Gostava tanto de você – Cap 2

O Maneco e a Cíntia insistiram tanto que não teve jeito: acabei indo para a noitada ontem. Se bem que passar a noite bebendo em um boteco no centro da cidade não é bem uma noitaaada. Mas, quer saber? Valeu à pena, até que deu para me divertir. Tinha um carinha lá, bonitinho o danado, barba feita, meio coroão com ar de novinho safado. Depois do terceiro drink, dei umas olhadinhas para ele, que me retribuiu com um piscar de olhos picante.

Como a Cíntia já tinha se arranjado e o Maneco estava praticamente engolindo um camarada com os olhos, pensei: “Não quero nem saber de quem é o enterro; eu quero é chorar”. E, cheia de coragem, me aproximei do homem, huuummm, que cheiro maravilhoso. Começamos a conversar, ele me disse que era professor de Português, ao que reagi, com certa excitação (até um pouco além da conta): “Nossa, que bacana! Sou jornalista, nós dois trabalhamos com palavras, né?”. O… Ai, como era mesmo o nome dele, cacete… Ah, sim, o Renan assentiu com a cabeça, meio que sem dar muita bola – acho que ele estava mais interessado em beijar minha boca do que nas palavras que saíam dela.

Mas é óbvio que me fiz de difícil, afinal, já sou uma balzaquiana, tenho meus trinta e poucos anos e se sair abrindo as pernas para qualquer um estou ferrada: viro manchete na manhã do dia seguinte. Enfim, depois de fazer meu joguinho de cena e de ver que o Maneco acabara de tampar no beijo com o bofe dele, cheguei à conclusão de que, se continuasse marcando toca, iria acabar dando bom dia para cavalo. Então, conversa vai, conversa vem, e de repente o Renan me tascou um beijo. O que eu fiz? Me deixei levar, como quem é embalado pelas ondas do mar, em plena tarde de sol a pino… E que refresco aquele beijo me deu!

Passamos a noite ali, juntos, trocando palavras entre um carinho e outro. Quando me dei conta, já eram quase 4h da madrugada, até os bebuns que moram no bar já tinham caçado seu rumo. Só permanecíamos lá eu, Maneco, Cíntia e nossos acompanhantes. Confesso que me deu uma sensação maravilhosa: a de ser a última cliente de um bar. Sempre imaginei como seria ficar ali, observando aquelas mesas vazias, as mesmas que, horas antes, serviram como suporte para a alegria e o delírio de muitos. Os copos lavados, na prateleira atrás do balcão, me lembraram de que a vida, mesmo gelada e pulsante, um dia também se esvazia – assim como aconteceu comigo e Fernanda.

Naquele instante, minha noite ficou choca, igual cerveja velha que perdeu o sabor. Num lampejo, despedi-me apressadamente do Renan, que, sem entender nada, ainda correu para rabiscar o número de seu telefone em um guardanapo e me entregar. Agradecida, enfiei o papel no bolso e gritei por Maneco e Cíntia, que, como sempre, me escutaram. Corremos para a calçada, os três de mãos dadas, e eu me sentei no meio-fio. Meus amigos só me olharam, enquanto a lágrima que começava a escorrer falava por mim.

Chorei. Chorei mais vinho do que uma adega inteira, chorei a cerveja toda do bar, chorei os litros de refrigerantes que vi dentro do freezer. Chorei muito, um rio de lágrimas escorrendo para dentro do bueiro, enquanto Maneco e Cíntia, abraçados a mim, navegavam comigo. Ficamos ali um bom tempo, até que o dia começou a nascer, o sol estava em algum lugar e já iluminava aos poucos a rua, aquecendo a recordação de que minha amizade com Fernanda se pôs para sempre atrás das montanhas.

***

Ontem, fui ao apartamento da Vó Arlete. Já estava colocando os bofes pra fora quando terminei de subir os três lances de escada, pois ela faz questão de morar no terceiro andar de um prédio sem elevador. “Deus me livre de elevador, subir escada faz bem à saúde”, repete sempre a minha véia, do alto de seus 70 e tantos anos. Assim que comecei a me aproximar da campainha, percebi que ela demoraria a me atender, afinal, do corredor dava para ouvir o som do seu tocador de vinil, onde Nelson Gonçalves cantava em uma altura estridente. Toquei a campainha umas cem vezes até partir para ignorância e me esgoelar em frente à porta. Foi só então que Dona Arlete me recebeu, com seu tradicional hobby vermelho e coque no cabelo.

– Oi, minha filha! Você já estava aí há bastante tempo?
– Não muito, vó. Acho que apenas umas duas horas.

Ela gargalhou por causa do meu jeito irônico de falar, enquanto pedia mil desculpas.

– É que o Nelson Gonçalves não me deixa ouvir mais nada além de sua voz…

E ainda coloca a culpa num cantor que já bateu as botas faz tempo, é mole? Dona Arlete é a pessoa mais jovem que conheço. Nos bailes da terceira idade, não tem para ninguém, só dá ela na pista. Passamos uma tarde agradabilíssima, na companhia dos discos de Gonçalves, Maysa, Dalva de Oliveira, entre outros clássicos da música brasileira. Vovó até me contou um segredo: está namorando um senhor que conheceu há algumas semanas, na aula de tango que frequenta.

– Ai, Fernanda… Que alegria, que felicidade! Logo eu que pensava que o amor era algo distante, que tinha ficado para trás, e olha só o que me aconteceu: ganhei na loteria.

– Falando assim a senhora me deixa com inveja, Dona Arlete! Eu aqui, solteirona, e você de namorico pelas esquinas?

Depois de me ouvir dizendo essas palavras, vovó deu um longo suspiro, como se perdesse o ar por alguns instantes o fôlego. Depois, sorriu, olhando para a janela.

– Sabe, minha querida, a vida é isso.
– Isso o que, vó?
– Isso, Fernanda. Isso. A gente aqui, conversando como se fôssemos duas raparigas da mesma idade e o tempo não existisse… A gente na cozinha, fazendo bolo e se divertindo, enquanto alguém, lá embaixo na calçada, sofre. A campainha toca e a gente não escuta de vez em quando, minha filha. Daí, a visita vai embora, talvez para sempre. A vida é isso, isso, isso… Darmos adeus e boas-vindas a quem está atrás da porta, mas também despedir-se de algo que nunca mais conheceremos.

Enquanto Vó Arlete falava, com o olhar fixo no infinito que penetrava pela janela, notei que o telefone estava tocando. “Me deixa te interromper só um minuto, vozinha. O telefone está tocando”, eu disse, ao que ela meio que deu de ombros, como se não estivesse falando comigo, mas sim sozinha. Baixei um pouco o som da vitrola e tirei o fone do gancho.

– Alô!
Ninguém respondeu.
– Alô?! Alô?! Alô, alô, alô!

O silêncio continuou.

– Ah, pelo amor de Deus, passando trote? Sabia que aqui nesta casa mora uma idosa?

Num chiste, notei que vovó vinha apressada em minha direção, feito coisa que soubesse quem estava na linha. Rapidamente, ela arrancou o fone das minhas mãos.

– Alô! Oi? Ah, sim… Tudo bom? (…) Claro, claro, entendo. (…) Na sexta não dá, já tenho compromisso. (…) Continuo indo aos bailes, sim, e só pretendo parar quando morrer, tá ouvindo? (…) Perigoso que nada, perigoso é viver enfiada dentro de casa, com a cabeça pegando mofo. (…) Tá bom, vem na segunda depois da novela. (…) Um beijo, Deus te abençoe. Fica com Deus, Angela.

Foi somente nessa última frase que me dei conta: vovó estava falando com minha mãe, que não me respondeu quando atendi. Nem por telefone ela fala comigo. Obviamente, minha avó percebeu que o clima pesou. Ela ainda tentou contornar, dizer alguma coisa, mas não deixei. Dei um beijo nela, peguei minha bolsa e saí pela porta como um furacão.

Droga, droga, droga. Tudo por culpa da Tereza. Te odeio, Tetê! Te odeio! E me odeio por continuar sentindo saudade de você… Quando deixei a casa da vovó, passei como um tiro pelas escadas. Já lá embaixo, na portaria, notei que estava ofegante, meio sem ar. Meu peito, vazio, ainda conseguiu soprar uma lágrima, que caiu singela. Nesse momento, percebi que a ligação entre minha mãe e eu pode ter caído para sempre, por culpa de uma ficha que acabou, chamada Tereza.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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