Buracos – Cap 6 – Chuva

A única coisa que consegui ouvir depois que a porta se fechou foi um insulto. O barulho ecoou na minha cabeça até o momento que sai de casa, atravessei a rua e girei a chave do carro. O toque incessante do celular somente parou quando eu estacionei o carro enfrente o Pub.

A noite estava solitária, então decidi acompanhá-la com uma dose de realidade. Sentei no balcão, e pedi ao barman à bebida que me fizesse sorrir, pois de tristeza eu já estava enjoada. Ele entendeu o recado, e deu a bebida mais forte. Um gole após o outro. Um copo atrás do outro. A noite adentrou nesse ritmo.

A bebida que antes amargava, agora adocicava tudo. A cabeça girava, e se enchia de lembranças. O que antes completava se tornava um vazio. Já não conseguia distinguir nada. Já não sabia a que mundo pertencia, e ficar ali, no meio de tanta gente desconhecia era até que reconfortante. Acalmava qualquer ideia absurda de levantar e acertar as pontas.

No bolso o celular não parava de vibrar. Tive um Déjà Vu assim olhei para o visor. Uma sensação que já tinha vivido o mesmo momento antes. Anos de brigas e gritos incansáveis. Sempre a mesma coisa. Era normal a falsa sensação. A ilusão.

A noite se deu por encerrada depois de vários copos quebrados. Achei melhor caminhar. Não estava em plena consciência, e apesar de conseguir fazer o quatro perfeitamente achei melhor não tentar a sorte com o carro. Precisava colocar minha cabeça em ordem mesmo com uma quantidade enorme de álcool.

Entre um passo e outro tive flashes do futuro planejado. Dos planos compartilhados. Os futuros filhos. O apartamento próprio. As viagens. Os risos descompromissados. Os pés juntos em dias frios. Jantares românticos. Desculpas acompanhadas de beijos. Buquês com cartas. Torpedos sensuais na hora do trabalho. Não entendia por que havíamos parados.

Os ponteiros já haviam se perdido do relógio há muito tempo. O encanto deu lugar à impaciência. Discussões. Acusações. Reclamações sem pé nem cabeça sobre a lâmpada que não foi trocada. As compras erradas. Os jantares em família. Motivos estúpidos. As vezes não era o que ela falava, sim, o que fazia. A dificuldade que ela estabelecia tornava tudo mais complicado e exaustivo.

Sentei no meio fio com intuito de conter as lembranças, e amenizar as lagrimas que estavam por vir. Inconsoladas elas caíram sem pedir permissão. Estavam desesperadas, inconformadas, cansadas e fartas. Como se o céu soubesse de algo, ele mandou a chuva dar o ar da graça para acalmar os ânimos. Entre os soluços o peito gritava. Pulsava de dor. De raiva por ainda amá-la.

As nuvens escuras indicavam que os pingos não iriam parar tão cedo. Com muito esforço levantei. Caminhei entre ruas desertas procurando um ponto de referência. Um local conhecido. A lua, os pingos, as nuvens e as estrelas foram os únicos acompanhantes da noite. Com eles andei, dialoguei, pensei e o único pensamento que veio acompanhado da imagem dela era as reticências. As malditas reticências que colocamos depois do ponto final, com a esperança de que tudo um dia irá melhorar…

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Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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