Filme Americano – Cap 95

Filme Americano – Cap 95

A manhã de sexta parecia ainda mais especial. Beca pulou da cama e antes mesmo do sol nascer por completo ela já estava na cozinha preparando sua vitamina de frutas com granola. Era como um ritual nos dias de treino. Ela dizia que dava força para ela correr ainda mais e com a proximidade do campeonato era o que ela mais precisava.
Após a vingança do bem que elas armaram contra Cami, parecia que a menina ia dar uma trégua as implicâncias com elas e provavelmente não sairia do time, afinal de contas, ela não tinha nenhum motivo concreto para fazer isso. Apenas algumas desconfianças sem provas. Nina estava dividindo seu precioso tempo entre o namoro com Beca e os estudos. Após toda a confusão passar, ela percebeu que precisava mesmo focar nas matérias, afinal de contas, era ano de encerrar o ensino médio e começar a pensar em um futuro. O que tornava tudo ainda mais difícil.
Beca chegou no colégio junto com seu pai, ou seja, antes de qualquer aluno. Como ela sempre fazia quando chegava cedo, foi até a sala dos professores com o pai e aproveitou para conversar com o técnico sobre o treino de mais tarde. Queria propor alguns exercícios para que ele fizesse com o time. O foco era trabalhar a união delas e o entrosamento, já que tiveram algumas semanas de treino com desfalques importantes.
– Diogo, sua filha só pensa em futebol assim mesmo? – o técnico brincava com o professor enquanto Beca falava dos tais exercícios
– Se fosse a alguns meses atrás, eu diria que sim, mas hoje em dia eu digo que ela divide o tempo de pensamento entre o futebol e a Nina – Diogo falou enquanto assistia Beca ruborizar com o comentário do pai
– Vocês dois podem parar de falar de mim como seu eu não tivesse aqui? – A menina fingiu uma cara de emburrada
– Beca, eu ouvi todas as suas ideias, agora vai encontrar com o resto do time, assiste todas as aulas e conversamos melhor a tarde, ok? – Negão encerrou a conversa e dispensou a menina
Assim que Beca saiu do corredor principal em direção a entrada, viu que Carla já tinha chegado e esperava no lugar de sempre com o celular na mão, provavelmente estava mandando mensagem para Juca perguntando se ela estava chegando. Beca sabia disso porque tinha feito o mesmo com Nina.
– Mandando mensagem pra Juca, é? – Beca assustou a amiga chegando por trás
– Que susto, Beca! Quer me matar é? E…como você sabe? – Carla ficou parecendo um pimentão na mesma hora
– Acabei de mandar mensagem pra Nina, certos comportamentos não mudam de um casal para outro…
– Eu não sei se somos um casal…
– Você ainda tem dúvidas? Eu vejo como vocês se olham, se tocam…vocês estão apaixonadinhas… – Beca apertou as bochechas de Carla de implicância com a amiga
– Quem está apaixonadinha? A Carla e a Juca? – Nina chegou por trás de Beca abraçando a namorada pela cintura
– Beca! Você já contou para a Nina? – Carla repreendeu a amiga mas com um tom de piada na voz
– Eu não contei nada! Juro! – Beca foi logo se defendendo
– Ela não me contou nada, mas meio que está escrito na testa de vocês, Carlinha – Nina falou apoiando o queixo no ombro de Beca
As brincadeiras com Carla continuaram até que Juca e Juliana se juntaram ao grupo. Beca e Nina tinham prometido a menina que não comentariam nada na frente da Juca e da Juliana até que ela conversasse sobre o que estava realmente rolando entre elas. Como ela mesma disse, precisava ter calma antes de colocar o coração na frente da razão, mas era muito claro que ela já estava completamente apaixonada por Juca.
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Finalmente o sinal do final da aula tocou e todos os alunos correram para o corredor e depois em direção a rua. Era sexta e isso significava uma liberdade de dois dias. Assim que o corredor do colégio ficou vazio, apenas cinco pessoas ainda rondavam por ali. As meninas estavam passando de armário em armário para pegarem a roupa do treino, deixar a mochila e depois seguirem juntas para o almoço na cantina. Enquanto abriam e fechavam as portinhas, iam conversando sobre posicionamento tático, jogadas ensaiadas e até dancinhas para comemorem os gole que iriam marcar a partir da próxima semana, quando o campeonato começava.
Assim que chegaram ao último armário, todas já estavam com as chuteiras na mão, um short e uma camiseta de ginastica, leve, perfeita para o treino. Elas carregavam a roupa do treino em pequenas bolsas e sempre as deixavam no vestiário, onde trocavam de roupa depois. Juntas, seguiam para a cantina e assim que chegaram lá encontraram uma única mesa disponível para elas. A dona do espaço estava limpando o resto dos lugares, mas sabia que elas iriam almoçar por ali e deixou uma reservada para o time, elas trataram de sentar e pedir seus pratos.
– Posso sentar com vocês? – a voz de Cami fez a mesa silenciar no mesmo instante
– Você quer sentar com a gente? – Carla quebrou o silêncio com uma surpresa genuína na voz
– Olha…eu sei que foram vocês, ok? E eu sei que a foto também é coisa de vocês e que vocês já sabem do lance todo…eu não tenho como provar, mas ao mesmo tempo não faria nada para prejudicar vocês – Cami falou olhando em volta o tempo todo para garantir que ninguém mais ouvia o desabafo
– Você pode sentar com a gente…mas eu preciso te perguntar uma coisa antes – Beca falou pegando todas de surpresa – Porque eu e a Nina fomos as escolhidas? Qual é o seu problema com a gente exatamente?
– Nenhum…mas é que vocês são tão…tão…tão vocês, que irrita. Além do mais, eu sempre tive raiva da Nina por não ter se interessado em mim de verdade… – Cami falou reduzindo a voz aos poucos
Beca fez sinal para que Cami se sentasse e ela acabou obedecendo. As brincadeiras entre as cinco continuaram. Elas faziam piadas e implicavam umas com as outras o tempo todo. Cami não teve coragem de interromper nada e também não falou mais nada, mas sempre ria de alguma coisa engraçada e se mostrou especialmente humilde ao lado das meninas. Talvez a vingança tenha tornado ela uma pessoa melhor e talvez isso realmente tenha sido uma coisa boa para o time.
Quando o horário do treino se aproximava, as seis foram andando juntas até o campo onde Negão já esperava por elas. Não tinha nem sinal de Joguí por perto e Beca agradeceu por ele ter sumido de vez. Ela não aguentaria ter que olhar para ele todas as sextas, justamente no momento que ela mais ansiava toda semana.
– Meninas, que bom ver vocês todas juntas. Isso é um bom começou, afinal de contas, precisamos de muito entrosamento daqui pra frente! – Negão falou assim que viu as seis chegarem juntas
– Técnico, e o Joguí? – Cami perguntou o que todas pensavam
– Perdemos um soldado, meninas. As notas dele estão ruins e ele foi dispensado do serviço…mas não se preocupem, eu dou conta de vocês. Agora vão lá deixar as coisas no vestiário e subam rápido
As seis desceram em silêncio. Beca não conseguia perdoar Joguí por tudo que ele tinha feito. Cami e Regina ela não se importava mais, elas não a conheciam como Joguí conhecia e era isso que mais a incomodava.
Assim que desceram as escadas, cada uma colocou suas coisas em um armário, trancou com o cadeado de sempre, vestiu a chuteira com meião, trocou de blusa e se preparou para subir. Cami foi a última a ficar pronta e mesmo não sendo necessário, as outras cinco resolveram esperar a menina para subirem juntas. Era uma forma silenciosa delas dizerem que estavam prontas para serem um time de verdade. Cami percebeu e assim que ficou pronta e viu as cinco esperando por ela, sorriu e sussurrou um obrigada. 
– Vamos, time. Temos muito que treinar hoje! Todas juntas? – Beca falou e esticou a mão no meio de uma roda imaginária.
Nina colocou a mão em cima da da namorada seguida de perto por Carla, Juca e Juliana. As cinco olharam para Cami e sem pestanejar, a menina colocou a sua mão por cima e sorriu para as outras. O time estava pronto para treinar.

Mari Veiga

Autora, escritora, um pouco louca e uma mente hiperativa que acha que pode mudar o mundo com suas palavras.

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