DUST TO DUST – CAPÍTULO VII – JANEIRO 2017

DUST TO DUST – CAPÍTULO VII – JANEIRO 2017

Estava já no aeroporto esperando Roberta desembarcar enquanto observava o

movimento intenso. Muitas pessoas circulavam no aeroporto, muitos com sorrisos nos

lábios. Fui caminhar um pouco e olhar as vitrines das lojas, entrei em uma que tinha

livros. Fui para as prateleiras e avistei uma coluna que tinha Paulo Coelho, comprei

“The Alchemist”, paguei e sai da loja, logo de longe reconheci aquelas curvas e o

cabelo cor de fogo, era Roberta.

– Roberta?! – Falei sorrindo.

– Fran! – Saiu correndo vindo me abraçar.

– Chega né Roberta, estão todos olhando sua louca – Falei envergonhada tentando me

desvencilhar do abraço apertado.

– Estou com saudades suas, borrão branco. – Fez uma pausa e me analisou – Está

sempre com este corpão?! O tempo só te fez bem.

– Acho que você está errada – Falei fazendo careta – Mas obrigada. Você não muda

sempre linda.

Começamos a caminhar indo em direção ao estacionamento, coloquei suas malas no

meu carro e logo tomamos caminho para Copacabana. Durante o trajeto Roberta me

contava sobre suas aventuras românticas em Cuba, me falou que minha mama estava

com saudades e que era pra ir ver ela. Falou do hospital onde fizemos nosso internato e

residência, que ela continuara lá junto com Juaréz.

– E você como está? – Me perguntou enquanto entravámos no elevador.

– Eu estou bem, não há do que reclamar sobre minha vida aqui no Rio.

– Mas você continua com aquela cara – Roberta falou encarando meu reflexo no

espelho.

– Infelizmente eu nasci com ela e morrerei com ela – Falei sorrindo saindo do elevador.

– Sempre delicada como uma rocha. – Falou revirando os olhos.

Abri a porta do apartamento adentrei indo para segundo andar para colocar as malas no

quarto de hospede.

– Quando você ficou tão bem de vida para ter um apartamento desses? – Roberta gritava

da sala.

– Desde que comecei a trabalhar e investir meu dinheiro – Falei descendo as escadas. –

Ah, pode ficar a vontade e beber meus uísques.

– Não começa branquela- Roberta já estava com o copo na mão indo para a sacada.

– Estava com saudade tua – Falei chegando ao lado dela – Amo este lugar, mas sinto sua

falta sabe?!

– Eu sei, por isto estou aqui. – Falou me observando – Você sempre gosta destas vistas

do alto né. Aliás, este apartamento é a sua cara.

– É né – Falei sorrindo tomando um gole do uísque que Roberta havia pego.

– Como está o coração?

– Batendo muito bem, levando sangue e oxigênio para meus órgãos. – Falei devolvendo

o copo a ela.

– Esqueci que estava falando com uma Chefe da Neurologia de um dos hospitais mais

renomados do Rio de Janeiro. – Roberta falou com desdém.

– Roberta! – Falei.

– Ok?! Quero saber como está seus relacionamentos.

– Não tenho relacionamento.

– Entendi – Fez uma cara pensativa – Você não tem saído com ninguém?

– Não. – Respondi e me joguei no sofá.

– Por quê? O que te impede? – Roberta sentou ao meu lado.

– Nada, apenas não tenho tempo para pensar em relacionamentos agora.

– Estes prêmios ai na sua estante – falou apontando para os Nobel de Medicina – tomou

seu tempo há alguns anos, hoje não toma mais.

– Mas foi graças ao meu esforço que os consegui. O hospital me toma um tempo grande,

ainda recebi um convite para lecionar na UFRJ no oitavo período de medicina. Onde

conseguirei tempo para ter um relacionamento? – Falei revirando os olhos.

– Você quer que eu te diga como você consegue um tempo? – Roberta falou e se virou

pra mim – Então vamos lá. Lembra-se de quando viemos para o Brasil pela primeira

vez…

– Ok Roberta, já entendi- Cortei ela.

– Vou continuar Franciele. Você arranjou muito tempo para Catarina, que até cogitou

em deixar a faculdade e vir para o Brasil, você lembra não é?

– Já vi que não dá pra conversar com você – Falei indo em direção ao bar.

– Fran, já faz quantos anos? Uns 15 anos já? O que aconteceu com você? Onde está a

Fran que não se deixava levar pelo amor? Que sempre estava de bom humor? O que

aconteceu com você?

– Esta Fran não existe mais Roberta, esta Fran morreu no exato momento em que

Catarina me deixou. – Encho o copo de uísque e bebo.

– Fran?! – Roberta fala se aproximando me envolvendo em um abraço – Eu sinto muito,

mas você tem que superar.

– Eu sei, mas não consigo. Eu já tentei com todas as minhas forças me apaixonar, mas

quando vi que era tudo em vão, foquei no meu trabalho e apaguei esta parte do meu

passado – Falei deixando rolar lágrimas pelos meus olhos.

– Ok. Não vamos falar disto. Vem cá – Roberta falou e fomos novamente para o sofá.

O resto do dia se passou normal, Roberta não falou mais em Catarina e eu também não

quis dar continuidade á aquele assunto.

Fomos à praia, caminhamos um pouco e logo retornamos para o apartamento. Roberta

resolveu cozinhar e me trazer de volta o gostinho cubano na comida. Assistimos um

filme e dormimos no sofá, acordei era quase três horas da manhã, com dor nas costas.

– Ro? – cutuquei minha amiga – Roberta, acorde! – Cutuquei mais um pouco – Vamos Roberta, meu plantão começa as sete.

-Humm – Roberta resmungou algo e levantou-se e foi para o meu quarto.

– Hey, seu quarto não é aqui – Falei.

– Sua cama é enorme, vou dormir aqui. – Falando isso se jogou na cama.

-Tudo bem – Falei rindo. Estava com saudade dela, talvez ela me fizesse enxergar a

vida de um modo diferente agora, me fizesse ver que posso amar outra pessoa, que

posso deixar o passado para trás e perdoar Catarina. Deitei na cama com estes

pensamentos e logo peguei no sono.

Acordei cedo, tomei uma ducha e desci para preparar o café da manhã. Já estava

sentada, tomando um café e lendo o jornal quando Roberta apareceu.

– Porque não me acordou? – Roberta pergunta sentando ao meu lado.

– Você estava dormindo.

– Deveria ter me acordado, sabe que odeio acordar depois de você.

– Você não muda né?! Porque não coloca uma camiseta ou shorts antes de comer?

– Porque você me conheceu assim branquela. – Roberta falou ao tomar seu café – O que

temos para hoje?

– Meu plantão começa daqui a pouco, você pode se sentir em casa, ir na praia ou sei lá –

Falei me levantando.

– Não mesmo, vou ao hospital com você. Quero dar um oi para o professor Chavez.

– Então se arrume, não gosto de atrasos.

– Arrogante que só. – Roberta falou rindo e subiu as escadas.

Após 15 minutos de ela estar se arrumando e eu bufando no andar debaixo, ela estava

pronta. Não pegamos transito algum, então chegamos rápido. Roberta estava com um

salto não muito alto preto, um vestido colado em seu corpo, também na cor preta,

colocou seu jaleco branco e me acompanhou. Todos olhavam com curiosidade, Roberta

era linda e sexy, chamava a atenção de todos, mesmo não querendo.

– Você tinha que vir assim? – Perguntei – Todos estão olhando.

– Relaxa Dra. Rodriguez! Eles estão com inveja sua, isso sim. –Roberta falou rindo.

– Vem comigo, vou deixar minhas coisas na minha sala e logo descemos para chamar os

internos.

Fizemos o trajeto em meio de uma conversa distraída, explicava as coisas do hospital,

como funcionava o programa de internos e residentes, onde ficava a sala de Chavez,

Roberta também era da área da cardiologia, então se animou ao saber que Chavez a

deixou trabalhar comigo e com ele enquanto estava de visita no Brasil.

– Antes de irmos quero passar aqui – Apontei para um dos quartos – Bom dia!

– Olha quem veio – Silvia chamava a atenção de Carlos e Julia – Oi Doutora, como está

a senhora?

– Eu estou bem, e vocês como tem passado? – Perguntei sorridente – Esta aqui é

Roberta Hernandez, ela é minha amiga, veio passar um tempo aqui no Brasil, é doutora

também, na área de cardiologia.

– Hola! – Roberta falou.

– Oi Fran! – Julia se virou e veio me dar um abraço – Prazer Dra. Hernandez.

– Olá menina – Roberta falou lhe estendendo a mão.

Conversamos um pouco, verifiquei o estado de Mauricio, que nada havia mudado,

estava ele inerte naquela cama. Me despedi deles e seguimos pelo corredor, quando a

voz de Julia nos fez parar.

– Ainda bem que alcancei vocês! – Falou ofegante – Fran, queria te dizer que já

conversei com minha mãe sobre o transplante de Maurício e ela adorou a ideia, disse

que ia me ajudar com tia Silvia e o tio Carlos, ela acabou de sair daqui.

– Que noticia boa Julia, devo falar que o caminho será complicado certo? Vá com calma

com Silvia e Carlos. – Falei sorrindo.

– Minha mãe quer muito te conhecer, e conhecer Gustavo também.

– Ah, claro, o Gustavo. – Falei olhando pra ela. – Tem ido ver ele?

– Eu posso? – Perguntou curiosa.

– Sim, deixei sua entrada liberada a pedido de Gustavo. Agora tenho que ir. Tchau.

– Tchau Fran, obrigada- Escutei ela gritar enquanto Roberta e eu se dirigia ao elevador.

– O que foi Roberta? Não falou nada até agora – Perguntei estranhando seu silêncio

repentino.

– Nada não, estava pensando só. Esta menina me parece familiar você não acha?

– Também tive esta impressão, mas aqui parece que todos tem semelhança – dei de

ombros.

– Pode ser, mas acho que sei quem ela me lembra – Falou se virando pra mim. A porta

do elevador abriu e lá estavam os três internos a minha espera.

– Bom dia Doutores, esta aqui é minha amiga e cirurgiã cardíaca Dra. Hernandez.

– Prazer Dra. Hernandez – Os três responderam em coro.

Roberta apenas acenou com a cabeça e continuamos nosso caminho.

Evelyn Benedett

Gaúcha e sagitariana. Socorrista. Leitora e escritora (ou tento rsrs)

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