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Filme americano – Cap 79

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Nina estava na pracinha onde costumava jogar futebol perto de sua casa. As lágrimas já haviam secado em seu rosto, mas o aperto no coração era algo que não passaria tão rápido. Olhou para a quadra onde chegaram a jogar bola juntas, lembrou do dia que tiraram uma foto ali naquela arquibancada, foi a primeira vez que assumiram publicamente que estavam juntas. Por incrível que pareça, ainda haviam lágrimas a serem derramadas.

Beca havia acabado de chegar em casa e estava doida para tomar um banho, deitar em sua cama e não levantar nunca mais. Não queria encontrar seu pai tão cedo, mas Diogo não deixaria algo como isso passar despercebido. Ele estava sentado na mesa da cozinha encarando a madeira escura. Suas mãos nervosas mostravam que ele não estava ali para brincadeira.

– Senta – Diogo falou assim que ouviu os passos de Beca se aproximando

Beca não falou nada. Apenas deixou a mochila no canto do corredor e sentou de frente para o pai. As lágrimas já corriam em seu rosto e a respiração já estava difícil.

– Você pode me explicar o que aconteceu? – Diogo olhou para a filha e só então ela percebeu que ele também havia chorado
– Desculpa pai…eu sei que eu perdi a cabeça, mas é que eu não sabia o que fazer…você não sabe o que eles fizeram – as lágrimas a engasgaram e ela parou com uma crise de tosse
– Me conta desde o início, então – Diogo parecia não se abalar com as lágrimas da filha

Beca pegou o celular e mostrou a foto para o pai. Diogo pareceu não se abalar, mas por dentro a vontade era arremessar o celular pela janela.

– Isso aqui é verdade? – ele perguntou
– Claro que não! Eu amo a Nina… – mais lágrimas, Beca ainda não havia dado conta disso depois de toda a confusão
– Essa foto é montagem? – Diogo perguntou olhando novamente
– Acho que não, deve ser o ângulo…hora errada..sei lá – Beca respondeu controlando o desespero que havia começado a sentir
– Isso não é motivo para violência – Diogo não suportava a ideia de sua filha ser dessas pessoas que batem nas outras
– Eu sei, mas é que eu vi os dois rindo com o celular na mão…aqueles dois filhas da puta… – Beca levantou tomada pela raiva
– Ei, mocinha! Olha essa língua! Cadê a educação que eu te dei? – Diogo levantou também alterando a voz
– Pai, você não entende! Eles estão querendo acabar com a minha vida! – Beca chorava de raiva
– Para com isso, Beatriz. Para – Diogo não chamava a filha pelo nome completo e ela se assustou – A partir de agora, celular só fora de casa para o meu controle. Da casa para a escola, da escola para a casa e nada de futebol. Acabou tudo.

Beca caiu de volta na cadeira. Como assim ela ficaria sem o futebol? Mas e o time? Sem ela, eles não competiriam mais, não teria número suficiente e ela acabaria com a vida das amigas também. Diogo não podia fazer isso. Não isso.

– Mas, pai, o time… – Beca tentou juntar as palavras que pipocavam em sua mente confusa
– Pensasse nisso antes de perder a cabeça e agredir as pessoas. Estamos conversados. Seu celular está comigo e só devolvo quando você sair daqui, ou seja, no meio da semana que vem – claramente ele já sabia da suspensão

Beca se arrastou até o quarto e como se sua vida estivesse acabada para sempre, se jogou na cama, enfiou a cabeça no travesseiro e gritou como se dessa forma fosse tirar toda a dor que assolava seu peito. O peso que sentia em seu coração a deixava tonta e com enjoo. Correu para o banheiro a tempo de vomitar no vaso. Havia apenas água já que ela não tinha comido nada o dia todo. Aproveitou e se enfiou no chuveiro logo depois.

Nina percebeu que já estava na pracinha há tempo demais quando ouviu seu estômago roncar de fome. Olhou o relógio do celular e viu que as amigas já deviam estar treinando nesse momento. Se sentiu culpada por abandona-las, mas não tinha forças para mover os pés para frente, quanto mais para pular e proteger o gol. Foi pra casa, mordeu um pedaço de pão que estava em cima da mesa e foi para o quarto. Sem sono e com a cabeça a mil, ligou o computador e novamente aquela foto apareceu para ela. Com vontade de quebrar a tela, apenas clicou no perfil que havia postado a imagem, percebeu que ele havia sido deletado. Realmente alguém nos odeia muito. Mesmo desconfiando de quem tenha sido, Nina preferiu não pensar em nomes. Desligou a tela e foi para sua cama.

Com o cabelo embaraçado e molhado, Beca sentou no computador. Queria falar com Regina e saber como ela estava, afinal de contas, ela também era vítima. Abriu seu facebook e procurou pelo nome da amiga. Deu-se conta que até hoje não haviam se adicionado por lá. O perfil não foi encontrado. Tentou o outro sobrenome. Nada. Será que alguém como a Regina não tinha facebook? Mas isso era um pouco impossível, não era? Beca tentou no google. Nada. Apenas milhões de Reginas espalhadas pelo mundo, mas nenhuma era a sua Regina. Tentou usar uma tática que Juliana havia ensinado. Pegou uma foto que tinha com ela no celular e procurou através da pesquisa de imagens do buscador.

Nina não tinha visto Regina no final do dia no colégio. Será que ela havia embora de tanta vergonha? Será que ela estava gostando daquela situação? Afinal de contas, pelo visto, agora ela tinha Beca só para ela, não é mesmo? Lembrou de quando Regina falou que morava naquele condomínio e decidiu pegar sua bicicleta e dar uma volta para ver se a encontrava. Não saberia dizer o que faria caso a encontrasse, mas precisava olhar bem nos olhos dela para ter a certeza que tinha perdido Beca para sempre.

Beca precisava de ajuda para entender aquilo. Com a foto de Regina, achou uma outra pessoa no facebook com o nome de Reg e com um sobrenome completamente diferente do que ela havia falado. Quem seria aquela pessoa que estava usando a foto de Regina e se passando por ela? Resolveu pesquisar por suas postagens e foi vendo fotos atuais com pessoas que ela nunca havia visto. Afinal de contas, Regina não era nova na cidade? Foi quando ela viu uma foto que a fez chorar de raiva. Regina e Cami juntas, brindando em alguma festa qualquer. Ao olhar a data, foi uma semana antes de Regina aparecer no Santo Amaro. Tudo havia sido uma armação, desde o princípio. Regina, Cami e Joguí. Beca jurou vingança, mas antes, precisava de Nina.

Mari Veiga

Autora, escritora, um pouco louca e uma mente hiperativa que acha que pode mudar o mundo com suas palavras.

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