Buracos – Cap 5 – Melhor Amiga

Eu me lembro que acordei e te quis perto de mim. Eu me lembro que o seu mau dia vinha acompanhada de um abraço de urso. Desculpa a minha maneira tosca de lembrar as coisas. Mas é a pura verdade. Sempre foi difícil falar sobre você, sempre foi tão cheia de si e do mundo.

E hoje cá estamos à milhas de distancia, sendo que a única coisa que nos separa é uma rua. Uma rua onde vivíamos brincando e correndo. Lembro que você sempre foi muito contida na infância. Apenas observava a vizinhança brincando na varanda da sua casa.

Como o tempo voa e nem reparamos. De todas as coisas que eu lembro a única que não me vem a cabeça é o porquê paramos de nos falar. De sermos o que éramos antes. Amigas. Cúmplices. Companheiras.

Eu sei que na adolescência éramos que nem água e óleo. Nunca concordávamos com nada. Sempre brigávamos por bobeira. Sem contar a implicância. Mas no final sempre havia aquele sorriso de quero mais. Aquele tchau querendo ficar. Aquela mensagem engraçada no meio da noite.

Não tem quando gostamos de alguém, e não vemos outra forma de demonstrar isso a não ser implicando? Embirrando com a roupa. O cabelo de chiquinha. Os óculos de fundo de garrafa. Qualquer estranheza era uma coincidência para encrencar. Esse era o meu jeito torto e sem noção de dizer que gostava muitíssimo de você. Mesmo sem entender eu amava assim. Meio estranho. Sem sentido. E sentindo.

As pessoas falam que sempre iremos lembrar o nosso primeiro amor. Elas se referem a ele por ser ingênuo, por ser um sentimento puro. Aquele onde não há maldade. Interesse. Inveja. Raiva. Rancor. Mentira. E o sentimento mais límpido que já sentimos por alguém. Acredito que talvez seja isso.

Eu deveria ter te beijado no dia que dormi na sua casa. Naquele dia vimos filme até tarde. Você passou a metade do filme fazendo cafuné em mim. Ríamos sem que houvesse amanhã. Uma noite onde rendeu boas histórias e lembranças. Talvez esse seja um dos maiores arrependimentos que já tive.

Medo. Medo da sua reação. Rejeição. Sabia que gostava de mim. Só que o medo era maior. Consumia todo aquele desejo. Impedia de fazer exatamente o que eu estava sentindo e querendo. Ele nos impede de fazermos tantas coisas. Dependendo do que seja às vezes ele é sorte ou azar. No meu foi azar.

Sabe Morena, mesmo que tenha sido por um breve momento tenho orgulho de dizer o quanto foi importante. Pode parecer clichê, mas você me ensinou a pensar que somos que nem areia numa ampulheta. Que a cada minuto, hora, ocasião e instante corre um grão de areia. E que quando acaba, damos conta que é tarde demais pra voltar e tomar decisões diferentes. Enquanto a areia não acabar, vou vivendo igual àquela noite. Como se não houvesse amanhã.

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Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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