A História de Rafaela – Capítulo 3

No fim da segunda, Rafaela parecia estar esgotada. Como se ela estivesse dando aula a semana toda. Mas era só o primeiro dia. Assim que o último sinal tocou, ela respirou fundo e se jogou na cadeira da sala que ainda estava. As aulas para o primeiro ano tinham sido mais tranquilas, como ela imaginava. Passou pelo mesmo ritual de esperar eles se acalmarem, se apresentar e falar um pouco de como ela gostaria que fosse a relação deles. Falou de tudo que eles já haviam aprendido e a previsão do que iriam fazer dali pra frente.

No final, enquanto ainda estava recolhendo os papéis e colocando dentro da bolsa, escutou alguém batendo na porta da sala. Era Camila, sua mais nova amiga. O sorriso que brotou nos lábios da nova professora foram sinceros. Sinceros demais para o que ela estava acostumada. Fazia tempo que não pensar em namorar ou se relacionar com alguém. Seus estudos e seu trabalho tomavam 100% do seu tempo e atenção.

Mas como assim eu to pensando em relacionamento, gente? Mal conheci a mulher!

– Sobreviveu ao primeiro dia? – Camila já estava dentro da sala puxando assunto com uma Rafaela ainda meio abobalhada

– Acho que sim! Parece que estou no fim da semana, mas é só o fim do primeiro dia

– Daqui a pouco você se acostuma, é coisa de primeiro dia. E por falar nisso, vim te chamar pra gente almoçar, o que acha? Para celebrar sua chegada!

– Almoço… é… acho que vai ser uma ótima ideia! 

Rafa seguiu com Camila para fora da escola. No caminho, cruzaram com Carmelita, que quis saber da primeira impressão de Rafaela sobre os alunos. Melhor impossível, Carmelita! Temos ótimas turmas aqui! E mesmo com a descrença da diretora, ela queria que fosse verdade. As duas se despediram de Juca, na porta, e seguiram para um restaurante que tinha na esquina. Simples, mas delicioso. Comida caseira e preço baixo. Exatamente aquilo que todo professor procura.

Assim que passaram pela porta, perceberam que tinham muitas mesas vazias. Então, elas escolheram uma perto da janela e sentaram de frente uma para outra. Mal tinham se estabelecido ali, quando uma senhora, de cabelos grisalhos e avental branco chegou na mesa.

– Quem diria que você estaria almoçando aqui de novo, não é? 

Rafa sentiu seu coração acelerar naquele momento, mas não demorou mais de 2 segundos para levantar e abraçar a mulher apertado. Ela tinha saudades, muitas saudades.

– Eu quis vir antes, Nina, mas… 

– Não se preocupe, minha menina! Eu sei que você queria ter aparecido, sua mãe me falou! Estou feliz que você esteja aqui agora… e como professora da Escola, Rafa! Eu tô tão orgulhosa de você… 

– Hoje foi meu primeiro dia, Nina! Uma loucura… estou até agora nervosa, sabia? 

– E você não vai me apresentar sua amiga, ou namorada… 

– Nina!! A Camila é professora na Escola também! Ela só me chamou pra almoçar pra gente comemorar o meu primeiro dia! 

– Amiga, então… por enquanto, ao menos… o almoço das duas é por conta da casa, tá bom? Fiquem à vontade! E você, Rafa, volte mais vezes. Quero saber como anda sua vida

E assim como apareceu, a senhora, que nem parecia tão senhora assim, sumiu. Rafa voltou à cadeira e sorria tão abertamente que Camila não teve opção a não ser acompanhar. 

– Parece que você é famosa mesmo por aqui, né? 

– Nem tanto… a Nina é… minha ex-sogra… por isso essa festa toda… e desculpa pelo comentário dela, a língua é afiadíssima! 

– Não me ofendeu, muito pelo contrário! Fico feliz de estar à altura de ser namorada da queridinha do bairro… só não deixa minha mãe ouvir isso! Ela insiste que eu preciso arrumar uma namorada que seja médica, engenheira ou advogada. Como ela mesmo diz, “alguém vai precisar sustentar a família e não vai ser você sendo professora, né?”

As duas riram e Rafa estava encantada com a forma como Camila a fazia se sentir confortável e tranquila. Sua sexualidade nunca tinha sido um problema ou dúvida, mas, mesmo que inconscientemente, ela sempre esperava uma reação negativa. E até agora, não teve nenhuma com Camila. De quebra, já descobriu que ela gosta de mulheres também. Ai, Rafaela, para de pensar nisso. Tá doida em arrumar história no local de trabalho?

E tentando, a todo custo, não pensar em nada que pudesse envolver as duas juntas, Rafaela conseguiu levar o almoço todo. Realmente, Nina não deixou as duas pagarem e disse que na próxima, elas pagam. Rafa ainda foi até a cozinha dar um abraço na ex-sogra e prometeu voltar o quanto antes. 

A conversa com Camila fluía. Simplesmente fluía. Eram assuntos emendados em assuntos, discussões sobre a vida, a existência, a economia e política. Falavam da educação no Brasil e em segundos estavam discutindo o sonho de conhecer algum país específico fora do país. Comentaram sobre as turmas, sobre como gostavam de ensinar e o que a carreira representava para elas e suas famílias. Podiam passar o resto da tarde conversando se a mãe de Rafa não tivesse ligado preocupada com a filha. 

– Até amanhã, então? – Rafa falou assim que chegaram perto do carro que Camila tinha deixado estacionado perto da escola

– Quer uma carona até em casa? 

– Eu moro a dez minutos andando daqui, não precisa se preocupar

– Ai, que inveja! Você não precisa pegar trânsito de manhã! 

– Qualquer dia desses eu deixo você dormir lá em casa para saber como é a sensação

Ok, Rafaela. Falou demais. Dá tchau e vai embora.

– Ahn… obrigada pela parceria hoje e pelo almoço! 

– Até amanhã, Rafa! 

Rafaela já tinha virado de costas e Camila já tinha destravado a porta do carro e jogado sua mochila lá dentro.

– Ei – Cami chamou antes que Rafa se afastasse demais – eu quero saber como é a sensação de não ter que pegar trânsito de manhã!

Rafaela não falou nada, apenas sorriu abertamente para a amiga e voltou a seguir seu caminho. No caminho, acenou para algumas pessoas conhecidas e deixou que sua mente lhe pregasse algumas peças que envolvia ela e Camila em situações nem um pouco profissionais.

– Desculpa ter ficado atrás de você, filha. Mas fiquei preocupada… – Dona Cida, mãe de Rafa, a recebeu com um abraço

– Tá tudo bem, mãe! Eu saí para almoçar com a Camila, uma amiga lá da escola… encontrei com a Nina, sabia? 

– Ah é? E como foi? 

– Ótimo, mãe! Ela não tem culpa de nada e sempre me tratou maravilhosamente bem… hoje não foi diferente

– Que bom, minha filha, que bom!

– Mãe, queria falar com você sobre um assunto… 

– Diga, Rafa! Mas vem comigo porque to fazendo o jantar

– Aquela quitinete na rua de cima… ainda tá alugando? 

– Tá morando comigo de novo faz menos de um mês e já quer ir embora? 

Ok, como falar pra minha mãe que quero morar sozinha porque talvez, apenas talvez, eu tenha segundas intenções?

– Mãe, eu te amo! Mas eu sinto falta de ter meu espacinho, sabe? Gosto da independência… além do mais, é só na rua de cima! Dois minutos andando e você está lá

– Eu sei, filha. E tá tudo bem! Eu vou falar com o moço que aluga aquelas quitinetes e te aviso, pode ser? 

– Obrigada, mãe! 

Rafa então deixou a mãe terminando o jantar na cozinha, pegou um copo de café quente e foi para seu quarto. O mesmo que tinha quando era adolescente e que agora ela tinha voltado a ocupar. Decidiu preparar suas aulas para impedir sua cabeça de pensar besteiras.

Desiree

Sapatão convicta. Nunca recuso uma cerveja gelada e batata frita. Amo samba, pagode, funk, etc. Me chama pro barzinho, pra baladinha, pra show... pode escolher, eu topo! Geminiana com ascendente em câncer.

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