Café efemero

Encontrei Jessica naquele café que o pessoal do escritório costuma ir na hora do lanche.

“Um capuccino sem chantilly, dois pães de queijo e uma água sem gás.”
– vou querer o mesmo!

Jéssica me olhou e sorriu. Em seguida, num tom que não sei dizer se de ironia ou curiosidade, perguntou se aquele era mesmo o meu pedido ou estava apenas querendo chamar a atenção.

‘Prefiro com chantilly, acho que foi apenas para chamar sua atenção’ respondi, ‘posso me sentar aqui?’

Ela usava uma saia longa preta e um corpete alaranjado. Na orelha uma pena colorida e tinha a ponta do cabelo azulado. Calçava uma sandália de camurça, dessas sem compromisso com o mundo e carregava um sorriso confuso.

Me contou da reunião depois do café, e que precisava mudar de emprego. Contou do apartamento e do atraso no aluguel, e que precisava conseguir um lugar.

Quase não falei, com medo das falsas promessas que não poderia realizar, mas quis fazê-la feliz, por alguns momentos percebi naquele olhar uma dor até além da relatada, alguma dor que ela parecia não tocar.

‘Vamos sair pra dançar?’ Sugeri procurando uma forma de dar a ela: alegria. Aceitou dizendo ser exatamente o que precisava, esquecer o mundo e rodopiar.

Paguei nossos cafés, e trocamos telefones, me abraçou como quem acha um porto seguro, e virou a esquina.

Nunca mais vi Jessica, que não atende minhas chamadas, e não toma mais café. Se soubesse, teria feito todas as promessas de uma vida melhor e felicidade plena.

Ela foi durante aqueles vinte minutos, minha inteira responsabilidade, a mulher da minha vida.

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Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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