Cap 22 – Verdades não ditas e ditas

“Olha como o filho deles é bonitinho! Está solteiro o menino!” – Tati já desconfiava que o comportamento da mãe durante o dia não iria ser de graça. Descobriu o preço. Aquilo acabou com Tati e ela estava com vontade de gritar, xingar e sair correndo. Mas antes de tudo, queria (e precisava) falar com Beta, não sabia como a namorada ia reagir aquela ação da mãe dela. Sentou, cumprimentou a todos e na primeira deixa pediu licença e foi ao banheiro, com o celular no bolso.

Ligou para sua Tata que atendeu com uma certa surpresa já que não esperava uma ligação dela no meio do jantar. Atendeu a namorada enquanto continuava deitada na cama do quarto, olhando para o teto e escutando sua música.

“Saiu correndo do restaurante e está embaixo da minha janela querendo subir para fazer um sexo louco comigo?” – era muito amor esse relacionamento né?
“Quem dera, com certeza seria melhor do que fugir para o banheiro para falar com você!”
“Fale minha criança, o que você quer da sua namorada aqui?”
“Na verdade quero te contar uma coisa, logo, para não dar problemas depois.” – Tati estava com um tom de voz muito sério e até irritado para o normal dela.
“O que foi? O que aconteceu?” – Beta sentou na cama e diminuiu ainda mais o som, estava preocupada com o que estava acontecendo.
“Caí em uma armadilha da minha mãe, ela me trouxe nesse jantar para me apresentar um filho solteiro da amiga dela da igreja.” – Falou o final da frase diminuindo ainda mais o volume da voz. Estava com medo do que sua namorada iria pensar disso tudo. Ela estava mega irritada.
Uma gargalhada de Beta assustou Tati que não entendeu nada.
“Meu amor, relaxa! Isso é normal! Ou você acha que a minha mãe nunca me apresentou a meninos na esperança de que eu fosse desistir de mulheres? Relaxa, só por favor, não se apaixone por ele, pode ser?” – Era diferente para Beta que já estava neste caminho há algum tempo!
“Você tem certeza que não está puta comigo? Nem com ciúmes?” – Tati ainda estava achando aquilo tudo meio estranho.
“Tenho meu amor, lógico! Isso é completamente aceitável com a sua mãe desconfiando da gente!”
“Se você está bem, eu vou relaxar então tá? E prometo que te conto tudo depois que eu sair daqui, espera eu chegar para dormir?”
“Espero sim! Estou escutando música e deitada aqui no quarto esperando você chegar!”

Desligaram o telefone, e voltaram para o que estavam fazendo, Beta com sua música alta e o teto a encarando e Tati para a mesa do terror da noite. Antes disso fez questao de mandar uma mensagem para a namorada: “Ninguém, nunca, vai me tirar de você. Te amo minha Tata”. Beta ficou com aquela cara de boba enquanto lia a mensagem, e preferiu não responder, até porque Tati estava voltando para a mesa já. Tati guardou o celular no bolso, respirou fundo e seguiu em frente, tinha uma noite inteira pela frente e essa noite estava prometendo grandes eventos!

A mãe de Tati mudou de lugar de uma maneira que deixasse ela do lado do tal menino, que depois descobriu se chamava Gabriel, ou como a mãe chamava, Biel. Ele já tinha terminado o colégio e estava estudando em casa para passar para uma faculdade dessas importantes. O sonho dele era fazer direito, mas para seguir a profissão do pai, estava estudando engenharia, e pelo que Tati percebeu estava tão sem vontade de estar ali, como Tati. Os dois não abriram a boca e deixaram as mães falarem de toda a história deles, daquele jeito que toda mãe gosta mesmo.

Pediram o prato, beberam um refrigerante (quando a vontade era beber alguma coisa bem mais forte) e ficaram horas olhando para o teto fingindo que estavam super interessados em tudo que os pais estavam falando, e por um momento que Tati resolveu prestar atenção, as mães já estavam discutindo nomes de crianças, e antes que Tati se irritasse mais ainda, ela preferiu esquecer tudo isso e continuar em um mundinho paralelo onde ela lembrava da noite passada na praia com suas amigas e na tarde com sua namorada mais linda do mundo.

Foi acordada dessa outra realidade por alguém cutucando sua perna, e quando parou para olhar, viu Gabriel, ou Biel, olhando de lado para ela. Ficou nervosa, ficou com medo dele estar tentando inciar algum contato com ela. E foi aí que ele sussurrou baixinho: “Confia em mim!”. E antes que ela pudesse pedir alguma explicação ele fez um gesto para que todos prestassem atenção nele e aí falou o que fez Tati ter vontade de voar no pescoço dele.
“Tem problema se eu e a Tati formos andar lá na rua um pouco para conversar?”
Em uníssono as duas mães soltaram gemidos de satisfação fofos, aquele famoso ouuunnnnn o que deixou, novamente, Tati bem irritada.
“Vamos?” – Gabriel virou para ela e estendeu a mão esperando que a menina respondesse, ela ignorou e foi aí que ele chegou mais perto com um olhar matador e sussurrou novamente: “Confia em mim e vem!”
Tati cedeu, afinal de contas seria mais fácil dispensar um menino do que duas famílias que estavam se conectando espiritualmente na mesa.

Foram em silêncio até o lado de fora do restaurante e quando chegaram na rua e foram atingidos por aquela brisa leve de uma noite gostosa como aquela, Gabriel olhou para a mesa e foi andando com Tati até sair do campo de visão das famílias.
“Nem adianta querer muito papo, não estou muito afim não!” – Tati já deixou claro sua posição, não queria problemas.
“Então você também está aqui obrigada?” – Gabriel surpreendeu Tati com um tom de voz bem diferente do que usava lá dentro, parecia até mais velho ali fora, meio largadão.
“A armação foi para os dois então?”
“Pelo visto sim! Qual é o seu problema? Drogas? Estudos? Bebidas?”
“Vamos dizer que tenho andando com uma pessoa que minha mãe não aprova. E o seu? Crimes? Gangues de rua?” – Tati já estava fazendo piada com a situação, afinal, não tinha escolha mesmo.
“Estudos. Tento convencer a eles de fazer 1 ano de mochilão nos EUA, mas eles me querem em uma faculdade! E acham que uma menina direita vai me colocar juízo na cabeça. Então quer dizer que você está namorando um criminoso?”
Tati se sentiu estranhamente conectada com Gabriel e teve vontade de contar a verdade pra ele, pensou, ficou em silencio, pensou em desculpas e quando ele pressionou repetindo a pergunta, resolveu ceder.
“Estou namorando com uma menina linda e perfeita, mas que é menina. Minha mãe ainda desconfia e já está me arrumando namorados, o dia que ela souber, vai me exilar na África.”
Os dois deram gargalhadas com a frase de Tati, ela era engraçada quando queria.
“Estamos um pior que o outro!”
Gabriel olhou pra trás para confirmar que não estavam vendo, tirou um cigarro daqueles de menta do bolso, acendeu e deu uma tragada para Tati. E ficaram ali fora conversando sobre a vida deles como se fossem melhores amigos desde sempre. O engraçado é que se conheciam há poquíssimas horas, mas já sabiam seus segredos mais escondidos, o que os caracterizava como melhores amigos, certo?

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

Este post tem 2 comentários

  1. elna

    outro conto fantástico!

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