Buracos – Cap 2 – Quarto Escuro

Sábado, um dia ensolarado como outro qualquer. Acordei meio sonolenta, pensativa. Olhei para o relógio que dizia dez horas e levantei. Fiz minha higiene matinal como de costume. Depois fui à cozinha tomar café. Fiquei triste e assustada. Em dias assim, não via a hora para vê-la. E hoje carrego apenas lembranças e um pacotinho no bolso.

Mal tínhamos feito oito anos de namoro, e estava próximo do final do ano quando recebi a triste notícia. Notícia a qual mudou a minha vida. A forma de vê-la e senti-la. E mesmo depois de tanto tempo, há tanto de você em mim.

Não tem um dia sequer que eu não lembre a forma maluca que me apaixonei. Quem diria que ao tropeçar encontraria a mulher da minha vida. Lembro que acidentalmente pisei no seu pé e rasquei um pouco sua blusa. Você se armou com um simples olhar. Foi só me ver constrangida e balbuciando palavras de desculpas ao mesmo tempo, que em segundos se desarmou.

Acabei pagando uma bebida pelo mal feito. Conversamos. E antes de ir embora, você sutilmente disse que era melhor trocarmos os números para evitar futuras divergências, já que eu era um perigo ambulante. Concordei meio sem jeito e fui embora.

Você não tinha motivos para ligar, mas ligou na manha seguinte cobrando a maldita blusa. Típico. Adorava uma bela encrenca. Era o tipo de pessoa a qual todos adoravam. Era preciso apenas olhar nos seus olhos para estar em qualquer lugar. Ou em outra dimensão. Aí eu soube. Foi como magia.

Agora sozinha. Corro. Grito. Procuro você em cada canto. Numa tentativa desesperadora de achar a linha tênue entre loucura e lucidez. O que é extremamente difícil achar um meio termo. Um ponto de equilíbrio. Uma maneira de me manter em pé. Onde isso não existe mais. Cadê você, meu amor? Volta. Ou me deixe ir.

A cada hora arrumo um jeito novo e diferente de seguir em frente. De preencher esse silêncio. Esse vazio. De continuar sendo eu mesmo desde que a conheci. Dói. Dói muito não ter sua companhia. Nós duas nos tornamos uma só e muitos deles. Lutamos. E enfim construímos a nossa historia. O nosso mundo. A nossa vida. E justo nesse dia. Nessa tarde, que faz lembrar que te perdi. Que perdi o bem mais precioso que tinha. Tá tarde pra dizer que te amo. Espero que nunca esteja.

E hoje, nesse dia fúnebre, não vejo outra forma de celebrar a sua partida a não ser indo ao local onde me apaixonei. A igreja que me perdoe dessa vez, mas quem sabe lá te encontro. Tropeço. Piso no seu pé. Rasgo sua blusa. Pago um drink. Conversamos. E antes de eu ir embora, nos beijamos pela última vez.

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Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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