Capítulo 2 – Lírios

Capítulo 2 – Lírios

            Quando as mulheres entraram na Lírios pelo acesso restrito, olharam encantadas toda estrutura. Oambiente já estava ligeiramente cheio e havia uma enorme fila na rua paraentrada. Foram meses de marketing pesado para divulgar o local. Dani e Amyhaviam se oferecido para patrocinar a inauguração e ficaram com toda a parte dedivulgação. Não poderia ter dado mais certo. A abertura da Lírios na noite de sábado havia se tornado o grande evento da cidadecarioca.

            As mulheres olhavam para todos os lados encantadas com a decoração, assim como todos os demais presentes. O ambiente extremamente sofisticado e aconchegante dava ao local uma marca registrada de suas donas. Era elegante e cheio de vida, tal como Lina e Isabel. Cores e artigos decorativos minuciosamente combinados para fazer os clientes se sentirem confortáveis. Haviam puff’s coloridos espalhados no primeiro andar, bares pequenos nos cantos, destacados com luzes de neon azul onde os barmen e os bartender – mulheres e homens – estavam impecáveis girando os copos no ar. Alguns até utilizavam fogo e Ana levou a mão a boca quando viu uma loira bem exótica de cabelos estilo drague fazer um malabarismo incrível com suas coqueteleiras.  No centro havia um palco onde uma banda tocava ao vivo música dos anos 80 animadamente, fazendo todos os presentes balançarem o corpo no ritmo dançante enquanto desfrutavam das mais variadas bebidas e aperitivos.

            – Isso aqui está perfeito! Ana falouum pouco mais alto perto da irmã e da amiga. Elas assentiram, aindaboquiabertas com tudo. Não é como se não tivessem ido incontáveis vezes aolocal para ajudar suas mulheres, mas nada se comparava a ver o ambientefuncionando e pronto, com todas as luzes, pessoas e toda música.

            – Vamos até elas? Já deve estarquase na hora da abertura! Carla sugeriu e elas começaram a cortar a multidãoperto do palco até a administração onde certamente suas mulheres estariam.

            Não demoraram até passar por detrás do palco. Osegurança logo identificou Amy e deu menção para que todas passassem. Elasandaram por um longo corredor, ouvindo a música ficar abafada e baixa aospoucos. Avistaram uma escada e subiram, encontrando a sala da gerência ao finaldo corredor e logo após algumas portas onde ficavam os camarins dos artistas ebandas que fossem se apresentar. Amy deu duas batidinhas anunciando sua chegadae assim que ela abriu a porta, viu sua amiga e sócia.

            – Ei morena!

            Dani sorriu largo e abraçou a maisvelha dos Collins. Em seguida cumprimentou Carla com um abraço e ao chegar emAna sentiu o coração batendo forte. A mais velha ainda odiava o fato de que aAna parecia cada vez mais mulher a seus olhos. Não abraçou a caçula porprecaução, sentia-se mais segura ao manter certa distância. Ana a olhou de cimaa baixo e deu um sorrisinho sacana. Dani revirou os olhos e sorriu tentandomanter a pose, mas suas bochechas coraram de leve, trazendo a momentâneairritação para consigo mesma, por se deixar levar pelo efeito que a caçulaexercia nela. Sua segurança abria espaço para vulnerabilidade sempre que Ana aolhava de uma forma diferente e Dani ainda não sabia como lidar com isso. Eranovo, estranho e tremendamente assustador.

            – Hey! A caçula cumprimentou-a. Anasabia o quanto a morena ainda resistia, então prometeu a si mesma ter calma,apesar de que, as esquivas da mulher já estavam irritando a mais nova. Daniapenas assentiu com um sorriso sem jeito, mas sentiu o corpo estremecer quandoouviu a voz rouca da ruiva sussurrando “gostosa”perto de seu ouvido, enquanto trocavam dois beijos no rosto. Dani apertou osolhos, suspirou e fechou a porta com um pouco mais de força. A caçula deu umrisinho sapeca e fingindo que nada havia feito, foi ao encontro das outras com acara mais lavada do mundo. Apesar de mais mulher e madura, o jeitinho sapecaera marca registrada de Ana. Dani odiava a ousadia da ruiva, mas odiava aindamais o fato de se sentir mais atraída por ela sempre que a garota fazia coisasassim. Aliás o que mais irritava Dani era o fato de que quanto mais elaresistia, mas atraída ela se sentia pela jovem. E que Deus e sua melhor amiga aperdoassem se ela não conseguisse segurar esse desejo…

            POV AMY

            Assim que adentrei a sala daadministração da Lírios avistei Linae Isabel conversando e olhando a boate do alto. A sala em que agora estávamosficava no último andar da boate e tinha uma das paredes toda feita de vidro,por onde se podia ver todo o movimento da pista, bares e palco. Carla e eu nosaproximamos e as mulheres viraram praticamente ao mesmo tempo para nós. Ambasestavam lindas, mas meus olhos sentiram-se fatalmente atraídos por Isabel.Percorri todo seu corpo, marcado minuciosamente pelo vestido branco justo. Umdecote generoso entre seus seios, onde uma corrente de ouro longa com opingente da pedra da gávea jazia. Isabel simplesmente não largava o cordão quelhe dei no nosso lugar favorito há um ano atrás. A loira tinha o cabelo presoem uma longa trança lateral e suspirei com a visão. Não importava quanto tempopassasse, Isabel de trança era sempre uma perdição para mim. O penteado dava aela um tom sensual e juvenil que combinavam perfeitamente com seu rostoangelical.

            Lina aproximou-se de mim, logo apósbeijar Carlão, e me deu um breve abraço tirando-me dos devaneios sobre minhanamorada. A mulher, diga-se de passagem, estava ainda mais bonita depois dagravidez. Um vestido estampado com flores silvestres cobria todo seu corpo até poucoacima do joelho. Carla apenas babava por ela e sorri com a cena. Éramos duastrouxas, cada qual por sua mulher. Até nisso, combinávamos. Obviamente, nenhumade nós admitia isso. Carla implicava comigo e eu com ela, mas no fundo nóssabíamos que estávamos de quatro, literalmente, por aquelas duas.

            – Isa, vou descendo com as meninas ete espero lá embaixo.

            Elas trocaram umas breves palavrassobre a inauguração e Isabel terminou de cumprimentar minha irmã e Carla, antesque elas saíssem da sala.  Fiquei aliparada, olhando para ela, mergulhando naquele mar castanho esverdeado que meafogava a todo instante. Isabel aproximou-se, deixando a taça de champanhe emsua mão em cima do balcão de um minibar ao seu lado, deslizando as longaspernas brancas em minha direção. Meu coração já batia louco e meu corpo estavamais quente apenas com sua aproximação. Era como se eu fosse uma adolescente emum baile de formatura com a garota dos sonhos. Os olhos dela percorreram meucorpo e eu podia ver como eles ficavam mais escuros, demonstrando um desejo pormim que me enlouquecia. Um sorriso maroto surgiu em meus lábios quando Isabelsuspirou assim que subiu o olhar e me encarou outra vez.

            – Porque sempre tão incrivelmentelinda? Ela disse, parecendo perguntar mais para si mesma do que para mim.Minhas bochechas aqueceram e neguei com a cabeça. Lá estava a única mulher queconseguia me fazer corar.

            – Porque sempre tão gostosa? Rebati,puxando-a pela cintura e enterrando meu nariz na curva do seu pescoço. Fecheios olhos para sentir seu cheiro e senti meus pelos arrepiarem. Mordi o lóbuloda orelha de Isabel e ela fincou as unhas no meu ombro com um pouco de força.

            – Eu tenho um discurso deinauguração para fazer, sabia disso? Sua voz saiu melosa e arrastada e tivecerteza que minha investida já estava fazendo efeito.

            – As pessoas estão bem contentes láembaixo, nem vão sentir se você demorar um pouquinho. Isabel riu, beijando meu ombrocom carinho.

            – Demorar muito, você quer dizer.

            – A noite toda talvez…  Arrastei o nariz por seu ponto de pulso,subindo por sua mandíbula enquanto deixava beijos na região. Isabel subiu asmãos para minha nuca e seu corpo estava mais solto, praticamente entregue.

            – Amor…. Para vai! Não faz assim….Agora não podemos.

            Ignorei seu protesto, apertando suacintura e colando mais nossos corpos.

            – Imagina o quão excitante fazeramor encostada nesse vidro enquanto todos lá embaixo bebem e dançam. Vocêgostaria disso Senhorita Aguillar? Sussurrei em seu ouvido, chupando novamenteo lóbulo de sua orelha e Isabel soltou um gemido baixo. Essa foi minha deixapara atacar novamente. Desci minha boca, beijando com força seu pescoço edeslizando minha língua ali.

            – Desgraçada! Isabel rangeu entredentes, puxando meu cabelo e afastando meu rosto de seu pescoço. Seus olhosverdes já estavam acesos e quando ela fitou minha boca eu sorri vitoriosa. –Você me paga Collins! Atacou meus lábios tão logo ameaçou e nos beijamos comforça, sem nos importar com o discurso que ela tinha que fazer. Eu queria que omundo se explodisse. Isabel estava tentadora e eu só queria jogá-la naquelaparede de vidro e enfiar meus dedos dentro dela com força. Coloquei minha mãoem sua coxa, sentindo a pele macia dela pela fenda lateral do tecido. Comecei aadentrar minha mão ali e quando estava prestes a apertar sua bunda por baixo dopano, uma batida forte na porta nos fez parar o beijo assustadas.

            –SAPATÃO REI, CONTROLE ESSE DNA DE COELHA E DEIXA A ISABEL DESCER! EscuteiAna rindo do lado de fora e rangi com raiva. Carla sempre inconveniente!

            –VAI SE FODER CARLÃO! Gritei de dentro da sala, encostando a testa na deIsabel que já ria descontraída. A loira estava adorável com as bochechasrosadas pelo beijo quente. Ia beijá-la novamente até que novas batidas ecoaramna sala.

            – NEM EU NEM VOCÊ GATA! GUARDE ACAMISINHA PARA MAIS TARDE! Carlarespondeu e revirei os olhos, bufando, enquanto Isabel ria de nós duas ebeijava meu queixo com carinho.

            – Vou matar a Carla! Ah vou…Sussurrei contrariada indo em direção a porta prestes a jogar a empata fodaescada a baixo, mas Isabel me puxou pelo pulso, segurou meu rosto entre as mãose beijou meus lábios com carinho.

            – Ela tem razão, tenho um discursopara fazer.

            – Mas a gente ia…. Tenteiprotestar, fazendo bico emburrada. Isabel riu e revirou os olhos. A loira foiandando até a porta logo atrás de mim. Estava prestes a girar a maçaneta quandosenti Isabel debruçar-se no meu ouvido e sussurrar sensualmente “Me aguarde mais tarde”.

            Abriu a porta e saiu sorrindo paraas amigas como senão tivesse acabado de me provocar. Respirei fundo e sai logoem seguida, pensando sobre as nuances de anjo e diabo de Isabel, enquanto Carlame zoava durante todo trajeto até o palco principal.

            Pouco tempo depois, quando a Líriosfoi oficialmente inaugurada por minha mulher, a festa continuou a todo vapor.Nos misturamos aos convidados, para dançar e beber. Era um momento único paraIsa e Lina e estávamos muito felizes por essa conquista delas.

POV NARRADOR

            A banda tocava os sucessos de Rockda década de 80, e a madrugada no Lírios estava apenas começando. A casa deshow, voltada para o público LGBT, parecia ter sido um grande acerto. Músicaboa, ambiente aconchegante e espaçoso, cardápios variados e bebidas para todosos gostos. E o melhor o espaço seria aberto para locações. As empresas deeventos poderiam alugar o espaço, que já teria uma infraestrutura própria, alémde buffet. Com isso, ficaria a encargo da organização contratante todaresponsabilidade do evento, enquanto Lina e Isabel seriam as responsáveis pelamanutenção do espaço físico, cardápio e marketing digital. Isso dava a elas independênciae ao mesmo tempo não as sobrecarregava. Lina tinha uma menina pequena e Isabelestava com outros projetos, e ainda alguns casamentos que tinha que terminarantes de sair de fato do ramo das cerimônias.

            Graciela adentrou o local poucodepois da meia-noite. A agente percorreu a pista, desviando de algumas pessoase chamando a atenção de algumas mulheres. Sua postura altiva e sériacaracterística da profissão militar acabavam dando a ela um ar misterioso eatrativo, que fazia muitos pescoços girarem. A agente tinha uma beleza naturale muito peculiar. Seu olhar era forte e penetrante. Os cabelos castanhosescuros agora mais curtos, soltos na altura dos ombros, tinham um volumepróprio e balançavam a menina que ela desviava de uma pessoa ou outra em meioas luzes da pista. A maquiagem leve e a vestimenta que misturava o estilopolicial com roqueira, completavam o ar de badgirl que causavam muitos suspiros femininos no local. Avistou Amy e asmeninas logo a frente, e recebeu um sorriso encantador de uma menina queliteralmente a paquerou. A agente olhou para ela e ficou literalmente tentada ase aproximar, mas achou melhor focar nas amigas por hora. Ela não podia sedistrair tanto, precisava estar atenta para proteger suas amigas se necessáriofosse. Sentia-se sempre andando em campo minado, onde um passo em falso seria osuficiente para que tudo fosse pelos ares. Nessas horas, o treinamento de Amy adava alívio, pois sua amiga mesmo sem plena consciência já estava com o sentidode alerta aguçado e saberia se virar em situações extremas, o que consequentementetambém deixava Isabel e Ana mais seguras.  

            – E aí galera! Uau! Isso aqui estáfantástico! Parabéns dupla Libel! Abraçou as meninas ao mesmo tempo por cima dosombros e depois cumprimentou as demais.

            – Obrigada Graci! Você demorou,achamos que não vinha mais.

            – E perder essa inauguração? Missãodada é missão cumprida! Após arrancar rissos das amigas, continuou – Foi mal a demora,tive um problema inesperado pra resolver antes de vir. As meninas assentiram,sem entrar em muitos questionamentos. Elas sabiam que a profissão da amiga eradelicada e que nem tudo ela podia compartilhar. Sabiam também que Gracielaapesar de uma excelente pessoa, era bem reservada e apenas Amy conseguiaarrancar dela algumas confissões. Então, procuravam não ser invasivas e deixarque a garota ficasse a vontade para falar o que podia sobre seus compromissos inesperadosde trabalho.

            – E onde está Amy?

            – Ela foi até o bar, buscar unsdrinks.

            A agente olhou para o bar por cimado ombro e viu sua melhor amiga debruçada, enquanto aguardava a bebida. Ninguémpercebeu, mas nos poucos segundos em que seu olhar se direcionou ao bar, percorreutodo perímetro ao redor de Collins, procurando qualquer sinal de ameaça. Aquilofazia parte de quem ela era, mesmo que não houvesse um perigo real. Gracielaestava sempre atenta a tudo, e quando se tratava das meninas e de Amy issoparecia acentuar ainda mais. Era quase como uma onça escondida entre as matas prestesa dar o bote. Silenciosa, minuciosa e quando preciso mortal. Você nem percebiao perigo até ele te provar que estava lá. E ela fora treinada para perceber oimperceptível e esperar o inesperado.

            As meninas dançavam em roda, bebendoe dançando. Carla, não perdendo a oportunidade, aproximou-se de Graciela efalou um pouco mais alto, pois o som da banda há alguns metros de distância impediauma conversa em tom normal.

            – A gente estava aqui apostando umacoisa antes de você chegar.

            – Apostando o que?

            – Se você gosta da fruta ou doespinho. E a maioria acha que você gosta da fruta.

            Ana gargalhou, enquanto Lina batiano braço da esposa e Dani e Isabel balançavam a cabeça sorrindo. Carla nãotinha mesmo jeito. Ela insistia a tempos em saber se a agente era lésbica, masLina nunca a deixou perguntar. Temia que a agente desse um murro no narizredondo da esposa, e embora ela merecesse por ser tão inconveniente, ela amavaaquele nariz então preferia não arriscar. Agora, com o efeito do álcool nasveias, ela finalmente questionara a mulher e Lina sequer teve tempo de evitar.Graciela apenas ergueu a sobrancelha meio séria. Todas ficaram olhando para amulher, que finalmente acabou sorrindo. Não era nenhum segredo sua preferênciasexual, mas ela sabia que sua postura séria e discreta causava curiosidade naspessoas e não seria diferente com suas amigas. Nem mesmo para Amy ela tinhaconversado muito sobre o assunto, embora tivesse certeza que a amiga sabia doque ela gostava.

            –E o que vocês apostaram? Falou mais perto do ouvido de Carla.

            – Uma rodada no bar. Se eu acertarvocê paga, se eu errar eu pago. Qualquer bebida do cardápio.

            – Deixa eu ver se entendi, vocêapostou sobre a minha sexualidade e se tiver acertado sobre ela eu tenho quepagar e não as pessoas com quem você apostou? Isso é ridículo.

            – Ridículo ou não, são as regras. Ea aposta não existisse se você não fosse esquisitona. Carla retrucou e Linaarregalou os olhos, enquanto as demais riam. Sua esposa só podia estar querendodeixa-la viúva. Deu um beliscão no braço da esposa que em um salto levou a mãoao braço.

            – Ouch! Mulher! Ficou doida? Carlaprotestou alisando o braço.

            – Doida está você! Por favor Gracinão leve a idiota da minha esposa a sério. Ninguém aqui tem nada a ver com suaspreferências sexuais! Fuzilou Carla, que logo fez uma careta, mas continuouencarando a agente como se a desafiasse.

            Amy chegou em seguida, abraçando aamiga policial alheia a conversa. Estendeu uma cerveja a Graciela que acertoude bom grado e tomou um gole generoso.

            – Qual a boa na minha ausência?

            – Sapa Rei, a gente estava aquicontando pra Graciela que apostamos na maioria que ela gosta da fruta e não doespinho.

            Lina bufou revirando os olhos e indopara perto de Isabel e Dani. Aquelas mulheres pareciam crianças de jardim deinfância quando queriam. Isabel abraçou a amiga, pedindo que ela deixasse rolar.

            – E está valendo o que?

            – Uma rodada no bar.

– E o que você apostou? Gracielaperguntou intrigada.

– Que você gosta de espinhos,porque nós já fomos em inúmeros lugares e sempre tem alguma mulher te dandomole na cara dura, mas nunca vimos a reciprocidade rolando sacou? Então você sópode gostar de espinho!

            – E você? Perguntou a Ana.

            – Que você gosta da fruta né amor?Essa pinta não engana. O gaydar dessaaqui já pifou faz tempo.

            – E você Amy? Aposta em quê? Amorena sorriu, passando o ombro por cima da amiga.

            – Se você gostar de espinho, eutroco a fralda do moleque de número dois até ele não usar mais. Mas como eu seique você não gosta, vou só rir da cara da Carla mesmo.

            – Eu gravei você dizendo que vaitrocar as fraldas então não use a desculpa da bebida. Carla rebateu e todasriram, inclusive Lina que já tinha desistido de intervir nas loucuras daesposa.

            – Então é só eu responder se soulésbica ou não? Se esse é o caso, já pode pagar a bebida pra todo mundo Carlão,porque eu prefiro as flores.

            As meninas gritaram com as mãos parao alto enquanto Amy abraçava a agente de lado, rindo. Carla, no entanto, nãohavia se conformado.

            – Não, não, não espera! Tudo bem quevocê tem esse jeitão de sapatão, mas é só o jeito. Nunca te vi paquerandoninguém então um simples “sou lésbica” não vai levar meu precioso dinheirinhonão colega!

            – Qual o desafio então? Graciperguntou, tomando outro gole da cerveja.

            – Eu trabalho com atitudes querida!Se é sapa então prova, se não é paga a rodada!

            – Provar?

            – É! Carla riu vitoriosa.

            Graciela olhou para Amy e Isabelficou intrigada com a intimidade que elas tinham. Era estranho porque a agenteera sempre tão fechada, mas ficava muito mais espontânea quando na presença delas.Era como se ela se permitisse ser ela mesma, ainda que com ressalvas. Por isso,elas não tinham certeza da sexualidade da mulher. Embora todas tivessemapostado que ela também gostava de mulheres, Carla insistia que ela não davasinais suficientes.

            – Vocês acham que eu devo provar etirar dinheiro desse gaydar escangalhado?

            – Sim! As meninas responderam juntase Carla abriu a boca incrédula ao ver Lina participar do coro.

            – Até tu mulher?!

            – Não mandei você inventar moda,agora aguenta!

            Graciela riu com todas, virando acerveja em gargalos e entregando a garrafa para Carla, que ainda a desafiavacom o olhar. As meninas pareciam ter esquecido até da música quando a agentepuxou a jaqueta de couro preta para baixo e bagunçou os cabelos, deixando seurosto ainda mais sensual.

            – Já prepara a carteira Carlão,porque puta que pariu, até eu fiquei afim agora! Ana proferiu batendo no ombroda amiga e as demais riam sem perceber o olhar mortal que Dani direcionou acaçula. Ana olhou-a de rabo de olho e discretamente piscou para a empresária,que revirou os olhos irritada.

            Graciela virou-se e não demorou atéencontrar a garota de cabelos pretos e olhos esverdeados que a havia encarradoassim que chegou. A menina dançava remexendo o corpo lentamente e seu olharencontrou o da agente, ficando rapidamente provocativo. Em passos sorrateiros eleves, aproximou-se da mulher, fazendo a roda de amigas dela parar para ver a aproximação.Amy e Ana por sua vez eram só euforia e já zoavam Carla que irritada cruzou os braçossem tirar os olhos da cena adiante. Todas viram quando Graciela cochichou algumaspalavras no ouvido da menina, que fechou os olhos parecendo atraída demais paraimpedir o que vinha em seguida. A agente, como uma fera que encanta a presapara dar o bote, já havia enlaçado a cintura da mesma, e segundos depoisolharam-se até que um beijo ardente foi trocado, fazendo as amigas da garota eda agente gritarem com as mãos pro alto enquanto Carla abria a boca em espanto.Aquela filha da mãe misteriosa do inferno tinha uma puta pegada, e não tinhacomo negar, era sapatão nata.

            – Que filha da puta desgraçada! Carlaxingou enquanto todas gargalharam, inclusive sua esposa que abraçada a Isabelnão parava de rir.

            – Troca a pilha do radar Carlão!Essa porra tá quebrada! Ana falou gargalhando.

            – Tá sentindo o espinho entrandoCarlão? Quer vaselina? Amy proferiu e Carla empurrou amiga, gritando um “vai sefoder”. As meninas choravam de rir da amiga, enquanto a agente ficou uns bonsminutos, trocando beijos quentes com a garota.

– Que pegada hein! Fiquei atéquente! Ana proferiu e Dani parou na hora de rir. Ela bufou irritada virando a caipirinhade uma vez.

Tempos depois, a agente começou aandar na direção das amigas, trazendo a garota consigo. Todas sorriam para ajovem, que de perto era ainda mais encantadora.

            – Pessoal, essa é a Camila. Eu faleique a Lírios era de duas grandes amigas e ela quis cumprimentar as anfitriãs.

            Camila aproximou-se de Isabel e Linae abraçou as mulheres gentilmente.

            – A Lírios é realmente fantástica.Faltava um ambiente assim na cidade. Eu e minhas amigas amamos e vamos divulgarcom certeza.

            – Obrigada, ficamos felizes demaiscom isso. Lina pontuou e elas ficaram conversando enquanto Carla ainda meioemburrada encarava a agente.

            – Então, pronta para pagar a rodada?Carla bufou e as meninas optaram por uma garrafa de champanhe francês.

            – Vai lá Carlão, traz a melhor quetiver! Graci falou enquanto a mulher se afastava.

– E aproveita pra perguntar se vendeumas pilhas também. Tem um aparelho aí que tá precisando.

            Carlamostrou o dedo do meio ainda de costas para as amigas, enquanto ia para o bar. Elasgargalharam, inclusive Camila que mesmo alheia as piadas achou graça dainteração.

            – Elas são sempre assim delicadas? Perguntoua garota, ao lado de Isabel, Dani e Lina.   –Garota, um elefante perto delas é uma pena.

****

            Já passava das três da manhã. Onível de álcool nos corpos já havia tirado qualquer inibição. Os casaisdançavam na pista, inclusive Graciela que não largara mais a jovem Camila desdeque haviam trocado beijos na pista. Ana, no entanto, havia mantido a linha atéo momento. Seus olhos cravavam no movimento do corpo de Dani, deixando-aenlouquecida. A empresária, desinibida, dançava todas as músicas e a provocavacom o olhar. Ela estava prestes a jogar tudo pro alto e puxá-la para um beijo alina frente das amigas e da irmã. Porém, ela sabia que se fizesse isso cravariasua própria tumba. Dani se afastaria dela no segundo seguinte, a daria um tapano mínimo e toda noite iria desabar.

            A caçula não entendia o porque daresistência da mais velha. Ela usava a amizade de sua irmã como desculpa, mashavia algo mais. Amy não seria estúpida a ponto de achar um envolvimento entreelas a pior coisa do mundo. Ela brincava com ela sobre isso, mesmo Dani nãosabendo. E talvez ela estranhasse no início, mas tinha certeza que não seoporia.

            Ana virou outro gole de cerveja, ereparou nas amigas. Todas estavam se beijando na pista então se permitiu cravaros olhos em Dani. Os quadris dela se movimentavam, puxando-a como imãs. Suasmãos formigavam para tocar na pele exposta de sua cintura e sua boca salivavacom a vontade de cravar os dentes nos lábios carnudos dela. Ela estava a pontode sucumbir. Os olhos castanhos da empresária cravaram-se no dela e aempresária sorriu provocativamente. Era isso. Com tapa ou não, ela ia beijaraquela boca e seria agora.

            Ana respirou fundo e seus pés semoveram para ir em direção a Dani, mas um corpo chocou-se contra o dela, donada, no meio do caminho. Uma mulher bêbada demais para raciocinar, agarrou seurosto e colou a boca na dela. O beijo não aprofundou, primeiro porque a reaçãode Ana foi empurrá-la segurando-a pelos braços. E segundo, porque ela nãoqueria aquela boca que fedia a vodka. Ela queria Dani. Seus olhos ainda assustadoscom o choque do beijo roubado procuraram a empresária, mas tudo que ela viufora a pista vazia.

            Desvencilhou-se da mulher embriagada,que ainda disse algumas coisas que ela nem sequer prestou atenção. Andouprocurando Dani com o olhar no meio da multidão, até que viu sua silhueta,saindo pela porta que dava para o hall externo, de onde se via a cidade. Acaçula foi cortando os corpos rapidamente, apressou o passo atrás dela. Seucoração martelava no peito. Só faltava essa agora. Quando Dani parecia estar cedendovinha uma louca para agarrá-la. O destino estava de sacanagem com ela, erafato.

            Empurrou a porta, prendendo o cabeloruivo em um coque desajeitado. A testa suada do ambiente da danceteria, o coraçãomartelando ainda mais quando viu a garota debruçada no parapeito, olhando asluzes das ruas acesas, enquanto os prédios já estavam em sua maioria apagados.Ana aproximou-se, as mãos ainda dormentes e meio suadas. A ansiedadepercorrendo sua pele como ondas elétricas.

            – O que você quer aqui? Daniperguntou sem nem se lhe direcionar o olhar. A voz firme, mas um poucoprejudicada pelo efeito da bebida.

            – Porque saiu de lá? Ana perguntou,aproximando-se dela o bastante para sentir seu perfume adocicado.

            – Queria um pouco de ar. Já dancei demaispor hoje.

            – Mentira! Ana afirmou, encostandoseu corpo de leve ao dela.

            – Desencosta! Pediu, com raiva na voz.

            – Não. Porque saiu de lá?

            A empresária virou-se para ela,fuzilando-a com o olhar. Raiva e ciúme queimavam em sua íris castanha e Anamanteve-se firme, sem se deixar afetar. Estava cansada daquele jogo de gato erato.

            – Eu já disse que queria respirar. Falou mais alto e Ana segurou seu braço.

            – Mentira! Você saiu de lá porqueficou possessa quando aquela garota me beijou.

            Dani gargalhou, sentindo vontade deesmurrar aquela cara prepotente e linda. Demasiadamente linda. Ana manteve-sequieta, esperando a sessão de riso acabar.

            – Você se acha mesmo né? Pode ficarcom quem quiser nessa boate, eu não ligo! Vociferou altiva e por um segundo, sóse ouvia as respirações de ambas. O azul misturou-se ao castanho, travando umabatalha intensa de orgulho e desejo. E talvez muito além disso.

            – Não liga? Ana perguntou baixo, semtirar os olhos dela.

            – Não! Fique com quem quiser, não estou nem aí… Dani manteve a pose, mas sua voz já havia vacilado com a proximidade da mais nova.

            – Ótimo! Seu desejo é uma ordem.

            Antes que pudesse raciocinar a mão firme da ruiva enlaçou sua cintura e a boca dela fora preenchia de maneira forte e luxuriosa. A língua de Ana penetrou sua boca sem aviso e uma onda avassaladora de desejo percorreu todo seu corpo. Ela não pode fazer nada. Nada além de se entregar. Havia perdido aquela rodada e temia perder a guerra no final. Sua mente havia sido massacrada pelo corpo, e ela temia que também pelo coração. Gemeu, rendida, enquanto Ana a encurralava no parapeito, puxando-a ainda mais para si. Seus dedos, trêmulos, soltaram com pressa o coque desajeitado ela, apenas para ter a sensação de enlaça-los nos cabelos ruivos cacheados. O beijo cessou um tempo depois, e elas respiraram agoniadas, buscando ar e ao mesmo tempo querendo não respirar.

            – Eu estou de saco cheio dessejoguinho de gato e rato. E mesmo que ele recomesse amanhã, hoje eu vou temostrar como se faz.

            Ana sussurrou, passando a língua noslábios de Dani, que fechou os olhos, sentindo o corpo tremer. Ela queria sairdali, mas não tinha forças. Não tinha vontade. Não tinha mais nada.

            – Eu te odeio garota! Disse abrindoos olhos e fitando a boca de Ana.

            – Mentira de novo.

            E antes da empresária protestar, sua boca fora tomada em outro beijo avassalador.

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E aí meninas como estamos? Espero que tenham gostado do capítulo! Peço a vocês que tenham um pouco de paciência, porque não conseguirei manter a mesma frequência de antes, mas farei de tudo para que todas as postagens sejam breves. A vida é muito mais corrida do que era na primeira temporada, mas Amybel seguirá firme!

Grande beijo e desculpem qualquer erro. Vou revisar novamente e retifico o que encontrar.

brucosta

Escritora de romances e fanfics. 30 anos, Carioca. Poemas publicados: 'Cerúleo' e 'Viva Assim' nas Antalogias, ambos da Editora Litteris, ano de 2015. Como me achar: Tumblr: brucosta03.tumblr.comTwitter: @writerbruE-mail: brunarafaelacosta@gmail.comWattpad: @brucosta03

Este post tem 2 comentários

  1. Ingride

    Pqp 😍, vc arrasa em cada capítulo desda primeira temporada‼️‼️‼️❤️

    1. brucosta

      Muito obrigada pelo carinho 🙂

Comente! ;)