Cada volta é um recomeço

Só para vocês, mais um conto da Cá Oliver, nossa autora convidada da noite.

Voltei. Essa vez sem lhe avisar, mas não mudei os velhos hábitos. Sempre que me passo por esta cidade, mesmo cansada a primeira coisa que eu faço é procura-la para dormir com ela.

Faz tempo que isso funciona assim, mas dessa vez tardei em voltar e perdemos o contato. Não só isso, da última vez que estive aqui, pretendia leva-la comigo e ao mesmo tempo sonhava com ela me pedindo pra ficar. Nenhuma das duas coisas aconteceu. Ela nunca me levou a sério, chegou a dizer que para mim ela era a minha colônia de férias. A Estela não acreditaria se eu contasse que vou dormir tarde por estar pensando nela. Mas isso não vem ao caso agora.

A minha sorte é que a sua irmã vai com a minha cara. Do aeroporto lhe avisei que queria muito ver a Estela e ela não hesitou. Apenas me avisou: “Não sei se ela vai querer te ver. Já faz muito tempo que você não da noticias, mas eu sei que ela gosta de você”.

– Ela não precisa saber que vou. – Fui breve.

Combinei tudo, mas o vôo atrasou e cheguei bem tarde. Ainda assim não desisti de vê-la naquela noite. Minha alma e meu corpo me pediam gritando o toque e carinho daquela mulher outra vez. Passei no hotel, tomei um banho e fui.

Milena, a sua irmã, abriu porta pra mim e eu fui entrando. Conhecia de cabeça o desenho daquela casa, sabia perfeitamente onde estava o melhor canto daquele lar e coincidentemente este canto era no quarto da Estela.

Ela dormia um sono bonito, de barriga para baixo. Fiquei a observar e relembrando quantas vezes ela tinha me feito feliz naquele quarto. Tirei a calça e o sutiã. Só de calcinha e camiseta deitei suavemente sobre as suas costas. Ela não tardou em acordar e enquanto eu beijava a sua nuca, ela se manteve quieta e em silêncio. Dei-me conta que algo não estava bem.

– Estava com saudades. – Falei.
– Não era o que parecia. – Respondeu fria.

Percebi a sua voz de choro, passei minha mão sobre a sua face e estava molhada.

– Quer conversar? Embora eu ache que tem outra coisa muito melhor pra fazer. – Brinquei.

Ela não respondeu e eu me deixei guiar pelo que pedia o meu corpo. Mais tarde descobriria que o dela pedia o mesmo.

Virei-a de frente pra mim e tirei as alças da sua camisola. Ela estava quieta e sem reação alguma. Não pensei duas vezes em levar minha boca até os seus seios e assim, finalmente lhe desarmei.

Ela puxou-me pelo pescoço e me deu um daqueles beijos intensos nos quais as línguas se movem lentamente sem pressa para acabar. Como aquela mulher beijava! O beijo dela repercutia na minha parte mais intima. De repente já estávamos sem roupa e rendidas a beijos intensos. Nossos copos já começavam a se guiarem sozinhos, buscando satisfazer as suas próprias vontades. Cada vez mais junto, mais apertado um contra o outro como se quiséssemos nos transformar em um só corpo.

A mão dela parecia ter pressa ao traçar o caminho que começava na minha coxa. Mantive meus olhos fechados, eu tinha sonhando por três anos com este reencontro que me dava muito medo abri-los e que a Estela não estivesse mais ali. Até que ela se afastou por um momento.

– Por que não me avisou que vinha? – Me perguntou.
– Queria fazer surpresa!
– Você sumiu. Não deu mais noticias. – Reclamou.
– Você também poderia ter me escrito. Você me tem em todas as redes sociais, lembra? – Rebati.

Ficamos em silencio uns quinze segundos, acho que daria um rim por saber o que se passava na cabeça dela naqueles quinze segundos.

– Vamos seguir com o que você veio fazer aqui. – Ironizou.
– Você fala como se eu o fizesse só. Você não quer?
– Não é isso!
– E o que é? Perguntei-lhe.
– Nada. Vem cá. – Finalizou mais um dos nossos curtos diálogos.

Já sentadas frente a frente, abracei-lhe com as minhas pernas ao mesmo tempo em que acariciava com as minhas unhas às suas costas. Ela beijou meu rosto, fez carinho por debaixo do meu cabelo e mais uma vez me deu o prazer do seu beijo em minha boca.

Algo havia de errado, já não era como antes. Parece que tínhamos gerado certo gelo entre nós, completamente imperceptível se nos beijávamos e nos envolvíamos, mas inegável na hora da comunicação verbal. Preferi continuar, tinham três anos que aquela mulher não era minha e a minha vontade de tê-la falou mais alto.

Acariciei seus seios com meus lábios e puxei sua mão, colocando-a de novo no caminho das minhas pernas. Ela sorriu e voltou a fazer aquele percurso que tantas vezes já tinha feito, e que eu adorava como ela o fazia.

Meus lábios seguiam presos ao bico enrijecido do seu seio, já as minhas mãos percorriam suavemente as suas pernas.

– Se as suas mãos demorarem mais, as minhas chegarão primeiro. – Brinquei com ela que fazia joguinho com as mãos ameaçando não ir até lá.

Outro sorriso roubado ao mesmo tempo em que enfim seus dedos já faziam parte em mim.
Beijei o seu sorriso e ela me devolveu o beijo enquanto movia seus dedos dentro de mim, numa mistura de movimentos suaves e rápidos.

– Ninguém faz isto como você, Estelinha. Eu juro! – E assim eu ganhava o seu terceiro sorriso.
Não demorei em penetrar-lhe com meus dedos também. Ela mordia os lábios inferiores, revirava os olhos e gemia bem baixinho como se não quisesse que eu o escutasse, mas eu gostava de observa-la enquanto movia meus dedos dentro dela, ela ficava extremamente linda quando excitada. E ao perceber que eu a observava, aumentava a intensidade dos seus dedos penetrados em mim, ganhando-me por completo.

Estávamos entregues prontas pra gozarmos e assim foi. Mas não acabou por ai, eram três anos de saudade, nem podia. Empurrei-a na cama e deixei minha língua passear naquele corpo que me encantava tanto. Ela ardia.

Levantei e me pus sobre o seu corpo. Fomos encaixando os nossos sexos e ali nos movemos em uma só batida, parecia que soava alguma musica que só nós duas conhecíamos. Nossos corpos extremamente suados, nossas respirações cada vez mais fortes. Nossos sexos em atrito, quente, encharcado… Segurei suas mãos e juntas alcançamos a gloria.

Beijei sua testa e em seguida deitei ao seu lado. Estava morta, mas muito feliz. Ela pegou o cigarro e o isqueiro que estavam no criado-mudo ao seu lado na cama.

-Toma! – Me ofereceu.
– Parei de fumar.
– Melhor assim.

Um cigarro inteiro de puro silêncio, a conversa não fluía e eu tinha tanto pra lhe dizer.

– Estela, eu queria conversar com você.
– Sobre?
– Eu não quero que esta vez acabe aqui.
– Não acabou ainda. Você sempre volta aqui antes de ir embora pra sua cidade, lembra?
– Eu quero que você venha embora comigo.
– Que?
– É isso. Vem morar comigo. Eu não quero mais ficar longe de você.
– Você sabe que não nasceu pra isso, não é mesmo? Você é bicho solto, Julia. Morar junto é quase um casamento e sinceramente eu não te vejo casada.
– E você se vê morando junto, levando uma vida de mulher casada?
– É Logico que eu quero que isso aconteça um dia, é lei de vida.
– Mas comigo? – Me atrevi morrendo de medo da resposta. A expressão em sua face mudou, percebi como ela ficou pensativa.
– Deixa de maluquice, Julia! Eu não me vejo casando com você. Isso seria uma autodestruição.
– Nossa, eu sou tão filha da puta assim?
– Não. Você só não nasceu pra esse tipo de vida. Morar junto, ficar presa a uma única pessoa. Não é da sua natureza. E nós duas sabemos bem disso. – Vesti minha roupa e peguei um cigarro.
– Não disse que tinha deixado de fumar?
– É questão de necessidade. E, eu já estou presa a uma única pessoa. Vou dormir e acordo. Faço tudo pensando em uma única pessoa, e essa pessoa é você.
– Você desaparece três anos e agora aparece com essa historia?
– Você também não me procurou. E ainda assim eu não me esqueci de você, nem perdi a vontade de te ver. Estou aqui.
– Deve ser porque a gente se entende bem na cama.
– Tá ok, eu desisto. Você não acredita e eu não vou mais perder o meu tempo. – Dirigi-me à porta do quarto baixo os olhos dela.
– Julia.
– Que? – Perguntei cheia de expectativas.
– Você esteve incrível hoje!
– Antes de ir embora, eu passo aqui pra me despedir – Concluí algo frustrada.

Saí antes que ela respondesse algo, me batendo com Milena que estava escutando detrás da porta.
Ainda na sala da casa, acho que escutei a Milena brigar com ela dizendo-lhe que havia sido dura comigo. Sinceramente preferi ir embora.

Agora estou aqui cabisbaixa, sentada num banco da rua. Tentando me convencer de que tem coisas que não podem ser. De repente, olho para o céu, vejo uma estrela cadente… É só nela que eu penso, é só ela o que eu peço. Inevitável não rir sozinha.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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