Filme Americano – Cap 96

Filme Americano – Cap 96

Finalmente aquela semana longa tinha acabado. Beca, Nina e o resto do time treinaram até não aguentarem mais na sexta, como Negão havia prometido, o treino foi super pesado e todas saíram de lá implorando por uma cama ou um sofá ou até mesmo um colchão que fosse, para se encostarem. As pernas estavam cansadas e os pulmões exaustos. Por outro lado, na hora do treino tático, o time estava mais entrosado do que nunca. Nina não deixava passar nada no gol enquanto as meninas pareciam ler a mente uma das outras nas jogadas. Até o técnico se assustou com aquela novidade, afinal de contas, com faltas e com a falta de amizade entre Cami e o resto do grupo ele não esperou que estivessem tão afiadas tão rapidamente. Ficou satisfeito e no final parabenizou a todas pelo comportamento exemplar e pelo entrosamento. Chegou a prometer um presente caso jogassem daquela mesma maneira no primeiro jogo do campeonato.
Assim que a sexta escureceu, Diogo chegou em casa depois de algumas aulas particulares que tinha dado naquela tarde. Ele já havia lido a mensagem de Beca que havia dito que Nina iria para a casa deles após o treino. Apesar de ainda haver um castigo, Diogo sabia que não conseguiria segurar a filha por mais tempo e além do mais, ela cumpriu com todas as promessas que havia feito a ele. Ele ainda recebia elogios de alguns professores pelo desempenho dela, mas nunca falaria isso pra ela, não podia correr o risco dela se acomodar na situação e largar tudo de mão, continuaria cobrando sem descansos.
– Beca, cheguei! – Diogo gritou logo depois de tirar o sapato no pequeno hall de entrada e largar as chaves na mesinha que ficava ali
– Estamos aqui no quarto, pai! – a voz de Beca veio seguida de uma risada gostosa. Diogo riu ao ouvir a felicidade da filha e secretamente agradeceu por Nina ter aparecido na vida dela e também lembrou da mãe de Beca, o grande amor da vida dele
Assim que Diogo chegou na porta do quarto da filha, viu que ela e Nina não estavam na cama e ficou mais tranquilo para empurrar um pouco mais a porta e entrar. Beca estava sentada no chão, com as costas apoiadas em sua cama com algumas folhas espalhadas ao seu redor. Nina estava sentada na mesa do computador de Beca com livros e cadernos abertos na sua frente. Parecia que elas estavam estudando e Diogo achou que aquilo fosse bom demais para ser real. Chegou a perguntar se elas estavam com febre, mas depois de ser quase expulso do quarto, apenas riu e disse que iria providenciar o jantar enquanto elas terminavam o que estavam fazendo.
– Acha que seu pai vai cair no nosso plano? – Nina perguntou baixo assim que Diogo encostou a porta de novo
– Bom, meu combinado com ele é estudar e isso eu estou fazendo, não tem motivos para ele não deixar eu dormir na sua casa amanhã – Beca respondeu sussurrando
Do lado de fora do quarto, Diogo escutava a conversa baixinha da sua filha com a namorada. Ele sabia que devia haver algum motivo por trás do estudo daquelas duas em plena sexta a noite, mas gostou de saber que Beca não tinha esquecido do seu combinado com o pai. Ela estava se dedicando e seus exercícios estavam em dia, não haveria motivos para ele proibir ela de dormir na casa de Nina no sábado, mas ela ainda não precisava saber disso. Ele deixaria que ela se esforçasse mais um pouco.
– Meninas, não temos comida em casa, mas eu convido vocês para irmos comer um cachorro quente lá perto da quadra, topam? – Diogo colocou a cabeça para dentro do quarto enquanto falava com elas
– Depois do treino do Negão de hoje eu poderia comer a carrocinha inteira de cachorro quente! – Beca respondeu já trocando de roupa
– Quem sou eu para recusar um convite desses? – Nina fechou um dos cadernos e já levantou da cadeira
Os três saíram poucos minutos depois de casa e foram andando em direção a quadra no final da rua. Depois da briga com Joguí, Beca nunca mais foi jogar com os meninos do bairro como costumava fazer. Ela era conhecida por acabar com a alegria de todos eles quando chegava, mas fazia um tempo que ela aparecia por lá, por isso, quando viram ela passando pela esquina, gritos de olha só quem voltou e lá vem ela acabar com nosso jogo ecoaram pela pracinha. Alguns até fingiram estarem fugindo. Nina não cabia em si de orgulho e Diogo achava sua filha uma super estrela do bairro. Adorou presenciar aquela recepção.
– Eu sei que todos me amam, mas hoje não estou aqui para o entretenimento de vocês, podem continuar que não vou acabar com ninguém hoje, mas não comemorem muito! Semana que vem eu venho aqui ensinar mais alguns truques pra vocês – Beca falou assim que chegou na grade cumprimentando e ao mesmo tempo se despedindo de todos eles, ela nem reparou que Joguí estava sentado na arquibancada assistindo ao jogo
Diogo e Nina já haviam feito seus pedidos na carrocinha de cachorro quente ali da pracinha e estavam no meio do pedido de Beca quando ela chegou e pediu para colocar tudo aquilo que eles haviam falado em dobro. Ela estava realmente morrendo de fome. E os três sentaram nos banquinhos que tinham ali por perto enquanto esperavam ficar pronto o que pediram.
– Be, você viu quem está ali e não para de olhar pra cá? – Nina comentou baixo enquanto Diogo se distraía com o celular
Beca virou o rosto para onde Nina apontava e foi pega de surpresa com o olhar de Joguí fixado nelas. Ela conseguia sentir que ele ainda tinha uma espécie de raiva dentro dele, mas também tinha muita magoa e tristeza.
– Se eu tivesse visto que ele estava ali, nem teríamos ficado – Beca sussurrou para Nina
– Amor, você não pode guardar essa raiva toda. Faz mal pra você…até a Cami você conseguiu perdoar – Nina falou enquanto apoiava o queixo no ombro de Beca
– A Cami nunca foi nada minha, eu não tinha carinho algum por ela…o Joguí tinha uma história comigo, é diferente – Beca falou e na mesma hora a expressão de Nina mudou
– Uma história…ah sim…entendi – A goleira mudou sua posição, cruzou os braços e fez questão de não cruzar seu olhar com o da namorada
– Ni, você vai ficar com ciúmes agora? Jura? – Beca não tinha muita paciência para romantismos
– Ciúmes não, só to deixando você e sua historia com ele…você ainda pensa no que vocês tiveram por isso não consegue perdoar ele – Nina falou sem deixar que Diogo ouvisse
– Mais tarde eu vou te mostrar no que eu penso, tá? – Beca tentou fazer uma cara romântica, mas Nina não caiu no papo da namorada, continuou emburrada e só não prosseguiu com a discussão porque os sanduíches chegaram na hora.
O resto do jantar foi silencioso. Beca e Nina não trocavam muitas palavras e Diogo eventualmente fazia algum comentário sobre o sanduíche, sobre o jogo dos meninos e sobre qualquer coisa que estivesse acontecendo naquele momento. Ele percebeu que havia algo de errado entre as duas meninas e desconfiava que isso tinha a ver com a presença de Joguí logo ali do lado. Ele ficava triste com a maneira que tudo acabou acontecendo e, internamente, nunca perdoaria Joguí por ter magoado tanto sua filha depois de anos sendo o melhor amigo dela. Assim que conseguiram terminar o sanduíche, Diogo deu a noite por encerrado e arrastou as outras duas para casa. Ele não queria a possibilidade de mais confusão naquela noite.
– Ei, Ni, você não vai falar comigo não? – Beca perguntou assim que entraram no quarto depois de se despedirem de Diogo
– Eu to falando com você… – Nina falou sem nem virar de frente para a namorada
– Nina, olha pra mim. Fala o que você quer falar logo e vamos resolver isso – Beca falou um pouco mais alto para chamar a atenção da namorada
Nina parou o que estava fazendo, que na verdade não era nada, largou a blusa do pijama que ela estava se preparando para colocar e virou de frente para Beca que estava parada, de braços cruzados apoiada no armário de roupas dela. Nina estava com uma feição triste e pensativa enquanto Beca buscava entender o que estava acontecendo enquanto lia o olhar da namorada.
– Eu só não entendo porque essa mágoa toda do Joguí…ele fez merda, tudo bem, eu entendo, não quero que você seja amiga dele, mas acho que você nutrir essa raiva dele pra sempre só mostra que ele significa mais do que eu gostaria para você – Nina falou, sem levantar a voz e sem fixar o olhar na namorada por muito tempo
– Amor, é lógico que ele significava muita coisa pra mim. Ele foi meu único e melhor amigo por anos. Minha raiva pelo que ele fez não tem nada a ver com as poucas semanas que nós namoramos, mas sim com o enorme tempo que ele foi meu amigo e até confidente. Eu nunca imaginei que uma pessoa que sempre conversou comigo sobre tudo fosse me apunhalar dessa forma
Nina não respondeu. O ciúmes ainda estava lá dentro dela, mas ela também conseguia entender que a amizade de Joguí era importante para a namorada e que ele ter traído ela dessa forma a fazia mal e isso sim a deixava com tanta raiva. Ela precisava confiar no sentimento que compartilhava com Beca. Mesmo depois de tudo, estavam juntas e apaixonadas. Não seria um passado com Joguí que estragaria tudo agora, não é mesmo?
– Ei, não fica com ciúmes do Joguí, por favor… – Beca abraçou Nina pela cintura e puxou seu queixo para cima para que os olhos se encontrassem
– É meio que involuntário…não se controla essas coisas – Nina estava perdida naquele sentimento que a invadia todas as vezes que os olhares se cruzassem
– Sobre essas coisas que a gente não controla, sabe o que mais é assim? – Beca falou já com um tom leve e risonho na voz
– O que? – Nina abraçou a namorada pelo pescoço diminuindo o espaço entre elas
– De encher essa sua boca deliciosa de beijos…
Beca não esperou a resposta de Nina e lhe sugou os lábios com a vontade de quem estava com saudades daquele beijo quente e molhado. Nina não deixou por menos e no mesmo momento puxou o cabelo na nuca de Beca. O gemido abafado pela língua de Nina na boca de Beca fez a goleira sentir um calor subindo pelas pernas. Não demorou muito e elas estavam sem roupa buscando espaço no corpo uma da outra, bebendo a saliva, o suor e o líquido de amor que os corpos exalam. O amor delas tinha nome, sussurro, cheiro e gosto. O amor delas tinha verdade.

Mari Veiga

Autora, escritora, um pouco louca e uma mente hiperativa que acha que pode mudar o mundo com suas palavras.

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