A história dentro da história – O começo antes do início

Era uma terça-feira comum. Beta voltava da aula como sempre: cheia de areia no tênis, cansada e com muita larica. Seus pais diziam que ela não serviria para nada se continuasse levando a vida daquele maneira. Farras, bebidas, drogas e praia. Nada de escola, nada de estudo e nada com nada.

Naquele dia, Beta abriu a porta como sempre, com seus fones de ouvido no volume máximo e se deparou com seus pais sentados no sofá a esperando. Na hora que os viu, congelou. Parece que toda aquela tontura gostosa que ainda sentia, evaporou de vez. Devia ser o efeito da adrenalina.

– Quem morreu? – Beta largou o tênis na entrada e nem ligou para a areia que espalhou pelo lugar.
– Pelo visto, parece que o bom senso foi o primeiro – seu pai estava cansado daquelas atitudes e não recebeu a piada muito bem
– Calma, Jorge. Isso não vai adiantar nada – D. Sara era a que colocava ordem na casa
– O que houve? – Beta tentou mais uma vez
– Houve que o nosso carro foi destruído. Isso que houve – Seu Jorge estava fora de si. Queria culpar Beta, mas no fundo sabia que não era só culpa dela.
– Como assim destruído?
– Arranharam e pixaram ele todo…
– Mãe, não é o que estou pensando é?

O silêncio respondeu a pergunta que Beta tinha feito. As lágrimas estavam rolando pelos três rostos assustados e cheios de medo.

– Nós estamos indo embora – D. Sara deu a notícia
– Aquela proposta…eu aceitei…. – Seu Jorge completou para que a filha entendesse.
– Não podemos! Minha vida toda está aqui.
– Sua vida? Que vida? Praia, festas, álcool e maconha é vida de alguém? Você precisa crescer e entender que o mundo é muito maior do que a sua cabacinha, Beta. E nós vamos fazer isso por você! – Beta chorou ainda mais com as palavra do pai que cortavam seu peito como navalha afiada.

Ela não quis ouvir mais nada. Apenas saiu correndo do apartamento, desceu as escadas e sem respirar, atravessou algumas ruas até chegar no apartamento de Má, sua melhor amiga.

Depois de muitas outras lágrimas e de contar toda a história, Beta estava mais calma e acabou sendo convencida pela amiga que poderia ser melhor ela se afastar um pouco. A verdade é que Má estava preocupada com as atuais amizades que Beta tinha, eles não eram boas pessoas. Levou a amiga de volta para casa e a ajudou a arrumar tudo que fosse de mais urgente. Ela e a mãe iriam na sexta e o pai ficaria mais uma semana para finalizar contratos de aluguel, organizar frete e assinar papéis. Eles precisavam de paz, todos precisavam.

A sexta amanheceu cinzenta. Beta foi à escola como se nada estivesse acontecendo. Apenas ela, Má e Di sabiam que aquele era seu último dia. Compraram todos os salgados da cantina na hora do recreio e comeram juntas. Mataram o ultimo tempo e foram para a praia olhar o mar. Sem maconha, nem álcool, nem nada. Só elas. Relembraram histórias, riram, choraram e prometeram nunca se separarem de verdade.

O sol já ia se pôr quando Beta voltou com as amigas para casa. A mãe já estava com tudo no carro e o pai já separava ela na porta do prédio.

– Desculpa, minha filha – foi o que Seu Jorge sussurrou ao se despedir.

O sorriso de Beta tranqüilizou o coração daquele pai. Pelo visto, ele poderia estar realmente fazendo a coisa certa.

– Meninas, quando tudo estiver organizado, espero vocês. – D. Sara gostava daquelas amigas de Beta. Sabia que elas eram boas pessoas.

Beta abraçou as duas mais uma vez, entrou no carro, acenou, colocou o fone, respirou fundo e sorriu. Aceitou aquele sentimento de frio no estômago, de que tudo iria mudar a partir de agora.

Foram umas 2 horas e pouca de viagem e elas estavam na frente de uma linda casa. Beta sempre quis ter um quinta e uma rua calma para andar de skate. Começou a descarregar o carro enquanto sua mãe abria a nova casa delas.

Quase todas as malas já estavam empilhadas na sala, só faltava a mochila de mão de Beta, com seu computador, livros e diários. Ela foi até o carro pegar foi quando ouviu risadas altas vindas da praça que tinha perto de casa. Já era noite e achou aquilo meio estranho. Devagar, se aproximou um pouco mais e de longe conseguiu ouvir um frase meio sem sentido, mas engraçada:

– Ai, Dani, você ta louca? Para de falar de homem e me dá isso aí que você ta fumando!

Pelo visto, a mudança poderia ser melhor do que ela imaginava. Sorriu e voltou para a nova casa. A noite foi longa. Ela rolava de um lado para o outro no colchão que ocupava o lugar que seria uma cama. Seu quarto era enorme, pelo menos isso era bom. Ao longe ouviu algumas risadas que pareciam ser de meninas. De repente, a cidade do interior não era tão quieta e calada assim, não é mesmo?

O resto do fim de semana foi dentro de casa. Seu pai veio no sábado para ajudar a arrumar as coisas. Eram roupas, móveis, utensílios de cozinha e tudo mais que tem dentro de uma casa. Por mais que a mudança fosse temporária, no fundo, Beta sabia que era para sempre e estava começando a aprender a aceitar. Ainda mais depois de tudo que tinha acontecido na cidade grande. Ia ser bom para a família respirar um pouco de ar puro e paz.

O domingo estava se aproximando do fim e eles já tinham descoberto uma pizzaria que fazia entregas ali na casa deles, ou seja, descobriram a melhor coisa da vida. Sentados no chão da sala, Seu Jorge, D. Sara e Beta riam e falavam sobre as experiências que esperavam ter ali. A mudança já mostrava o bem que iria fazer para aquela família, afinal de contas, fazia tempo que eles não riam juntos daquela forma.

Hora de dormir. O dia seguinte seria o primeiro de Beta na escola nova, a úncia da cidade. Não era muito longe de casa e ela iria de skate até lá, o seu meio de transporte preferido.

Durante a noite, mais incomôdos e sonhos ruins. Ela via pessoas correndo atrás dela e jogando pedras a chamando de todos os piores nomes possíveis e acordou com a imagem do carro da família destruído em sua mente. Era duro saber que no fundo, ela era o motivo de toda a mudança.

Primeiro dia e atrasada. Beta estava começando muito bem, mesmo. Correu o máximo que pode em sua tábua de madeira com rodinhas, mas não teve jeito, chegou e a porta estava fechada. Respirou, comprou um café em um senhor que vendia café da manhã ali perto e sentou nas escadas para esperar o segundo tempo. Foi quando a viu. Correndo pela rua com os cabelos cor de fogo. Quem era aquela maravilha que estava se aproximando? Quem seria ela?

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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