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Filme americano – Cap 78

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Nina não conseguia se concentrar na aula. Ficava pensando em Beca e Regina cheia de risinhos e não conseguia entender o que sua bela menina havia visto naquela garota. Depois da situação da manhã quando Regina atrapalhou a conversa das duas, Nina decidiu que não procuraria mais Beca, afinal de contas, ela tinha ido tentar fazer as pazes e foi trocada por uma recém-chegada cheia de más intenções. Nina tinha certeza que Regina não prestava.

– Beca, te encontro lá na arquibancada? – Carla perguntou a amiga um pouco antes de sair para o recreio. O time sempre se juntava no mesmo local
– Eu já vou, amiga, pode deixar – Beca estava terminando de anotar as instruções sobre um trabalho e já ia sair

Carla sumiu pela porta assim que encontrou Juca e Juliana no corredor, todas indo para o mesmo lugar. Era nítido para quem quisesse ver que Juca estava com todas as asinhas dela sendo arrastadas para cima de Carla e era mais claro ainda que Carla estava começando a gostar daquela atenção extra da amiga. Só Juliana que se mantinha por perto, dizia que tinha medo do que sua irmã poderia fazer com a amiga. Juca jurava inocência, mas o sorriso safado nos lábios acabava com o juramento.

– Ei, menina estudiosa, vai passar o recreio na sala mesmo? – Regina foi até a mesa de Beca quando a sala já estava quase vazia
– Estava só terminando umas coisinhas, não gosto de interromper o pensamento – Beca respondeu fechando o caderno
– Posso te acompanhar até o pátio, então? – Regina estava de pé ao lado da mesa de Beca esperando ela se levantar. Aquele sorriso que ela tinha parecia uma droga para Beca.

Após fechar tudo, guardar a caneta no estojo e colocar o celular no bolso, Beca levantou da cadeira e encontrou Regina parada bem próxima dela com o braço esticado como se quisesse que ela encaixasse o dela. Beca não estava acostumada com essas coisas, nunca foi uma pessoa extremamente carinhosa e não sabia como funcionava essa coisa de ser amiga de mulher. A dúvida deve ter transparecido em seu olhar confuso e Regina pegou o braço dela e cruzou com o seu, aproximando também, o corpo das duas. Beca sentiu a pele arrepiar quando Regina alisou seu braço, agora enroscado ao dela. Sorriu sem graça e continuou na mesma posição, não teria coragem de tirar.

Do lado de fora, no pátio quente e ensolarado, o time estava reunido no mesmo lugar de sempre na arquibancada. Carla ao lado de Juca, que fazia um carinho em sua perna, Juliana e Nina no degrau acima, todas discutindo a estratégia que precisavam aperfeiçoar e vendo vídeos dos times que iriam enfrentar no campeonato. Estavam só esperando Beca chegar.

– Gente, acho que a Beca não viu a gente aqui – Carla falou já se arrependendo de ter feito o comentário

Da arquibancada, era possível ver quem vinha descendo as escadas do colégio e as quatro viram quando Beca desceu de braços dados com Regina. Assim como elas, outras pessoas viram e parecia um pequeno vírus que foi correndo de boca em boca entre todos. Uma olhada em volta e muitos já comentavam em sussurros e apontavam com discrição, ou não. No meio de tudo, ninguém percebeu que dois celulares dispararam em direção as duas.

– Mas que porra é essa? – Nina falou não muito alto nem muito baixo

Antes que a confusão aumentasse, Juca levantou junto com Carla em direção a Beca. Elas achavam que se fossem antes de Nina, conseguiriam conter a possível e provável briga que ocorreria.

– Beca, a gente está assistindo a uns vídeos dos times e discutindo algumas estratégias, vem com a gente? – Carla falou enquanto fingia não perceber a situação
– Ah, jura? Futebol de novo? – Regina falou olhando com cara de súplica para Beca
– Sabe o que é, Regina, é que o campeonato se aproxima e nós não temos muito tempo de treino… – Juca tentou parecer calma, mesmo com tanta raiva interna
– Fica comigo hoje, Bequinha, vamos falar sobre algo que não seja futebol, que tal? – Regina novamente falou olhando para Beca

Beca estava dividida entre a sua maior paixão e seu orgulho em não ceder aos pedidos e ir sentar junto com Nina. E por falar nela, apenas Beca percebeu que ela tinha saído da arquibancada e vinha em direção ao grupo que conversava. Tomada por um sentimento estranho, ela quis, de alguma forma, mostrar que ninguém mandaria nela. Apertou o braço de Regina que estava cruzado com o dela, olhou nos olhos de Nina, que mesmo longe, era fácil de encontrar, e falou para Juca e Carla:

– Meninas, eu falo com vocês sobre as jogadas mais tarde no nosso treino, ok? Vou ficar com a Regina no recreio hoje…

Sem falar mais nada, ela puxou Regina e se afastou das duas amigas, consequentemente, deixando Nina no meio do caminho. A goleira apenas assistiu sua namorada ir embora nos braços de outra. E não era qualquer outra, era justamente aquela garota estranha que tinha surgido do nada.

Era sexta, dia de treino e ninguém sabia o que iria acontecer. Após Beca sair andando com Regina em direção aos bancos do outro lado do pátio, Carla e Juca resgataram uma Nina em estado de choque do meio do caminho e voltaram para o lugar de origem. Ninguém falou muita coisa o resto do tempo do recreio, parecia que uma enorme nuvem negra estava sob as quatro. O sinal bateu, todas voltaram para seus lugares, mas nada mais parecia igual.

A aula após o recreio já tinha começado e todos estavam na sala, prestando atenção, ou não, no que os professores diziam, repetiam e escreviam nos quadros negros – que eram brancos. Como algo previamente organizado, muitos celulares acusaram o recebimento mensagem na sala. O grupo dos alunos do colégio no facebook estava recebendo atualizações naquele momento. Parece que a fila andou bem rápido hein. Quem será a próxima vítima? A mensagem vinha acompanhada de uma foto de Beca com o rosto grudado no pescoço de Regina. Na verdade, não era nada disso a foto, apenas o ângulo fazia parecer isso.

Beca gelou, congelou, esmaeceu, teve vontade de chorar e ao mesmo tempo de gritar. Queria sair correndo da sala e se trancar em um banheiro qualquer. Pôde sentir os olhares todos em direção a ela e não conseguia parar de encarar o aparelho, mesmo sabendo que tinha que disfarçar já que era proibido usar o aparelho na sala de aula. A foto e a frase a encaravam de volta fazendo um sinal luminoso ascender repetidamente em sua mente. Quem havia feito aquilo? Ainda encarando a postagem viu que a primeira pessoa a curtir foi Nina. Não aguentou mais, guardou o celular no bolso, pediu licença ao professor e correu o mais rápido que pode.

No corredor, deu de cara com Joguí e Cami rindo e conversando enquanto olhavam para um aparelho de celular. Sabia que tinham sido eles. Um queria se vingar dela e a outra queria se vingar de Nina. Sem pensar, correu na direção deles e os empurrou. Os dois estavam com o corpo relaxado, sem esperar o golpe, e voaram longe deslizando pelo chão do corredor. Não demorou para um inspetor e um professor aparecerem e segurarem Beca pelos braços. Em segundos, ou minutos, ou horas, ela não saberia dizer, ela estava sentada na sala do diretor da escola com os olhos inchados de tanto chorar e com a mente confusa.

– Senhorita Beatriz, o que houve? – o diretor a tratava com excessiva formalidade
– Eles armaram para mim. Postaram uma foto mentirosa no grupo da escola e estão rindo de mim até agora – as palavras saíam entrecortadas pelo choro e pela respiração pesada de Beca
– Tem como provar que foram eles? – o diretor perguntou
– Não preciso de provas, eu sei que foram eles

Beca não tinha provas concretas, até porque o perfil que havia postado a foto no grupo era falso e já havia sido deletado. Não havia rastros daquele caso.

– Senhorita Beatriz, precisarei suspende-la por três dias – o diretor falou já assinando o papel que estava em sua mesa
– Meu pai…ele não pode sofrer por causa disso – Beca falou enquanto chorava sem parar
– Seu pai é um dos melhores professores que tenho e você sempre foi uma aluna exemplar, em todos os sentidos…por isso, e só por isso, lhe darei apenas a suspensão de três dias. Não irei alterar sua bolsa completa e nem seu pai precisa ser envolvido nisso – o diretor era claro, mas duro

Beca continuou na recepção da sala do diretor até o sinal do final do dia tocar. Esperou mais alguns minutos até que o colégio estivesse vazio e só então foi até sua sala pegar a mochila e suas coisas. Assim que surgiu no corredor, com os passos bem lentos, percebeu, pelo silêncio, que o território estava quase vazio, mas ainda haviam vozes vindas da porta de sua sala. Reconheceu Juca, Juliana e Carla. Nada fica escondido muito tempo no Santo Amaro e todo mundo já sabia do que havia ocorrido.

– Beca, finalmente! O que houve? – Juliana perguntou abraçando a amiga, mesmo não sendo muito de abraços
– Eu vi a Cami e o Joguí rindo com o celular na mão, foram eles que publicaram aquilo – Beca falou tentando não chorar mais
– Você quer que a gente mate eles? – Juca falou se aproximando ainda mais

Todas riram, mas sem muita alegria.

– Meninas, não vai rolar treino pra mim hoje. Estou suspensa por três dias, o que foi até pouco né, me perdoem. Não pensei em vocês e nem no time quando perdi a cabeça… – Beca já ia começar a chorar novamente
– Ei, para com isso, Beca! Não quero mais ouvir você falando isso. – Carla estava abraçada na amiga falando quase em seu ouvido
– Eu só vou pegar minhas coisas e ir pra casa, preciso me afogar no chuveiro ou na privada – Beca falou rindo logo depois
– A gente vai treinar por você, pode deixar! – Juca falou enquanto acompanhavam Beca até a sala

As três ficaram olhando e ajudando a menina que recolhia o cadernos e suas poucas coisas e jogava tudo dentro da mochila. Beca não saberia como iria encarar o pai, apesar de que isso só aconteceria a noite, e menos ainda como iria conversar com Nina depois disso tudo. Ela estava certa em dizer que estavam armando contra elas. Ela só errou em desconfiar da Regina, afinal de contas, a menina nova tinha sido vítima tanto quanto ela. Assim que chegasse em casa, ela mandaria uma mensagem para Regina para saber como ela está.

– Meninas… e a Nina? – Beca perguntou assim que fechou a mochila

Ninguém respondeu, apenas se olharam enquanto decidiam, em silêncio, quem contaria para Beca.

– Deixa eu adivinhar, ela foi embora e disse que não iria treinar…chorou e deve estar me odiando pro resto da vida agora – a própria Beca respondeu
– Não é assim, Beca. Ela não te odeia, ela só ficou confusa, chateada… – Juliana falou tentando reverter a situação
– Bom, eu falo com ela depois, ela não quer falar comigo agora mesmo – Beca se despediu das amigas e finalmente saiu daquele prédio horroroso que ela estava.

Mari Veiga

Autora, escritora, um pouco louca e uma mente hiperativa que acha que pode mudar o mundo com suas palavras.

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