Filme americano – Cap 3

A semana passou suave. Suavíssima. Não joguei futebol para minha canela se recuperar sem problemas. Fiquei apenas correndo todos os dias a tarde para não perder o pique. Aquele chamado para o time do colégio era a minha chance de tornar aquele lugar um pouco mais convidativo para mim. Mari e Camila insistiam que este teste era o fim da minha inexistente vida social na escola. Me importei tanto que sonhei com este momento durante todos os outros dias.

Meu pai deixou bem claro na conversa de quinta de manhã:

– Se suas notas caírem um décimo, que seja, o futebol na escola está acabado. Combinado?

Ele não entendia que minhas notas poderiam ser todas zero, que enquanto houvesse o futebol na minha vida, estava tudo muito perfeito.

Finalmente a sexta de manhã tinha chegado. Saí de casa pronta para mudar a minha vida. Já carreguei chuteira, caneleira, short de treino e tudo mais. A minha aula acaba por volta de 13h, eu iria almoçar na cantina do colégio, depois ficaria na biblioteca fazendo os trabalhos de casa até a hora mais esperada da minha vida chegar. E tudo ocorreu como esperado. Caprichei na playlist para não precisar conversar com ninguém durante toda a manhã. Mari e Camila nem se aproximaram, sabia que eu estava em clima de concentração total.

Passei o intervalo assistindo os meninos jogando bola e decidi que o primeiro desafio do nosso time poderia ser enfrentar o time masculino da escola. Eles eram muito ruins e nem sabiam disso. Eu estava pronta para dar essa lição. A última aula era do meu pai e para o meu completo azar fui obrigada a prestar atenção de forma radical em todas as suas fórmulas e contas que preenchiam aquele quadro de forma inelegível para mim. Era torturante demais.

Finalmente. Finalmente o nosso sinal de liberdade, o som que nos alivia a vida todos os dias, o sinal do horário de saída. Recoloquei os fones, guardei os livros e cadernos e segui para a cantina. Não podia almoçar muito tarde para não me dar enjoo na hora de correr, comi um sanduíche natural de frango: leve e suficiente para me alimentar. Bebi uma lata de suco e fui para a biblioteca. Logo na porta, vi uma menina que eu nunca tinha visto antes. Pelo visto, ela era um ano mais velha do que eu, mas assim mesmo, nunca a tinha visto. Não reparei em mais nada, apenas que ela usava um meião por baixo da calça jeans. Era fácil perceber porque ele marcava minha calça da mesma forma que na dela. Será que ela também iria se inscrever? E então um momento de pânico tomou-me por inteiro e eu esqueci de pensar no mais importante: se não tivermos meninas suficientes inscritas, não poderíamos formar um time.

Em minha mente, eu saí correndo pelos corredores, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto gritando para todas as meninas se inscreverem no time de futebol feminino. Eu ajoelhava e implorava a todas que passavam por mim e a maioria ria da minha cara e do meu desespero. Mas na realidade, eu só caminhei até uma mesa vazia e encarei os livros com uma expressão triste. Não consegui escrever uma palavra que fosse do meu dever de casa. Apenas aguardei os lentíssimos ponteiros do relógio marcaram 15h20.

Faltavam dez minutos. E os usei para chegar no campo, que ficava atrás do prédio da escola. Coloquei minha chuteira, top e sort. Deixei minha mochila no banco de reservas e me encaminhei para o meio do campo. Lá estava uma bola posicionada bem no centro. O técnico estava enchendo algumas garrafas de água no bebedouro do vestiário e disse que me encontraria ali em breve. Eu estava sozinha por enquanto.

De longe avistei o técnico vindo com alguns coletes no ombro e duas garrafas de água na mão. Na mesma hora pensei: porque só duas? Vou chorar, não chora Beca, vou chorar, não chora Beca, vou chorar, não Beca…

– Você é a Beca, não é? – uma voz veio detrás de mim a ponto de eu saltar de susto
– Jesus, você me assustou – ri sem graça para a menina que tinha visto na biblioteca – sou eu sim e você?
– Pode me chamar de Nina e desculpe pelo susto
– Tudo bem. Veio para o teste?
– Acho que somos as únicas, né?
– Exato. Vocês são as únicas! – a voz grossa do técnico surgiu atrás de mim e de novo levei um susto – desculpe Beca
– Tudo bem, Negão. – esse era o apelido do nosso técnico
– Beca e Nina, já se conhecem?
– Acabamos de nos apresentar, Negão – Nina respondeu antes que eu pensasse em algo
– Ótimo. Você tem uma primeira missão
– Pensei em jogarmos contra o time dos meninos – arrisquei jogar a minha ideia de primeira
– No caso, seriam 11 contra 2? Tá louca, Beca? – Negão foi direto
– Calma, chefe. Ela tá empolgada – Nina me defendeu e riu para mim com o canto da boca. Só agora reparei em seus lábios finos e vermelhos.
– Seguinte: preciso de novas meninas. Precisamos de pelo menos mais nove.
– E nós que temos que procurar? – minhas habilidades sociais não eram de muito valia aqui
– A minha parte eu já fiz, que é formar o time, agora é com vocês
– E como vamos fazer isso? – Nina parecia estar confusa também
– Sejam criativas. E enquanto pensam, duas voltas no campo em ritmo leve. Agora – e com um apito irritante, Negão colocou nós duas para correr

Comecei a pensar em como trazer mais gente para o nosso time. Está certo que ninguém olha naquele quadro de avisos, mas será que tinha mais alguma menina que queria jogar futebol? Perdia em meus pensamentos, diminuí a velocidade das minhas pernas e pude ver a Nina me passando. Ela tinha umas pernas grossas, diferente das minhas. Corria de forma engraçada, com os braços esticados para baixo e com a cabeça virada para cima. Mas ela também era bonita. Tinha um cabelo curto bem preto e ombros largos, devia ser uma boa goleira.

– Já pensou em alguma coisa? – novamente, levei um susto com a Nina falando comigo
– Nada. Você?
– Tive uma ideia, mas conto para você depois do treino, senão o Negão vai apitar de novo e deixar a gente surda!

E ela ainda era engraçada.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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