Buracos – Cap 3 – Olhos azuis

O dia amanheceu preguiçoso. O céu anunciava uma tempestade a caminho. Não demorou muito para os primeiros pingos caírem, seguido de uma chuva forte e densa. Sinal de que hoje era dia de ficar em casa. Na cama. De preferência acompanhada.

Estávamos deitadas. Eu de peito pra cima distraída com TV. Ela de barriga pra baixo folheando uma revista. Balbuciei quem nem criança ao ver um comercial. Ela virou, olhou e riu ao ver me intrigada. Falou que eu era boba por criar caso com a TV.

Encarei os olhos azuis pelos quais me apaixonei. Em resposta disse que ela era muito mais por ter se apaixonado por uma também. Ela cerrou os olhos. Fez bico. Não me contive e a beijei. Ela sorriu entre um beijo e outro. E perguntou se eu acreditava em destino. Coincidências. Coisas do tipo. Não tinha nada a ver com o momento. Mas nós mulheres somos assim. Complicadas. Indecifráveis.

Esse é um tipo de questionamento a qual não paramos para pensar no dia a dia. Então, respondi o que todos diriam. Ela me fitou desconfiada. Completou dizendo que não existe achismo. Sorri. Ela me conhecia bem. E antes de eu falar qualquer coisa. Ela convencida respondeu que era a pessoa certa pra mim e ponto. Gargalhei alto com a intenção de irrita-la. Ela ficou emburrada e me jogou para fora da cama, falando que hoje era dia de dormir com os cachorros. Gargalhei ainda mais alto pelo exagero. O que a deixou vermelha.

Esperei uns minutos antes de aninhar meu corpo ao dela. Esses por si só, se comunicavam muito bem. Numa sincronia perfeita. Abracei por trás. Peguei suas mãos. E ficamos ali de conchinha. Agarradas. Sorri folgada ao ouvi-la dizer que não adiantava fazer movimentos bruscos. Pois não iria rolar nada.

Mantive a calma. A batalha ainda não estava perdida. Afinal, eu tinha que me redimir. Ainda corria o risco de dormir com os cachorros. Então delicadamente a virei. Ficamos frente a frente. Nos encarando. Deixando nossos próprios olhos se comunicarem. Se perderem um no outro.

Por fim desviei. Tomei um pouco de ar e novamente encarei os cintilantes. Dizendo que ela foi o melhor que já tive. E quando me deparei com olhos marejados cheios de felicidade ao relembrar os momentos bons e ruins vividos. Os beijos trocados. Dedos entrelaçados. Dei conta de quem ela realmente era. E agarrei essa sorte. Coincidência. Destino. O que seja. Pois é algo único.

Ela com os olhos cheios d’água e um sorriso bobo, desenhou o contorno do meu rosto com os dedos. Provocando arrepios. Começou na testa. Depois nas orelhas. Sobrancelhas. Olhos. Nariz. Queixo. Num zigue-zague continuo e lento que terminou com um beijo.

O mundo parou. Ali éramos somente eu e ela perdidas naquela imensidão. Onde o curto espaço de tempo deixava no ar milhares de significados. Afirmações. Certezas. E entre beijos. Apelos. Toques. Num vai e vem das ondas. Nos perdemos. Achamos. Nos diferentes caminhos. E ali juntas. Coladas. Deixamos mais uma vez nossas almas falarem por si só. Numa sincronia perfeita.

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Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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