Filme americano – Cap 4

O treino acabou uma hora depois. O treinador fez a gente chutar, agarrar e treinar passes. Disse que se nós fossemos as duas primeiras, teríamos que dar o exemplo e mostra que realmente valia a pena manter o time de futebol. Nos poucos minutos que o oxigênio conseguiu atingir meus neurônios eu tentava pensar em uma ideia para atrair mais pessoas ao time. Pensei até em usar aquela historia de “a filha do professor de uma das matérias mais difíceis está pedindo”, mas eu tinha certeza que não poderia oferecer nada em troca. Meu pai era do tipo chato. Mais do que o normal.

Tentei me concentrar no treino e fiz de tudo para fazer um gol nela. A tal da Nina era goleira, como eu já tinha previsto, e era das boas. Fazia tempos que eu não tinha tanta dificuldade assim para colocar a bola na rede. Ela era alta e rápida, pulava certeiro e tinha uns braços absurdamente longos. Ou era algum tipo de sobre-humana que conseguia esticar seus membros. De qualquer forma, eu estava feliz por ela ser do meu time. E mais feliz ainda por pensar que ela já tinha uma ideia enquanto eu não conseguia nem respirar direito.

– Me diz que você tem um plano genial. Não podemos perder esse time, essa chance – foi assim que eu abordei ela no fim do treino
– Ei, calminha. Eu tenho uma ideia, mas não sei se vai funcionar – Nina já estava com a mochila nas costas se encaminhando para o vestiário
– Desculpa. É que eu sempre quis esse time e finalmente ele aconteceu e eu não queria que ele acabasse antes mesmo de acontecer, sabe como é?
– Olha. Eu entendo você. Mas precisa ter calma, vamos tentar o máximo, mas se não der, não deu. Tá? Eu vou tomar um banho e pensar melhor nas ideias, a gente se fala mais tarde.

E assim, Nina, suas pernas e braços extra-longos saíram andando como se estivesse tudo bem. Por um momento, vislumbrei um sorriso em seu rosto e tive vontade de pular em seu pescoço para perguntar como ela podia ser tão calma e tranquila quando o mundo estava prestes a acabar. Pelo menos, o meu mundo.

Segurei as lágrimas, peguei minha mochila, me despedi do técnico e fui pra casa. Ainda precisava terminar alguns exercícios do dever de casa e pensar em uma forma genial de recrutar mais meninas para o nosso time. Não era possível que só nós duas gostássemos de futebol naquela escola enorme cheia de filhinhas de mamãe e papai. Nesses segundos eu odiava estudar em escola particular.

– Como foi o treino? – meu pai perguntou assim que coloquei os pés em casa
– Tão empolgante quanto uma equação matemática
– Nossa. Ganhei um insulto à minha matéria de graça. Deve ter sido bom mesmo!
– Desculpa, pai. Mas foi decepcionante.
– Deixa eu adivinhar: só você e a Nina apareceram?
– Como você sabe?
– O Negão já tinha falado comigo que achava que isso ia acontecer, ele até me pediu uma opinião
– E o que você acha?
– Acho que vocês vão precisar de ótimas ideias para recrutar novas meninas – e com um sorriso sarcástico, ele mostrou que era o responsável por essa coisa toda de recrutamento
– Eu já devia imaginar que tinha dedo seu – com meu famoso mal humor, me retirei do recinto
– Ei! – ele gritou quando eu já estava na porta do meu quarto
– O que?
– Eu sei que vocês vão conseguir

Como ele podia fazer isso comigo? Como ele podia armar uma emboscada dessas para sua própria filha? Me afoguei no chuveiro aguardando uma ideia genial cair junto com a água e me mostrar o caminho ideal par seguir. Quase acabei com a água do mundo e nada aconteceu. Coloquei um calção velho que usava para ficar em casa, uma camiseta do time feminino do antigo clube que eu frequentava, peguei meus livros e cadernos e sentei do lado do computador na mesinha que tinha no meu quarto. Era chato. Eu não conseguia me concentrar em nada: nem física, nem futebol e nem em nada. Só, estranhamente, continuava a rever as pernas grossas e malhadas de Nina enquanto ela agarrava todas as minhas bolas. Ela é realmente boa, pensei enquanto batucava o lápis na quina da mesa e ligava a tela do computador.

E lá estava ela. Como era possível isso? Assim que atualizei a minha página na rede social, tinha uma solicitação de amizade da tal goleira. Na foto, ela estava vestida com roupas de goleira e ria com uma taça na mão. A invejei de leve por ter uma foto tão legal. Sem fazer muita cerimônia, aceitei o pedido e para minha segunda maior surpresa, ela veio falar comigo. Afinal de contas, ela estava se tornando profissional em me surpreender:

– Acho que já sei como podemos fazer isso – esse era o “oi” dela
– Envolve armas, chantagens e obrigações? – tentei ser engraçada
– Não na primeira fase, na segunda, talvez – ela era engraçada
– Então estou pronta para ouvir, ou melhor, ler
– Vamos desafiar os meninos – ela só podia estar louca, quase gargalhei no meu quarto
– Do tipo duas contra onze? Acho que você está superestimando meu talento! – eu sabia que era boa, mas contra dez?
– Não em um jogo, bobinha. Mas em um torneio de embaixadinhas

Eu não sabia se me incomodava ou não por ela ter me chamado de bobinha. Parecia tão menininha que não sabia lidar com tal apelido. Apenas ignorei a frase e continuei.

– Desenvolva sua ideia – eu ainda não tinha entendido
– Toda menina quer chamar atenção. Seja das amigas ou seja dos meninos. Vamos então propor um desafio no recreio semana que vem e mostramos que o futebol vai ser a forma perfeita de chamar a atenção no colégio
– Pera. Vamos ver se entendi. Você quer convencer que o futebol pode ser um esporte popular para as meninas? É isso?
– Isso. O que acha?
– Que não vai dar certo.
– Você é sempre otimista assim?
– Você quer dizer realista né?
– Quer saber? Boa sorte com seu time de uma só…o Negão estava errado sobre você!
– Errado? Sobre mim? Como assim?

Não deu mais tempo. Ela já estava offline e agora eu tinha perdido a única pessoa que estava disposta a montar um time de verdade. Boa, Beca. Em estragar tudo, você tá virando profissional.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.