Rafa foi vista pelos alunos e todos eles correram em sua direção. Ela ainda era a novidade por ali e todos queriam saber mais sobre a nova professora que já havia estado no lugar que eles ocupavam naquele momento. Nos outros dias de aula, ela já havia passado por alguns interrogatórios e, inclusive, foi questionada se o Jojozim tinha sido seu professor.

– Bom dia, Rafa! Chegou cedo… – uma de suas alunas do segundo ano falou, chamando a atenção dos outros para ela

– Bom dia, pessoal! Eu moro umas duas ruas pra cima, ia ficar meio feio se eu chegasse atrasada… – Rafa brincou

– Iiii, professora, então a senhora mora na minha rua! – um outro menino, também do segundo ano, comentou

– Ahh é, Douglas? Qual o número da sua casa? – Rafa sempre ouviu que não podia se aproximar tanto assim dos alunos, mas era mais forte que ela

– É a casinha lá no fim da rua, prof! Aquela depois do matagal… – o menino respondeu e, na hora, a professora se deu conta que era uma casa antiga, extremamente humilde. Era a casa de um dos meninos da sua época…

– Eu conhecia um menino que morou lá também, mas faz um tempo – Rafa comentou imaginando que a casa já tinha mudado de dono

– Você estudava com o Carlinhos, não é? – o menino complementou

– Você conhece ele, Douglas?

– Ele é meu irmão, quer dizer, meio irmão. Minha mãe casou com meu pai quando o Carlinhos já era o Carlo do Morro. 

Rafa sabia que um de seus colegas de escola tinha ido para o caminho errado. Apesar de muitos acharem que a maioria não dava em nada, na verdade, é a minoria que recorre ao crime para conseguir sobreviver no mundo. Nada é muito simples quando você cresce sendo visto como um zé ninguém pelo mundo. Quando o tempo todo é preciso provar a todos que você é alguém, as opções ficam mais trabalhosas.

– Carlinhos era muito bom em História, Douglas! Será que tá no sangue isso aí?

Rafa sabia que todo mundo ali entendia quem era o Carlo do Morro. Ela não ia dar nenhum sermão ou lição de moral para os alunos. Eles viam, todos os dias, em suas esquinas, o que essas escolhas faziam com as pessoas. E ela sabia, no fundo, que nem sempre era uma escolha simples. As nuances eram muito mais profundas.

Douglas não respondeu a provocação da professora, mas os amigos começaram a rir e implicar com a suposta cobrança. Essa foi a deixa para a mulher seguir seu caminho para a escola. Já não estava mais tão adiantada como esperava, mas ainda teria um tempinho para passar na sala dos professores e se preparar pra primeira aula.

Subiu as escadas e ouviu algumas vozes vindo da única sala ocupada naquela escola. Ainda faltam uns 40 minutos para o sinal tocar, então apenas os professores eram permitidos nos corredores. Os alunos podiam entrar quando faltasse 20 minutos pra aula, mas na prática, eles só subiam quando não tinham mais opção. 

Já na porta da sala, Rafa viu que Jojozim, ou melhor, Seu Joaquim e a diretora Carmelita já estavam por lá. A secretária Dani também estava em sua mesa fazendo algumas ligações. Como Carmelita também atuava como professora de química na escola, Dani ajudava a tomar conta das burocracias.

– Bom dia a todos! Como estão? – Rafa sorriu abertamente direcionando o cumprimento a todos na sala

– Olha quem está animada nessa manhã de sexta feira… – Carmelita comentou com um sorriso tão discreto que era quase imperceptível

– É só a primeira semana dela, Carmelita. Daqui a pouco os alunos tiram esse bom humor todo dela – Joaquim complementou 

Ninguém desejou bom dia de volta. Ok. Ela poderia sobreviver à essa manhã de sexta feira, mesmo com aquele baixo astral dos dois. 

Rafa foi até a prateleira que tinha seu nome, pegou alguns papéis que tinha deixado ali ao longo da semana e sentou na ponta vazia da mesa. Carmelita bebericava uma xícara de porcelana e pela cor do líquido, parecia um chá. Joaquim tomava café e uma grande xícara que pelo desenho falhado devia ser tão velha quanto ele. 

A professora de História tirou de sua bolsa uma garrafa térmica que estava cheia de café, pegou um de seus copos ecológicos e se serviu. Obviamente atraiu os olhares dos outros dois.

– Se quiser, pode pegar o café que fazemos aqui, Rafaela – Carmelita que comentou com um tom de voz quase de deboche.

– Eu sei, Carmelita! É que quando acordei, minha mãe já tinha preparado essa garrafa… coisa de mãe, sabe como é… 

Rafa ficou sem graça. Ela tinha preparado a própria garrafa, mas é porque ela gostava de levar para as salas e daquela forma, não esfriava. Além disso, sabia que bebia muito café e, bom… se ela lembrava bem, a escola precisava reunir dinheiro dos professores para comprar essas coisas. Ela não sabia como funcionava ainda, mas, naquele momento, nem tinha coragem de perguntar também.

– Bom dia, colegas! – a animação vinha de Camila. Aparentemente Rafa não era a única que chegava animada na escola

– Mais uma que ainda está feliz… – Carmelita comentou, mas nem se deu ao trabalho de olhar pra cima

A professora de Biologia estava com um sorriso aberto, assim como o de Rafa quando chegou. Assim que se viram, esticaram o sorriso ainda mais. Camila foi até sua prateleira, pegou uma pasta que tinha deixado ali e sentou ao lado de Rafa na mesa, mas não sem passar na máquina de café e encher um copo ecológico com o líquido quente.

– Mais uma pessoa de bom humor logo cedo. Que absurdo! – Camila quase sussurrou no ouvido de Rafa, se referindo aos outros dois que se mantinham de cara fechada.

– Aparentemente estamos ofendendo eles com nosso bom dia animado!

– É sempre assim… eu dou bom dia, ninguém me responde e no máximo me olham com cara de deboche… enfim, nunca desisti!

– Bom, pelo menos agora você não é a única que irrita eles…

As duas seguiam conversando bem baixinho para que as outras pessoas não ouvissem o papo. Rafa voltou a fazer algumas anotações no papel e Cami fez o mesmo. Elas ainda tinham uns 15 minutos antes da aula começar e já ouviam alguns poucos alunos subindo. Aqueles que preferiam sentar com calma e se preparar.

– Posso te perguntar uma coisa? – foi Rafa que interrompeu o silêncio

– Claro. Diga! – Camila respondeu e Rafa olhou para Carmelita e Joaquim antes de falar

– Como é o café aqui? Vocês dividem o valor… quanto fica pra cada um?

– Não… já conseguimos incluir algumas coisas na verba que recebemos… inclusive o café! Carmelita não gostou de ver sua garrafinha?

– Você também caiu nessa no início?

– De certa forma… um dia fiquei batendo papo com a Juca lá fora e acabamos comprando um café na rua e cheguei aqui bebendo… nossa… 

– Pois é… minha garrafinha despertou a ira dela agora pouco

– Depois eu entendi… a Dani me contou que ela tem medo da gente perder essa verba, então quer aproveitar tudo que a gente tem todos os dias. Achei até fofo e super faz sentido.

– Poxa, me senti até mal agora… pior que eu trouxe café porque tenho um vício, então não queria usar o café todo só pra mim

As duas riram e trocaram alguns olhares cúmplices. Por serem mais novas e verem a educação de uma forma diferente, com mais esperança, se entendiam. Talvez Carmelita e Joaquim tivessem passado por muitas dificuldades e o caminho os tenha deixado um pouco mais rabugentos e duros.

– Quer uma sugestão? Traz sua garrafinha para não ficar sem a sua droga, mas deixa pra beber dela na sala. Aqui, usa o da cafeteira.. – Camila comentou para Rafa e a professora de História achou uma ótima ideia.

Logo em seguida o sinal tocou e os professores começaram a se movimentar. Cada um recolheu suas coisas e se preparou para começar o dia. 

– Boa aula e boa sexta a todos! – Camila comentou para que todos ouvissem

Rafa sorriu e Carmelita e Joaquim apenas acenaram enquanto caminhavam para fora da sala dos professores. As duas mais novas riram uma pra outra e aos poucos seguiram para o corredor também. Se misturaram aos alunos que ainda ocupavam os corredores. Camila, que já conhecia mais gente, foi chamando alguns dos alunos que deviam estar na sala e Rafa fez o mesmo com os poucos que conhecia.

Assim que fecharam as portas, cada uma seguiu seu ritmo. Rafa colocou suas coisas na mesa, encheu seu copo de café novamente e esperou que todos se calassem. Ela vinha percebendo que cada vez demorava menos para que eles se aquietassem. Dar aula para aquelas turmas estava sendo apaixonante.

Toda a experiência estava sendo apaixonante.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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