A História de Rafaela – Capítulo 5

No fim de semana, Rafa decidiu, de uma vez por todas, que queria um cantinho só seu. Sua mãe já imaginava que isso ia acontecer o quanto antes. Ela é toda independente, não vai querer morar comigo por muito tempo. Era o que dizia para os vizinhos toda vez que perguntava se eles sabiam de algum lugar para alugar ali por perto.

O Jairzinho, filho do seu Jair, velho conhecido do bairro, era o responsável por administrar os imóveis que seu pai tinha por ali. Eram quitinetes que ocupavam quase uma rua inteira. A mãe de Rafa já tinha combinado com ele e, assim que uma vagasse, ele guardaria para Rafa.

– Bom dia, mãe! Dormiu bem? – Rafa pegou seu café da garrafa térmica e se junto à mãe no sofá da sala

– Bom dia, filha! O Jairzinho me mandou mensagem logo cedo… 

– Quem é Jairzinho, mãe?

– O moço das quitinetes, filha. Lembra do seu Jair, dono da rua de cima? Então, é filho dele!

– E o que ele disse?

– Que vagou uma essa semana. Ela tá bem boa, uma das melhores que ele disse. Perguntou se a gente quer ir ver hoje

– Vamos comigo, mãe? Depois a gente pode almoçar lá na Nina, o que acha?

Rafa tinha saudades de sua ex-sogra – e não importa o que digam, sogra também pode ser ex – depois de tudo que aconteceu com Dominique, ela foi obrigada a se afastar de Nina também. Nunca soube como retomar esse contato e nem se a senhora gostaria, mas agora que as coisas aconteceram naturalmente, não tinha porque fugir de novo.

– Na Nina, filha? Da onde saiu isso?

– Ah mãe… te falei que encontrei com ela aquele dia né… ela não tem culpa de tudo que aconteceu… sempre me tratou super bem e com respeito. E eu gosto dela…

– Você tá certa, filha. E vai ser bom almoçar lá, só assim pra eu tirar uma folga dessa cozinha 

Rafa sabia que a mãe estava brincando, afinal de contas, ela fazia quentinhas para vender desde sempre. Era assim que ela sustentava a casa e suas crias, como gostava de chamar. O pai de Rafa era caminhoneiro. E mesmo passando boa parte do tempo na estrada, sempre dava um jeito de estar presente. Até que um outro motorista, que estava dirigindo por mais horas que devia e sob efeito de drogas, jogou o caminhão em cima do que estava o pai de Rafa e o empurrou barranco abaixo. Os dois morreram. Desde então, a mãe virou a única fonte de renda. E haja quentinhas pra bancar tudo!

Assim que terminou de tomar café e estava suficientemente acordada, Rafa tomou um banho, trocou de roupa e junto com a sua mãe foram para a rua de cima, a das quitinetes. Jairzinho estava esperando as duas em frente ao pequeno prédio, de 3 andares. Sem dúvidas era o melhor prédio da rua. Claramente o mais novo. As duas se aproximaram dele, que rapidamente tirou os óculos escuros para olhar com mais calma para Rafa.

Argh. Foi a única coisa que Rafa conseguiu pensar ao ver a atitude do homem. Ela nunca iria se acostumar com esse tipo de coisa nojenta. Sua mãe, assim que percebeu a atitude do garoto, fechou a cara e o encarou bem séria. Na pior das hipóteses, ia apelar pro “respeitar minha filha que eu conheço teu pai”. Ela sabia que ninguém  gostava de irritar o Seu Jair por ali.

– Tem um cantinho especial pra você aqui, gata! – Jairzinho falou assim que elas se aproximaram.

– Respeita minha filha, moleque. Isso é jeito de falar com uma mulher?

– Desculpa, dona Cida…

Se ninguém gostava de irritar o seu Jair, muitos também ficavam mansinho perto da dona Cida. A fama de braba da mulher ia longe e, pelo visto, continuava existindo.

– Mostra pra gente o que você tem aí, Jairzinho. Eu quero ver o apartamento – Rafa falou e procurou deixar a voz o mais seria possível, mas no fundo ela só queria rir da forma como o homem se encolheu rapidinho com a chamada que tomou de sua mãe.

As duas seguiram o menino pra dentro do prédio. O apartamento que tinha acabado de liberar era no terceiro andar. Era apenas um por andar, o que deixava a quitinete mais espaçosa do que parecia. O quarto era dividido da sala, mas a cozinha não. A janela tinha uma vista bonita. Pouca coisa na frente e lá no fundo um dos morros que cercavam a cidade do Rio de Janeiro. Não tinha nada de especial, mas era exatamente o que Rafa precisava naquele momento.

– Mãe, vem cá ver isso – Rafa levou dona Cida até o quarto só pra afastar do menino, que seguia encostado na parede da cozinha se protegendo dos olhares da mãe de Rafa

– O que foi filha? 

– Acho que eu quero morar aqui, mãe… o que você acha?

– Não é grandes coisas né minha filha… mas é pertinho da escola e lá de casa. E por aqui, é o melhor que você vai ter. E pode ficar tranquila que o Jair tem tudo regular aqui. Nada de gato ou construção errada. 

– Então, mãe. É só isso que eu preciso… fora que aqui eu posso pagar né 

As duas saíram do quarto e falaram que iam embora. Dona Cida não queria negociar com o Jairzinho. Ela ia mandar mensagem direto pro pai dele fechando o negócio. No fundo, ela não queria que Rafa morasse ali, sempre trabalhou muito para que sua filha saísse dali e procurasse novas e melhores oportunidades. Ela já tinha sentido na pele tudo que acontecia ali e queria sua filha longe de tudo. Ao menos, uma delas já estava. 

Mas viu Rafa feliz ao voltar a dar aulas na escola onde estudou. E se ela tava feliz, era isso que importava.

– Mãe, vamos andando pro restaurante? A gente vai pela rua principal e olha algumas coisas pro apartamento

D. Cida gostou da ideia de Rafa e, junto com ela, desceu pela rua principal, aproveitando as lojas abertas para procurarem algumas coisas que precisavam comprar. Mesmo com pouco tempo como professora, Rafa já foi reconhecida por alguns alunos. Um deles estava atrás do balcão na loja do pai, uma marcenaria que deixou a professora maluca com as várias opções.

Claro que ela demorou mais do que deveria ali e já conversou com o dono da loja sobre o que precisaria para o pequeno escritório que ia montar na quitinete. A facilidade de fazer tudo por ali é que o marceneiro já até conhecia o prédio e tinha noção das medidas do local.

Ela e D. Cida seguiram pela rua até chegarem na rua das escola e do restaurante de Nina. O combinado era almoçarem por ali e depois voltariam pra casa. De longe, perceberam que as mesas estavam cheias e que, provavelmente, teriam que esperar um pouco pra sentar. Mas estavam de tão bom humor, que nada estragaria aquele sábado.

– Nina! Você na porta hoje? O que houve? – Rafa perguntou assim que encontrou sua ex-sogra recepcionando os clientes

– Minha querida, esteja sempre atenta a todos os pontos do negócio, só assim ele vai dar certo! Além do mais, tive uma ajuda extra por lá hoje e vim aqui ver um pouco de gente

– Bastante gente hein, Nina! Tá lotado! – D. Cida comentou com um sorriso no rosto, feliz pela amiga

– Mas é claro que sempre terei espaço para minhas clientes favoritas! Espera só um pouquinho que vou mandar preparar a mesa de vocês

– Nina, não se preocupe! A gente espera esvaziar uma mesa… 

– De jeito algum! Meu restaurante sempre tem espaço para quem eu amo!

Não demorou nem 5 minutos para um garçom vir chamar as duas para sentar. Ele tinha colocado uma mesa perto da janela para não ficar muito quente. Nina acompanhou elas, puxou uma cadeira a mais e começou a conversar com as duas. Rafa contou da quitinete, falou dos primeiros dias como professora e contou as últimas novidades de sua vida.

D. Cida relembrou da época que Rafa vivia correndo por ali. Ela e Nina riram das lembranças e Rafa reforçava que ela nem era tão bagunceira assim. Sua irmã era ainda pior e as duas mais velhas não podiam negar! Roberta tinha uma agitação incontrolável. Ainda bem que ela resolveu fazer Educação Física. Agora ela tinha onde depositar tanta energia.

– Meninas, eu poderia passar o resto do dia tomando choppinho com vocês e relembrando os velhos tempos, mas preciso ver se está tudo correndo bem

– Claro, Nina! Vai lá, não se preocupe com a gente – Rafa comentou e deu um abraço na mulher que, rapidamente, se afastou para a cozinha

Mãe e filha seguiram conversando, relembrando alguns bons momentos do passado e de como chegaram até ali. Era nítido perceber que um certo nome era omitido sempre. Ninguém comentava sobre Dominique. Não existia um clima pesado, apenas um combinado de que o nome não seria citado. Nem mesmo Nina fez isso.

As duas tiveram uma grande dificuldade para escolher os pratos. O cardápio era simples, mas extremamente bem feito, então, não tinha como errar. E Rafa encontrou ali algo que ela nem sabia que existia. Seu prato favorito estava sendo feito pela ex-sogra. E o que fez seu coração apertar. Ele tinha o nome de “Citrino”. O nome não tinha nada a ver com os outros, mas Rafa sabia muito bem da origem.

– Você fica ainda mais linda no sol, sabia? – Dominique estava olhando fixamente para os olhos da namorada 

Dom e Rafa estavam pegando sol na laje da casa de Rafa. D. Cida estava lá embaixo preparando o almoço pras duas enquanto o casal aproveitava as horas de descanso para matar o calor.

– Você vê coisas demais, Dom… deve ser o sol queimando seus neurônios!

– Eu quero te levar pra longe daqui, Rafa! Ganhar muito dinheiro e ter um apartamento lindo, com varanda e piscina pra gente matar o calor

– E você quer me levar junto, é?

– Ainda tem dúvidas?

As duas trocaram um beijo leve, encostando seus lábios e deixando seus olhares se aproximarem. Estavam deitadas em uma canga no chão quente vestidas apenas de short jeans curto e sutiã.

– Citrino. É isso! – Dom comentou baixinho enquanto ainda estavam bem próximas

– Que porra é essa, Dom? – Rafa respondeu rindo do rompante da namorada

– Uma pedra preciosa amarela… exatamente como seus olhos ficam na luz do sol. Olhos de Citrino. Olhos de pedra preciosa.

A memória daquele momento veio como um raio no peito de Rafa que apertou, se contorcendo em dor e saudade. Ela ainda não tinha entendido muito bem aonde aquele casal de meninas na laje havia se perdido uma da outra a ponto de nem se falarem mais.

Quando D. Cida chamou atenção da filha para fazer o pedido, Rafa percebeu que o garçom estava de pé ao lado da mesa, com o bloquinho na mão esperando o pedido. Sem ter outra opção em mente, Rafa pediu o Citrino.

Se forçando a fugir das memórias que insistiam em retornar, Rafa e D. Cida emendaram em uma conversa animada sobre tudo que pretendiam fazer na quitinete. Seu Jair já havia respondido a mensagem confirmando o aluguel e já estava, inclusive, em contato com Rafa para acertar os detalhes.

Elas não perceberam quando uma mulher de cabelo preso e touca saiu da cozinha, deixou o avental no balcão e caminhou, lentamente, em direção à mesa. Ninguém reparou, mas talvez o mundo tenha parado naquele instante.

– Eu precisava ver quem tinha pedido Citrino – a mulher comentou assim que se aproximou da mesa

Antes mesmo de virar o rosto, Rafa já tinha morrido e ressuscitado algumas vezes. Aquela voz, aquele tom, aquele riso, aquela palavra saindo daquela boca. Ela não estava pronta para ser jogada de frente com todas as memórias que vinham surgindo em sua mente.

– Dominique? Você aqui?

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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