Filme americano – Cap 2

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A semana ia começar mal. No futebol de sexta, um dos meninos ficou um pouco irritado quando eu disse que ele nunca jogaria melhor do que eu e entrou de trava direto na minha canela. Estava com um ovo roxo enorme. Ovo roxo esse, que eu carregava como uma espécie de troféu. Não dá para entender mesmo.

Fui uma das últimas no corredor e a primeira a receber a melhor notícia dos últimos anos. De longe, acompanhei a secretária do diretor ir até o mural e prender um novo papel. Eles só faziam isso para comunicados importantes. Abri mão de chegar pontualmente na aula do meu pai e fui mancando até o painel do outro lado do corredor e quase desmaiei de alegria quando vi:

Teste para o time de futebol feminino. Na sexta, às 15h30 no campo principal.
Levem suas chuteiras e venham preparadas.

Era mentira. Só podia ser mentira. Eu não estava acreditando que aquilo realmente estava acontecendo. Finalmente eu estava tendo o meu “momento de filme americano” tão esperado. Ok, eu admito, ainda não era um “momento de filme americano”, mas era quase isso. Há anos que eu fazia pedidos, sugestões requerimentos, rezas, macumbas e o que mais estivesse ao meu alcance, para que a escola abrisse espaço para o futebol feminino.

O Colégio Santo Amaro era particular e com uma mensalidade bem salgada para o bolso dos pais. Eu só estudava ali porque filho de professor tem bolsa integral. Todos os dias eu lidava com pessoas que consideravam mais importante o que tinham do que o que eram, e cá entre nós, você não precisa ser muito esperto para perceber que isso não leva a nada.

Voltei mancando, com um sorriso no rosto para a aula do meu pai. Assim que abri a porta e o olhei como se estivesse pedindo permissão para entrar ele me olhou com aquela cara de “em casa você vai se ver comigo”. Eu sabia que ele iria fazer isso e como uma forma de justificar meu atraso apontei para a canela roxa. Ele não aceitava que eu tivesse algum tratamento diferente só por ser filha dele. Aliás, ele me tratava um pouco pior, na verdade.

Não importava nada. Aquela segunda seria a melhor da minha vida. Assisti todas as aulas com um sorriso de canto de boca. Mari e Camila, as duas que se diziam minhas amigas, vieram correndo perguntar o que houve na minha canela e quando expliquei insistiram em dizer que “não entendo o que você gosta tanto em um esporte que te deixa com uma marca dessas”. Acho que elas estavam preocupadas com a beleza da minha canela. É. Também não entendi.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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