Filme Americano – Cap 92

Filme Americano – Cap 92

As primeiras aulas passaram voando. Como Beca havia combinado com seu pai, fez de tudo para se manter a aluna exemplar na sala. Apesar das matérias estarem parecendo um pouco fáceis demais, Beca se dedicou a prestar atenção e copiar tudo em seu caderno. Deixou o celular no silencioso no fundo da mochila para não cair na tentação de mandar mensagens para Nina dizendo que estava com saudades e que não via a hora de enche-la de beijos. Vocês tem dez minutos para terminar o exercício e me apresentar aqui na frente. O professor falou assim que acabou de colocar o enunciado no quadro. Assim que Beca leu a questão, riu, anotou algumas coisas no papel e logo foi até a mesa do professor lhe entregar a resposta
– É impossível que tenha feito tão rápido… – o professor olhou incrédulo para a folha de papel
– É que eu já fiz todos os exercícios que estavam no sistema, professor…vantagens de uma suspensão não-programada – Beca riu sem graça enquanto o professor lia sua resposta
– Bom, o que eu posso dizer? Além dessa pequena data errada aqui, está tudo perfeito – o professor deu um visto com a caneta vermelha e devolveu a folha para Beca
– Posso ir ao banheiro enquanto a turma termina, professor?
Com um aceno de cabeça, o professor liberou para que ela fosse até o banheiro. Na verdade, Beca queria apenas caminhar um pouco já que não teria nada para fazer nos próximos minutos. Ela deixou a folha dentro do seu caderno, pegou o celular na mochila e saiu da sala. Não percebeu que o olhar de Joguí a acompanhava em todos os movimentos.
Já do lado de fora, Beca caminhou até a porta da sala de Nina e tentou ver o que estava acontecendo lá dentro. Por coincidência, seu pai era quem comandava a aula e ela teve vontade de entrar lá só para que pudesse olhar nos olhos de sua namorada. Estava com saudades e queria sorrir para ela e receber em troca aquele sorriso que rasga o rosto, a alma e o coração que só a Nina consegue lhe dar. Para não chamar muita atenção, ela apenas mandou uma mensagem para Nina avisando que estava no banheiro. Ela sabia que a namorada não conseguia desgrudar do celular e que com certeza iria ver seu recado.
Não deu nem dois minutos que Beca havia mandado a mensagem, a pesada porta do banheiro se abriu e os cabelos longos de Nina balançaram com a corrente de vento que foi criada. O cheiro do shampoo que ela usava misturado ao odor natural do corpo da menina invadiram o local e Beca foi atingida primeiro por aquele perfume só dela e depois pelo sorriso rasgado de Nina chegando bem perto. Era mais um daqueles momentos de Filme Americano.
Sem falar nada, a mais velha foi até o corpo da namorada, que estava com as costas encostada na pia, encaixou as pernas, sorriu ainda mais aberto, acariciou as bochechas de Beca e lhe tomou em um beijo quente, urgente, apaixonado e molhado. Beca não reagiu e nem reclamou. Elas sabiam que estavam sozinhas ali e que ainda faltava um bom tempo para o sinal do recreio tocar. Deixou que Nina a puxasse pela cintura e a colocasse em cima da pia enquanto distribuía beijos em seu pescoço. Sem perguntar ou hesitar, Nina levantou a blusa de Beca deixando sua barriga a mostra e se pôs a depositar beijos e pequenas mordidas no músculo abdominal levemente definido da namorada.
– Ei, ei…se controle mocinha! – Beca falou enquanto empurrava Nina um pouco e abaixava a blusa
– Me controlar? Com você por perto isso é impossível – Nina avançou novamente fincando os dentes no pescoço de Beca
– Amor…calma! Nós só temos pouquíssimos minutos, além do mais, qualquer pessoa pode entrar – Beca falou descendo da pia, onde estava sentada
– Então vamos para uma cabine, assim ninguém nos vê – Nina agarrou a cintura de Beca e girou seu corpo em direção as cabines
– Por mais que eu esteja muito tentada a fazer isso, acho melhor não! – Beca travou o pé no chão e puxou a cabeça de Nina para que encontrasse seus olhos. O desejo e o fogo estavam ali e ela por pouco não chutou o balde e entrou na cabine com Nina.
– Tudo bem…mas saiba que vamos terminar isso aqui mais tarde! – Nina falou enquanto ajeitava o corpo e respirava fundo
– Vamos é? – Beca sorriu com a tentativa de Nina se acalmar
– Quer companhia para almoçar e passar a tarde? – Nina falou enquanto abraçava Beca, dessa vez sem mãos bobas
– Se for sua, eu sempre vou querer! – Beca respondeu enquanto jogava os braços pelo pescoço da namorada e colava seus lábios no dela
— / —
Depois do rápido encontro no banheiro, Beca e Nina voltaram para suas salas para esperar o sinal do recreio tocar. Nina recebeu um olhar levemente desconfiado de Diogo assim que abriu a porta e sorriu sem graça. A vermelhidão no seu pescoço a denunciava e o professor respirou fundo para não ir lá fora tirar satisfação com as duas. Já Beca entrou na sala enquanto o professor corrigia vários exercícios e tinha uma fila enorme ao lado de sua mesa. Assim que a porta atrás dela se fechou, e ela olhou para frente, deu de cara com Joguí, o último da fila naquele momento para entregar o trabalho. O menino ficou nervoso e abriu e fechou a boca algumas vezes sem saber o que falar. Foi quando ele viu um roxo de leve no pescoço de Beca e concluiu que ela havia encontrado com Nina naquele tempo que tinha ficado fora. Ele tinha contado cada minuto.
– Encontro rápido com sua namorada no banheiro? – o tom de voz de Joguí oscilava entre provocação e piada
– Não é da sua conta – Beca respondeu ríspida e saiu andando, mas a mão de Joguí em seu braço a impediu de continuar
– Espera…eu quero falar uma coisa com você… – Joguí falou baixo para não chamar atenção do resto da turma que conversava
– Eu não tenho nada para falar com você – Beca respondeu já fazendo menção de continuar andando, mas mais uma vez Joguí a segurou
– Beca, me escuta…eu queria pedir desculpas! – a voz de Joguí foi sumindo enquanto ele chegava ao final da frase e seus olhos encaravam o sapato escuro e o chão preto
– Após quase destruir meu namoro e prejudicar a minha vida na escola e ainda colocar o emprego do meu pai em risco, você pede desculpas? Devia ter pensado nisso antes – Beca não gritava, mas a frieza em sua voz era cortante
– Eu sei, é só que… – Joguí não tinha mais argumentos
– Sabe, Joguí…é por coisas assim que eu troquei você pela Nina sem nem pensar duas vezes…além do fato de que ela é muito melhor na cama! – Beca falou baixo, quase como um sussurro no ouvido de Joguí
O menino não respondeu mas as lágrimas que se acumularam no canto do seu olho deixaram claro que ele havia entendido cada palavra. A garganta secou na mesma hora e Beca fingiu não perceber que os lábios dele tremiam como se fosse começar a chorar. Joguí tinha um olhar perdido, de quem tinha tomado um golpe forte e nem sabia da onde tinha vido. Beca se sentiu vingada. Lembrou do que sentiu ao ver a foto postada no tal grupo e de como ela havia quase perdido Nina por causa dele e mesmo não gostando de fazer os outros sofrer, não conseguiu negar para si mesma que a vingança contra Joguí era aquela ali. Uma humilhação particular. Ela virou de costas para ele e saiu andando em direção ao seu lugar. Carla, que assistiu a cena de longe, já a esperava com um olhar inquieto e curioso.
– Alguém ali está com cara de quem foi amaldiçoado – Carla comentou olhando para a expressão perdida de Joguí
– Ele só ouviu o que merecia – Beca falou baixo olhando para a amiga que já tinha seu exercício corrigido na mesa
– Você não acha que foi longe demais, amiga? Ele tá sofrendo… – Carla não conseguia parar de ser tão boazinha
– Ele mereceu, amiga! Mas agora, esquece isso…estou com fome! Esse recreio não começa não hein? – Beca mudou de assunto rapidamente enquanto rabiscava a ponta do caderno da amiga
– Aposto que essa fome toda é resultado do encontro com a Nina no banheiro né…vocês não perdem tempo! – Carla falou baixinho rindo para Beca
– Estou tão descabelada assim? – Beca sabia que não estava, mas brincou
– Não, mas esse pequeno roxo no seu pescoço não estava aí antes e denunciou vocês – Carla apontou para a pequena mancha
– Nina, filha da mãe! Vou matar ela – Beca pegou o celular e estava analisando o tamanho da marca que carregava
— / —
O sinal do recreio finalmente tocou. Beca e Carla guardaram seus pertences calmamente. Desde o ocorrido com Cami, Regina e Joguí, Beca tinha começado a trancar sua mochila com um pequeno cadeado de senha que ela tinha. Era trabalhoso, mas ela não iria mais dar chance para que aqueles malucos fizessem algo contra ela e contra Nina. Carla sempre esperava a amiga para saírem juntas da sala e encontrarem com o resto do time na arquibancada de sempre. O professor que havia dado o último tempo antes do recreio ainda estava na sala e viu quando todos saíram ficando só elas duas. Assim que colocou a senha no cadeado e fechou tudo, Beca fez sinal para que Carla a acompanhasse. Elas já estavam quase na porta quando o professor pediu para que Beca fosse até a mesa dele por um segundo. Carla saiu da sala e foi em direção a arquibancada enquanto Beca ia falar com ele.
– Eu olhei seus exercícios no sistema, você arrasou hein! – o professor de Biologia era novo e adorava parecer amigo dos alunos
– Bom, eu estava com bastante tempo livre né… – Beca respondeu meio sem graça
– Continue assim e você vai longe! Seu pai tem razão e ter orgulho de você
O professor saiu da sala antes dela e deixou a porta aberta para que ela fosse logo depois. Beca ainda saboreou um pouco mais as palavras que ouviu. Depois dos últimos acontecimentos, era bom ouvir que seu pai sentia orgulho dela, melhor ainda quando essa informação chegava de forma tão despretensiosa como tinha sido naquela hora. Ela abriu um sorriso enorme, guardou o celular no bolso e acelerou o passo, precisava encontrar suas amigas e contar o plano.
Assim que cruzou a porta, sentiu alguém segurando seu braço fazendo seu corpo girar no impulso. Já pronta para tirar satisfações com quem a estava segurando daquela forma, deu de cara com Nina e uma pequena florzinha nas mãos. Ela sabia que ela tinha arrancado do pequeno jardim que cercava o colégio lá fora e o sorriso que sua namorada ostentava era algo apaixonante.
– Carla falou que o professor te segurou, aí vim te resgatar – Nina falou enquanto puxava Beca para mais perto
– Minha salvadora sem cavalo branco e que usa chuteira…ainda bem que nunca acreditem em conto de fadas! – Beca jogou os braços pelo pescoço de Nina e colou seus lábios nos dela. Ela poderia passar horas e horas sentindo aqueles lábios molhados molharem os seus
– Er…Ahn…Uhm… – o som vindo de alguém bem próximo delas as fizeram saltar no lugar e se soltar
– Negão, assim você infarta a gente! – Beca falou quando viu o técnico parado ao lado delas
– Espero que essa animação toda ainda esteja presente no treino de sexta. Levem bastante água que vocês vão precisar! – Negão falou e seguiu seu caminho ainda sério, mas era possível ver um sorriso sádico em seus lábios
– Negão vai acabar com a gente na sexta… – Nina comentou enquanto buscava a mão de Beca e seguiam para o pátio
Assim que avistaram as meninas na arquibancada, Beca aumentou o passo e levou Nina com ela. A ansiedade para conversarem sobre o tal plano estava enorme e ela não aguentaria mais um minuto que fosse.
– Finalmente o casalzinho resolveu aparecer – Juca brincou enquanto Carla se acomodava entre suas pernas
– E esse roxo aí no pescoço, Beca…foi de agora ou foi no encontro de vocês no banheiro? – Juliana adorava fazer esse tipo de comentário que deixava a pessoa sem graça
– A Nina vai me pagar por isso mais tarde! – Beca falou olhando para a namorada com cara de brava
– Vou é? Não vejo a hora! – Nina brincou e levou um tapa de leve de Beca no braço
– Gente, vamos falar do que interessa…do plano! – Foi Carla que mudou o assunto
– Boa, amiga! Na verdade, é bem simples o plano…vamos mostrar para o colégio todo que o amor sempre vence, mas para isso vamos precisar de todo mundo.
Beca continuou a explicar o plano que tinha pensado. As risadas e as interrupções fizeram com que ela demorasse todo o recreio para terminar de explicar a sua ideia. Não houve nenhuma objeção, apesar de algumas reclamarem que aquele plano ainda era muito leve para tudo que Cami tinha feito com elas. Beca lembrou as amigas que era melhor assim já que a menina não podia desconfiar delas para não sair do time como vingança. Elas estavam com o número certo de jogadoras, não dava para arriscar.
Assim que o sinal final do recreio tocou, todos no pátio começaram a se encaminhar para os corredores das salas. As cinco amigas ainda ficaram mais alguns minutos ali sentadas, gostavam de esperar todo mundo entrar para irem por último, assim ficavam de fora das confusões normais de um corredor lotado. Juca e Carla estavam cada vez mais grudada e agora andavam de mãos dadas pelo pátio. Não precisavam falar nada e nem anunciar o relacionamento. Era óbvio que estavam juntas. Beca e Nina gostavam de andar abraçadas, ou melhor, Nina puxava Beca pelo pescoço e a mantinha com o corpo grudado ao seu enquanto Beca agarrava a cintura de sua namorada. Juliana ficava no meio dos dois casais e eventualmente dava o braço para Carla ou Beca, elas pareciam unidas por alguma corrente invisível. Alguma ligação especial que ninguém podia ver, mas elas, com certeza, podiam sentir.

Mari Veiga

Autora, escritora, um pouco louca e uma mente hiperativa que acha que pode mudar o mundo com suas palavras.

Comente! ;)