Cartas à você – Cap 1

Temos autora nova no site. A Inna Ferreira será responsável pela história “Cartas à você”, que começa agora mesmo.

Todas as terças por aqui. Aproveitem, compartilhem, opinem e comentem. Boa leitura 🙂

 

Andei a procura de uma definição de sempre – eternidade, infinito, intemporal… Tudo me pareceu insuficiente para dizer que sempre era estares aqui comigo e sonhar-te constantemente até ao fim dos dias.

Sempre era olhar-te longamente e apaixonar-me por ti todos os dias. Era sentir-te em mim e perder a noção de tempo. Era amar e ter a certeza desse tudo como sopro de vida. Porque o Amor não se mede em dias, o Amor não pertence ao tempo. O Amor vem de dentro, desse fogo que arde no peito ao centro, num coração que estremece feliz ao ouvir o teu nome. Sempre era este desassossego constante, esta vontade de te chegar mais depressa e mais intensamente. Sempre era saber que existias tal e qual eu te sonhei antes de nos termos encontrado. Porque o Amor não tem peso nem medida, o Amor acontece continuamente no que sabemos ser.

O Amor é a força inesgotável com que te vivo mil vezes entre um aqui e agora. Era querer viver eternamente para estar mais tempo contigo.

Era dizer-te que te amo cada vez mais quando mais é impossível. Era este crer em que te desenhava eterna, embrulhada nos meus braços todas as noites de mil vidas. Sempre era o tempo verbal de todas as vezes que te dizia “Eu te amo”.

Mas a vida não é para sempre. E eu descobri da pior maneira possível, atestadamente, comprovadamente que a vida não é para sempre. Que a felicidade se esvai como água entre os dedos. Que as pessoas se vão, mas que a dor impera, se faz presente a todo instante que me vejo sem você.

E eu me vejo sem você todo o tempo. A cada noite não dormida, a cada nascer do sol, tudo. Tudo me faz sentir a falta que você me faz.

Essa agonia incessante, avassaladora. É um querer mais que bem querer. É andar solitária. É um contentamento descontente. É perder. Perder o tino, o rumo, o chão. É o dilacerar de um coração que já não quer mais nada. Que não resiste, que não luta, que não quer viver.

Essa sou eu sem você. Desesperada, desnorteada, dilacerada.

Eu só queria você aqui, me dizendo coisas bobas pra me tirar a concentração, tentando fazer cócegas, mesmo sabendo que eu nunca às tive. Eu só queria a sua leveza e o seu sorriso de volta a iluminar todas as minhas manhãs.

Eu queria não lembrar. Lembrar dói. E eu não agüento mais a dor. Saber que você não estará aqui pra ver a sua filha nascer, dói ainda mais. E doerá nela também. Pois não somente por mim você é lembrada. Ela só saberá de você pelas minhas histórias, pelas fotos na mesa, pelos jornais antigos. Mas não será você. Será apenas um reflexo do que você foi. Mas sei que ela também vai te amar.

Às vezes me pergunto o quanto ela se parecerá com você. Se fisicamente ou o seu gênio tranqüilo e o seu positivismo de que tudo acabaria bem.

Eu simplesmente amava tudo em você. Desde as manias, até as juras de amor sob a luz da lua. E mesmo que eu sempre dissesse que não gostava de surpresas, você no fundo sabia que eu amava ser surpreendida por você.

Lembro-me aquela vez em que quase fomos pegas. O pavor me dominando, minhas mãos e pernas tremendo e você com sua tranqüilidade me segurando entre os braços e me levando para a sala. Eu nunca tinha te falado isso, mas aquela noite foi como se eu nascesse de novo. O cenário, a música, a comida, cada detalhe pensado, você era perfeita. E eu me sentia perfeita ao seu lado. Sem medo, segura, invencível, inabalável.

Mas aí então você se foi. E eu nem tive tempo de dizer tudo o que sempre quis. E eu nem tive tempo de viver tudo o que sempre quis com você ao meu lado. E você nem pode saber que seria mãe.

Eu só queria ter tido mais tempo. Só um pouco mais de tempo. Ou então ter ido junto. De mãos dadas, lado a lado como sempre estivemos. Mas eu não fui. Você soltou a minha mão. E mesmo assim eu só queria ter você aqui.

Lembro-me a última carta que você me mandou. Ainda tenho todas as cartas, presentes, tudo. Tudo que me faça ter você aqui perto de mim. Eu não posso mais chorar, não posso mais tremer e nem me descontrolar. Mas toda vez que leio, releio sua última carta eu simplesmente desabo.

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“Pediste-me para nos escrever, mas nos momentos em que as mãos falam e a junção das peles respira a completa simbiose dos sentidos, fogem-me todos os significados e emudeço neste pleno diálogo de tato e sabor.

Muito para além das palavras, solta-se um riso feliz do silêncio murmurante dos corpos no urgente e total desvendar de segredos só nossos, que nos toma e conduz numa dança em rodopios onde cada volteio retrata o êxtase da erupção dos rios que correm de nós.

Passeias-te na minha pele, envolves-me na doçura dos teus lábios, desvendas-me a cada movimento dos teus dedos e tomas-me completa, enquanto eu me absorvo de ti e gravo cada instante e cada detalhe para nos reviver a cada segundo que passa.

Numa linguagem sem vocábulos que a consigam traduzir, envolve-nos suavemente o manto da idílica pintura perfeita onde repousa o nosso Universo de Sentir, num “Para Sempre” imenso de Amar e Querer.

Os olhos em sintonia escrevem palavras que traduzo num “Amo-te” profundo, sem limites ou condições. A infinita e absoluta certeza da união imensa que nos liga e da afinidade que alcançamos reveste-nos de uma força imbatível, onde espaço, tempo, geografia e qualquer obstáculo são meros pormenores que apenas nos conseguem aproximar ainda mais. Sinto-nos plantas coladas, de raízes que se misturam e se afundam, crescendo até ao ilimitado horizonte da imensidão de Sentir. Envolvidas, sem contornos, misturadas em nós, perdemo-nos do mundo em alegrias desenhadas nos sorrisos, nas respirações ofegantes que sussurram aos ouvidos, nos aromas âmbar dos néctares de Amor.

Descobres-me sempre! E na minha alma desenham-se figuras de noites frias de inverno onde me aqueço no teu abraço e te envolvo no conforto do calor do meu corpo, numa aconchegante morada de ternuras e afeto, povoada de todos os ontens e dos amanhãs que ainda iremos viver.”

Mas não tivemos mais amanhãs. E não mais teremos.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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