De um flat na Barra, no carnaval

A Cá Oliver mora em Astúrias, na Espanha e é seguidora do nosso Grupo. Ela mandou este conto para o nosso email e hoje ela é a nossa autora convidada.

Só mesmo estando louca uma baiana traz trabalho pra casa na semana do carnaval.
Mas eu posso me justificar, faz um mês que tudo acabou e a minha mente quando não está concentrada, está pensando você.

O Farol da Barra vai se enchendo aos poucos. Jovens. Muitos jovens! Como nós. E o que eu não entendo é que um dos motivos pelos quais desistimos de tentar foi essa juventude toda que sempre correu nas minhas veias. E agora olha, eu estou aqui sentada no meu computador tentando escrever uma crônica pra minha coluna no jornal. É quinta de carnaval, o sol já foi. E mesmo sem termos tido tempo na nossa relação pra assistir a tal fenômeno juntas, é só em você que eu penso quando o vejo.

O Farol tá lotado, Tuca Fernandes toca o sinal “Não vejo a hora de te ver novamente e ficar com você…”. Meu interfone toca é o Max, me diz que toda a turma está no Bar da esquina e me conta que você anda rondando pela zona. Me ordena que desça e eu me nego.

Tão perto e tão longe. Me inclino sobre a varanda tentando lhe achar no meio de um milhão. Alguém vem cantando lá atrás no trio “quanto tempo tenho pra matar essa saudade…” O som quase se confunde com a música no bloco de Tuca que acabou de passar: “…Ê saudade que bate no meu coração…” S a u d a d e! Em pleno carnaval e ninguém sabe cantar outra coisa. É um complô de Salvador.

A ideia de lhe ter por perto volta a rondar minha mente. Mas a gente terminou e só te ver não serve pra nada. É melhor ficar por aqui e acabar a minha crônica. Me dou conta que só escrevi uma frase. Sai da minha cabeça ou eu vou perder meu emprego!

Me sento outra vez e me levanto de repente, troco de roupa: Short, camiseta e chinelo; uma olhada no espelho que me diz com a maior de todas certezas que sou sempre tão sua! Corro pra porta e ah, esqueci o perfume, Poeme da Lancome. Mais sua impossível! Só faltou uma rosa amarela e um violão pra Buarquizar o encontro.

Desço decidida, até um pouco prepotente, confesso. As mãos geladas. Me bato com um baleiro na saída do prédio, compro Tridents e Gudang. Vou ao seu encontro porque está claro que eu sei onde você vai estar! No lugar de sempre. Lhe vejo. Respiro…1, 2… Tem uma morena com o braço ao redor da sua, digo, minha cintura!! Me sinto estúpida, dá vontade de correr pra casa e chorar.

Mas alguém se aproxima e começa a me cantar. Eu nem olho direito pra cara, mas não impeço que fique ao meu lado. Sinceramente eu preciso de alguém ao meu lado nesse momento. Você me vê! Eu percebo você me observando, encaro com olhos grandes, cara de perdida e você sorri pra mim, eu devolvo o sorriso, ainda que sem graça. E você se libera do braço dela e anda até mim. Enquanto você se aproxima minha mente pensa mil coisas pra te dizer, ou melhor, pra te convencer a não voltar pro lado dela, mas espero você falar. Eu sou mais de pensar. E lembro que por pensar muito sem falar, talvez tenha te perdido.

Então você chega e antes de que eu possa falar algo, você me abraça. E eu me rendo, deito a minha cabeça no teu ombro e te abraço forte. Tão sua…

Gil passa na hora comandando o expresso 2222 me dando boas ideias, tipo “vamos fugir pra outro lugar, baby…”

E a partir daí eu tenho um plano!

Você me solta quase que sem querer. Você sempre deixou claro que me queria de todas as maneiras que pôde. Você se movimenta como se fosse voltar pra lá, para o lado daquela. Eu imagino o braço dela na sua cintura e não gosto.

– Não vai!

Em voz quase baixa te peço. O barulho não te deixa escutar e eu me aproximo do teu ouvido, aproveito pra matar a saudade do teu cheiro e repito:

– Não vai, não!

Você me diz que não que ir, mas que precisa. Meu orgulho me pede silêncio absoluto, mas já faz um mês de silêncio e eu devo desobedece-lo. Seguro o teu braço, olho nos teus olhos. Você me olha de volta, mas não aguenta encarar e desvia o olhar. Você espera o que eu vou te dizer e outra vez eu quase que não consigo.

A garota morena se aproxima de nós e eu não gosto da maneira que ela me olha. Você me diz até logo e eu penso na crônica, na falta que você me faz e no carnaval trancada no flat.

Faço sinal negativo com a cabeça. Você sorri e me pergunta o que houve. Eu olho pra morena do teu lado, outra vez te segurando pela ‘minha’ cintura.

Você pede que ela te espere lá com os seus amigos. Ela vai sem achar nenhuma graça.
E você repete:

– Então o que houve?

Pego a tua mão levo sobre o meu peito esquerdo. Você não entende, mas bem que gosta. Você o nota batendo rápido e me pergunta se estou bem. Meus olhos se inundam de lágrimas e você se assusta sem entender. Eu me aproximo do teu ouvido e confesso:

– Ele tá assim porque você tá aqui. Ele sempre fica assim quando você tá por perto. Porque ele te ama. Eu te amo. Volta pra mim, vai!

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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