Dust to Dust – Capítulo IX – Fevereiro 2017

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Olá pessoas,
Tem música neste capítulo:  All I Want- Kodaline.
Boa Leitura.

 

Os dias perto de Roberta haviam passado rápido, ela me fazia tão bem, me fazia esquecer-me de toda a dor que carrego dentro de mim. Apresentar ela a Zô, talvez me causasse um pouco de arrependimento de inicio, as duas simplesmente se deram muito bem, e adivinha só: elas não paravam de me levar em festas, até em uma casa de stripper me levaram. E eu! Sabe como fiquei estes últimos dias? Com ressaca. Apesar de tudo, elas estavam me ajudando mais do que nunca.

Havia aceitado meu trabalho de lecionar na universidade, hoje seria meu primeiro dia e parecia que seria meu primeiro dia como estudante, meus neurotransmissores estavam fazendo um belo trabalho.

Adentrei a universidade e senti o famoso frio na barriga, fiquei sabendo que Julia estudava aqui, cursava gastronomia e sua mãe lecionava aqui também, em línguas. Julia pareceu bem animada ao me avistar.

– Não acredito Dra. Rodriguez que irá dar aula aqui – Falou com um sorriso no rosto.

– Julia, já falei que não precisa ficar me chamando de doutora, me chame de Fran apenas. – Falei parando ao lado dela.

– É estranho te chamar somente de Fran, mas irei tentar – Pausou e continuou- Como Gustavo está?

– Ele está feliz, tem recebido sua visita, não fala de outra coisa – Falei feliz – E agradeça sua mãe, a mãe de Gustavo está muito melhor depois da visita de vocês, parece que vocês resgataram as esperanças dela.

– Eu agradeço a você, por ter me mostrado que apesar de uma perda dolorosa, podemos ver o melhor numa situação tão difícil. Minha mãe fala que conheceu alguém assim quando tinha minha idade, pediu para que aproveite a oportunidade de aprender com você.

– Modéstia de sua mãe – O toque da universidade soou por entre os corredores, e vi acadêmicos correndo, principalmente Julia.

– Até mais Fran, seja bem vinda – Falou já correndo por entre os corredores.

Respirei fundo e continuei meus passos, fui até a secretaria para ver onde ficava a sala que daria o primeiro dia de aula, me pus a caminhar até a sala, entrei na sala e obtive todos os olhares sobre mim. Estava não muito formal, mas como o figurino mandava: um salto scarpin não muito alto, uma saia justa social que ia até um pouco acima de meus joelhos, uma camisa branca social por dentro da saia, meu blazer eu havia tirado e posto no encosto da cadeira, meus cabelos estavam soltos e lisos, uma maquiagem não muito forte, com óculos de grau, infelizmente não havia me acostumado com as lentes.

– Bom dia estudantes – Falei indo em direção ao centro da sala – Me chamo Franciele Fernandez, sou neurocirurgiã e vou lecionar disciplina de neurologia e neurocirurgia com vocês.

Ao decorrer da aula tudo foi tranquilo, o que me fez respirar mais leve. Os alunos eram ótimos, a maioria me conhecia pelos jornais e vieram dizer o quanto estavam felizes por me terem como professora. O tempo passou tão rápido que nem tive tempo de passar tudo o que queria.

– Bom pessoal, deixamos este conteúdo para a próxima aula. Foi um prazer tê-los aqui.

Alguns passavam e se despediam com apertos de mãos ou com um simples tchau. Permaneci mais alguns minutos dentro da sala, guardando meu material dentro da minha bolsa, estava feliz por estar ali. Estava com a cabeça baixa quando escuto alguém batendo na porta e se aproximando me dando boas vindas.

– Até que enfim estou te conhecendo – Parei o que estava fazendo, permaneci imóvel ao escutar aquela voz que eu tanto temia – Julia não para de falar na doutora de Mauricio e de Gustavo.

Ouvi passos e pararam bem a minha frente, eu permaneci imóvel de cabeça baixa. Isso não poderia estar acontecendo. Porque justamente agora? Eu estava conseguindo esquecer este buraco em minha alma.

– Olá Catarina – Falei ao levantar minha cabeça e encarar aqueles olhos novamente.

– Fra … Fran.. – Catarina olhou para meus olhos e gaguejava meu nome, seu rosto ficou num misto de surpresa e alegria?

– Sim, sou eu Franciele. – Falei engolindo em seco, tentando segurar minhas estribeiras.

– Meu Deus do céu – Falou dando a volta na minha mesa e me surpreendendo com um abraço, um abraço apertado cheio de saudade.

Demorei alguns segundos ou minutos talvez para perceber o que estava acabando de acontecer, não a abracei de volta. Meu corpo estava em alerta, queria abraçar ela novamente, mas meu cérebro não mandava a informação, meus braços ficaram imóveis.

– Você não tem noção do quanto eu te procurei – Falou se desvencilhando do abraço com os olhos lacrimejados. – Eu te procurei por anos. Tenho tanto a dizer a você, o quanto sinto muito, se eu pudesse mudaria tudo.

– Você nem ninguém consegue voltar no tempo senhorita Catarina – Falei terminando de guardar minhas coisas mais rápidas desta vez. – E devo-te falar que foi muito bom você não ter me encontrado enquanto me procurava. – Virei os calcanhares e sai o mais rápido que pude dentro da sala, quase corri quando avistei meu carro no estacionamento. Entrei nele, o liguei e dirigi sem rumo, apenas queria estar longe da universidade, longe das lembranças, longe de Nina.

Roberta me ligara algumas vezes e todas as ligações recusei, então ela me mandou uma mensagem.

“Onde você está? Porque não me atende?”

Li a mensagem e larguei o celular no banco do carona, havia parado o carro, e não sabia o porquê de ter dirigido até ali, até o maldito lugar onde beijei Catarina a primeira vez, na Vista Chinesa. Deixei que um suspiro escapasse por entre meus lábios, desci do carro e me encaminhei para a vista maravilhosa daquele lugar.

Meu celular apitou mais uma vez, era Roberta novamente.

“Aquela menina Julia me procurou no hospital hoje, perguntou como você estava, pois você nem havia percebido que ela gritara para você. Que te viu saindo às pressas de dentro da universidade chorando”.

Liguei para Roberta, enquanto caminhava para o lugar onde há 17 anos eu havia beijado Nina.

– Onde você está? O que aconteceu Franciele? – Roberta perguntava sem respirar.

– Eu vi ela Roberta – Me silenciei, enchi os pulmões de ar e continuei – Eu vi Catarina.

– Onde você está? – Roberta perguntou

– Onde nos demos o primeiro beijo – funguei um pouco o nariz e limpei as lagrimas – Na Vista Chinesa.

– Não saia daí, estou a caminho. – Falando isto desligou o telefone.

(PLAY)

All I want is nothing more

To hear you knocking at my door

‘Cause if I could see your face once more

I could die as a happy man I’m sure

Tudo o que eu quero é nada além

De ouvir você bater em minha porta

Pois se eu pudesse ver seu rosto, só mais uma vez

Poderia morrer um homem feliz, tenho certeza

 

Sentei-me no chão, juntei as pernas para perto de meu peito e as abracei. Minhas lágrimas caiam descontroladamente, os sentimentos estavam tão vivos dentro de mim, sentimentos dos quais eu tranquei no lugar mais escuro do meu ser.

 

When you said your last goodbye

I died a little bit inside

I lay in tears in bed all night

Alone without you by my side

Quando você disse seu último adeus

Eu morri um pouco por dentro

Eu deito na cama chorando todas as noites

Sozinho, sem ter você ao meu lado

 

Catarina estava de volta, e eu não sabia como agir. Meu coração estava descompensado, a dor estava de volta e veio com mais força desta vez. Eu não estava preparada, não agora. Talvez eu nunca estivesse preparada para ver Nina novamente.

But if you loved me

Why did you leave me

Take my body, take my body

All I want is and all I need is

To find somebody

I’ll find somebody like you

Mas se você me amava

Por que me deixou?

Tome meu corpo, tome meu corpo

Tudo o que quero e tudo o que preciso

É achar alguém

Eu acharei alguém como você

 

Sentir Catarina tão próxima de mim outra vez, seus olhos brilhantes, sua pele bronzeada, seus cabelos negros caídos, parecia que eu estava a vendo quando ela chegou na recepção da pousada. Seu corpo quente, seus braços em volta de meu pescoço naquele abraço. Não podia ser. Eu não podia lidar com isto agora.

‘Cause you brought out the best of me

A part of me I’d never seen

You took my soul wiped it clean

Our love was made for movie screens
Pois você trouxe vida ao melhor de mim
Uma parte de mim que nunca tinha visto
Você pegou minha alma e a limpou
Nosso amor parece feito para as telas de cinema

Eu a amava ainda, o sentimento estava vivo dentro de mim, no entanto, a dor também estava, e a dor era maior que o amor. Amar Catarina sempre fora assim, a amava tanto que doía.

But if you loved me

Why did you leave me

Take my body, take my body

All I want is and all I need is

To find somebody

I’ll find somebody like you

Mas se você me amava

Por que me deixou?

Tome meu corpo, tome meu corpo

Tudo o que quero e tudo o que preciso

É achar alguém

Eu acharei alguém como você

Roberta havia chegado. Ajudou-me a levantar e me abraçou forte.

– Vem Fran, vou cuidar de você. – Falou me puxando para dentro de seu carro, pude avistar Zô no meu carro me oferendo um olhar cheio de ternura.

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