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Filme americano – Cap 80

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O fim de semana parecia que seria interminável. Beca não queria levantar da cama e ter que dar de cara com seu pai na sala. A decepção estampada nos olhos do professor seria demais para ela. Depois de encarar por horas o tal perfil com a foto de Regina e a imagem dela abraçada a Cami, Beca só conseguiu dormir vencida pelo enorme cansaço. Queria muito que Nina respondesse aos seus chamados no chat do facebook, mas ela parecia estar completamente desconectada de tudo. Depois daquela foto postada, dos comentários nos corredores, da briga…Nina deveria estar em outra dimensão mesmo. Beca socou o colchão lembrando do quanto ignorou tudo que Nina tentou avisar.

Diogo vagava pela cozinha. Sabia que tinha sido extremamente duro com a filha no dia anterior e se sentia culpado por isso, mas ao mesmo tempo achava que tinha sido mole demais, afinal de contas, violência tinha tolerância zero naquela casa, principalmente dentro da escola onde ele trabalhava e onde ela estudava com uma bolsa especialmente cedida aos filhos de funcionários. Ele não podia admitir isso de forma alguma. Pensou em acordá-la, mas queria que ela tivesse seu tempo para pensar em tudo que havia feito. Decidiu então sair para esfriar a cabeça e quem sabe pensar na melhor forma de lidar com aquela situação. Ele havia passado a noite toda pensando em como sua mulher faz falta naquele momento. Ela saberia exatamente o que falar e o que fazer para que tudo ficasse bem. Antes que fosse tomado pela tristeza novamente, ele bateu a porta de casa e saiu para caminhar.

Assim que Beca ouviu o pai saindo de casa, imaginou que ele tivesse ido até a feira ou até a quitando perto da casa deles para comprar algo para o almoço, ou pensou que ele estivesse saindo porque não queria ter que encará-la. A vergonha era muito grande. Como se não quisesse levantar, se virou de costas para a porta e encarou a janela que ficava perto de sua cama. Da posição que estava, só conseguia ver o céu e a ponta de uma árvore mais alta, mas sabia que não muito longe, tinha um mundo inteiro pronto para lhe apresentar as consequências de suas últimas atitudes. Mais uma vez pensou em Nina e em como gostaria de falar com namorada, ou será que ela ainda era sua namorada? Decidiu levantar e matar a fome que já a encontrava.

Como já imaginava, a casa estava vazia. Diogo havia saído, mas havia deixado o café pronto e pão em cima da mesa. Isso significava que ele estava em dúvida se deveria abrandar o castigo de Beca ou não. De repente, ela teria seu celular de volta antes que imaginasse e só a ideia de poder talvez ligar para Nina, a fazia ficar feliz. Mas será que Nina a atenderia? Afinal de contas, Nina tinha todos os motivos do mundo para nunca mais querer falar com ela. Além disso, tinha também o fato do time das meninas da escola. Elas ainda não sabia quem Beca estava fora e que, por causa disso, todas estavam fora do campeonato. Como ela daria essa notícia para suas amigas?

Depois do café da manhã solitário, Beca voltou para o quarto e mais uma vez recorreu ao único meio de comunicação que tinha: seu computador. Ela sabia que Diogo nunca tiraria isso dela, até porque era ali que muita coisa do colégio era passada. Inclusive, decidiu adiantar as matérias da semana logo, talvez assim o tempo passasse mais rápido. Começou a pegar os exercícios que já estavam disponíveis no sistema exclusiva da escola e aos poucos ia resolvendo os problemas e respondendo as perguntas. Automaticamente, o sistema reconhecia o seu avanço e os professores responsáveis pelas matérias recebiam mensagens e notificações de que a aluna já tinha completado mais uma etapa. Dessa forma, Beca esperava recuperar um pouco da confiança de seu pai. Sabia que a escola era o que ele mais prezava.

Perdida em exercícios e com o fone de ouvido tocando um pop americano em seus ouvidos, Beca não percebeu que seu pai já tinha voltado da caminhada e estava na porta de seu quarto a olhando. Assim que ela percebeu uma sombra se mover ao seu lado, puxou o fone e quase saltou da cadeira ao dar de cara com Diogo ainda mais próximo, já lendo o que ela vinha fazendo. Como também tinha acesso ao sistema da escola, ele já sabia da dedicação da filha, por isso decidiu ir verificar se ela ainda estava viva depois de quase 4 horas fazendo deveres de casa.

– Desculpa, não quis te assustar, mas se serve de consolo, você me assustou antes… – Diogo falou enquanto sentava na beirada da cama de Beca
– Te assustei como? – Beca pausou a música que saía de seu computador e tirou os fones
– Entrei no sistema para conferir algumas notas e vi que você estava online…acompanhei sua movimentação por lá nas últimas horas. Levei um susto quando percebi que você não parava de fazer trabalhos
– Ah sim… – Beca riu sem graça – estou tentando fazer com que o tempo passe mais rápidos – Beca admitiu
– Funcionou? – Diogo perguntou
– Não sei, mas acredito que sim… – Beca só perceberia isso se chegasse logo o dia que voltaria para a escola e encontrasse com Nina
– Você ainda não está perdoada, mas pelo seu esforço de hoje acredito que mereça uma recompensa – Diogo falou tirando o celular de Beca do bolso

A menina comemorou sem se exaltar demais. Já pensava em como falaria com Nina e nas noites que iria virar conversando com ela no telefone até o dia que ela finalmente iria revê-la na escola. Pensou que poderia conversar com as amigas do time, explicar a situação e tentar ser perdoada por elas. Parou a comemoração. O time era mais importante e resolveu arriscar uma jogada audaciosa.

– Pai, não quero o celular de volta – Beca empurrou o aparelho de volta para Diogo, que entrou em estado de choque – prefiro que você me deixe voltar para o time
– Os dois castigos tem níveis bem diferentes, Beca. Não te ofereci uma troca – Diogo falou já guardando o celular. Era tudo ou nada.
– Pai, o que eu fiz foi errado. Eu sei disso e assumo minha responsabilidade. Saindo do time eu vou prejudicar todas as meninas que finalmente conseguiram jogar futebol naquela escola. Vamos fazer o seguinte. Eu vou continuar o meu bom comportamento, vou adiantar o que puder de exercícios e estudar durante os dias que estou em casa. Vou ficar sem meu celular e não sairei de casa e em troca, até sexta, você pensa em uma decisão. Pode ser? – Beca tinha aprendido com o pai o dom da argumentação
– Preciso aprender a te dizer mais nãos… – Diogo riu de canto de boca e esticou a mão para firmar um compromisso com a filha

Beca considerava uma vitória ter conseguido um acordo com o pai. Não gostaria de estar tão confiante, mas sua experiência com acordos com seu pai era que, normalmente, ele acabava cedendo perante o bom comportamento da filha e como nos próximos dias ela estaria trancada em casa, sem celular e sem Nina, o bom comportamento seria fácil de conquistar. Rezava apenas para que quando voltasse as aulas, o assunto sobre ela já tivesse passado e tudo voltasse ao normal. Inclusive sua participação no time.

– Beca, vem almoçar! Seu castigo não inclui greve de fome! – Diogo gritou enquanto o cheiro de comida invadia o quarto da menina.

Beca olhou mais uma vez a tela do computador, viu que Nina continuava offline, respirou fundo e seguiu para a cozinha. Pelo visto, não seria nesse sábado que ela conseguiria falar com ela.

Mari Veiga

Autora, escritora, um pouco louca e uma mente hiperativa que acha que pode mudar o mundo com suas palavras.

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